A mulher de Potifar
Quem foi a mulher de Potifar que tentou seduzir José?
Ficha do personagem
Cerca do século XVIII a.C. ou depois (data debatida); Egito
Aparece em
Resposta curta
A mulher de Potifar é uma figura sem nome da narrativa de José no Egito. Era esposa de Potifar, oficial do faraó e capitão da guarda, que havia comprado José como escravo. Segundo , ela passou a assediar José dia após dia, e ele recusou, dizendo que não podia pecar contra Deus. Quando ela o agarrou pela roupa e ele fugiu, deixando a veste em sua mão, ela o acusou falsamente de tentar violentá-la, usando a roupa como prova. Potifar mandou José para a prisão. O nome Zuleica, popular no Brasil, não está na Bíblia e vem de tradições judaicas e islâmicas posteriores. O episódio é um dos mais citados sobre injustiça sofrida por quem agiu corretamente.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO Novo Testamento não menciona a mulher de Potifar nem apresenta o episódio como figura de Cristo. Há apenas uma ligação temática, que o verbete registra sem forçar: um inocente é acusado com falso testemunho e entregue a uma punição, algo que também aparece na paixão de Jesus, diante de testemunhas falsas (). Em , Estêvão lembra que Deus estava com José e o livrou de todas as suas tribulações. A comparação com Jesus é leitura devocional posterior, não tipologia afirmada pelo texto.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
A mulher de Potifar era esposa de um oficial egípcio, dono de José, que vivia como escravo na casa deles. Ela tentou levá-lo para a cama várias vezes, e José recusou, dizendo que seria um pecado contra Deus. Um dia, ela o agarrou pela roupa e ele fugiu, deixando a veste nas mãos dela. Então ela o acusou falsamente, e José foi preso. A Bíblia não dá nome a ela; o nome Zuleica vem de histórias posteriores.
O mundo dele
A narrativa de José ocupa . Depois de vendido pelos irmãos a mercadores ismaelitas ou midianitas, José é levado ao Egito e comprado por Potifar, descrito em como “oficial do faraó, capitão da guarda”, isto é, alguém ligado à guarda real. A data é debatida; as propostas mais comuns situam José entre os séculos XIX e XVII a.C., e o texto não oferece uma cronologia precisa. Sobre a esposa, o texto não diz nada além do que a cena exige: ela não tem nome, idade, família ou origem, e é chamada sempre pela relação com o marido, “a mulher do seu senhor”.
José está há algum tempo na casa de Potifar quando o episódio acontece. afirma que “o Senhor estava com José” e que a casa de Potifar prosperava sob sua administração; Potifar lhe confiou tudo, “exceto o pão que comia”. Em a narrativa acrescenta que José era “formoso de porte e de aparência”, expressão semelhante à usada para Raquel (), o que prepara a cena seguinte. Do ponto de vista social, José era escravo, sem poder legal para recusar uma ordem da esposa do dono, o que torna a recusa dele ainda mais arriscada. O texto deixa claro que a escolha tinha um custo.
Uma comparação frequente é com o antigo conto egípcio dos Dois Irmãos (papiro d’Orbiney, século XIII a.C.), em que a esposa de um irmão mais velho tenta seduzir o mais novo e, rejeitada, o acusa falsamente. Os estudiosos discutem se há dependência literária entre os dois relatos, e muitos preferem falar de um tema difundido no Oriente Próximo e não de empréstimo direto. O paralelo mostra que o motivo era conhecido, mas a história bíblica tem foco próprio: a integridade de José diante de Deus e o modo como ele se mantém fiel num ambiente estrangeiro e hostil. Esse foco explica por que a mulher aparece apenas como a pessoa que provoca a prova de José, sem que o texto se detenha em seus motivos.
A história
A cena central está em . A mulher de Potifar “pôs os olhos em José” e lhe diz, sem rodeios: “Deita-te comigo” (39:7). José recusa e explica por quê: o senhor lhe confiou tudo, menos ela, e ele não pode cometer “este grande mal” e pecar contra Deus (39:8-9). A razão não é só a lealdade ao dono; tem também uma dimensão religiosa. O texto acrescenta que ela insistia “dia após dia” e que ele não cedia nem aceitava ficar perto dela (39:10). Um dia, quando não havia outros homens na casa, ela o agarrou pela veste, e José fugiu, deixando a roupa em sua mão (39:11-12).
A reação da mulher é o ponto de virada. Ela chama os criados e fala em termos que desviam a culpa: “Vede, trouxe-nos um hebreu para zombar de nós” (39:14). A frase lança uma crítica indireta ao marido e apela à origem estrangeira de José. Diante de Potifar, repete a acusação e diz que o escravo hebreu “que nos trouxeste” veio para “zombar” dela (39:17). O relato bíblico não diz que Potifar acreditou integralmente nela; diz apenas que “se acendeu a sua ira” (39:19) e que mandou José para o cárcere dos presos do rei (39:20). Alguns comentaristas observam que, para um escravo acusado de tentar violentar a esposa do senhor, a prisão em vez da execução poderia indicar dúvida de Potifar, mas o texto não confirma isso.
O nome Zuleica (Zuleikha, em árabe e persa) não vem da Bíblia. Aparece em tradições posteriores: relatos judaicos medievais, como o Sefer ha-Yashar, e a literatura islâmica e persa derivada da sura 12 do Alcorão, que conta a história de Yusuf e da esposa do “aziz” em versão própria, com a cena das mulheres que cortam as mãos ao ver José. Essas versões desenvolvem a personagem, às vezes com simpatia, mas são tradições separadas do texto de Gênesis.
Do ponto de vista teológico, a ênfase de recai em José. A prisão não é o fim: logo em seguida, o texto diz que “o Senhor estava com José” (39:21), e é no cárcere que ele encontra os servos do faraó cujos sonhos interpreta (), o que o levará ao palácio. José mais tarde resumirá sua vida dizendo aos irmãos que Deus transformou em bem o que eles planejaram para mal (). A mulher de Potifar, no relato, é um instrumento dessa trajetória, mas a Bíblia não a trata como figura simbólica.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:O nome da mulher de Potifar é Zuleica, como diz a Bíblia.
nunca dá nome a ela. Zuleica (Zuleikha) aparece em tradições posteriores, como o Sefer ha-Yashar e a literatura islâmica e persa, que desenvolveram a história em versões próprias.
Dizem que:José acabou se casando com ela, como se conta em algumas versões populares.
diz que a esposa de José foi Asenate, filha de Potífera, sacerdote de Om. Que a mulher de Potifar tenha se casado com José é um tema de tradições posteriores, e não consta da Bíblia.
Dizem que:Ela tentou seduzir José uma única vez, e ele foi imediatamente preso.
afirma que ela falava com José “dia após dia”. A acusação só veio depois que ele fugiu deixando a veste, e a prisão foi decidida por Potifar, que não executou José.
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica rabínica
O Talmude (Sotá 36b) discute como José resistiu e conta que, no momento crítico, ele teria visto a imagem do pai. Tradições midráxicas desenvolvem a cena, e uma parte delas atribui à esposa de Potifar motivações próprias, como a visão de que teria descendência de José. Essas leituras ampliam o texto, que não traz esses detalhes.
Patrística e católica
Autores cristãos antigos, como João Crisóstomo em suas homilias sobre Gênesis e Ambrósio em seu tratado sobre José, apresentam José como modelo de castidade e domínio próprio, e a mulher como exemplo de paixão desordenada. A leitura é moral e exortativa e usa o episódio para ensinar a resistir à tentação.
Islâmica
A sura 12 do Alcorão narra a história de Yusuf e da esposa do aziz com elementos próprios, como as mulheres da cidade que cortam as mãos ao ver Yusuf. Na leitura islâmica, Yusuf é um profeta que Deus preserva do mal, e o texto enfatiza o arrependimento da mulher. O nome Zuleikha vem da tradição exegética posterior.
Protestante e evangélica
Costuma ler o capítulo à luz da providência divina, destacando a frase “o Senhor estava com José” (39:2,21) e o resumo de . A mulher de Potifar é vista como parte de uma sequência de sofrimentos pelos quais Deus conduz José ao Egito, sem que o texto atribua a ela uma função simbólica.
O que fazer com isso
O episódio mostra que fazer o certo nem sempre é recompensado de imediato. José recusou, foi acusado e acabou preso, e o texto não suaviza esse custo. A narrativa, porém, não termina ali: afirma que o Senhor estava com ele também no cárcere. Para quem lê, a passagem convida a ter cautela com acusações feitas sem testemunhas e a olhar com mais cuidado para quem sofre consequências por ter recusado algo errado.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas5
- Nahum M. Sarna. Genesis (JPS Torah Commentary), 1989.
- Gordon J. Wenham. Genesis 16–50 (Word Biblical Commentary), 1994.
- Robert Alter. The Five Books of Moses, 2004.
- James L. Kugel. In Potiphar's House: The Interpretive Life of Biblical Texts, 1990.
- Kenneth A. Kitchen. On the Reliability of the Old Testament, 2003.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Qual era o nome da mulher de Potifar?
A Bíblia não diz. O nome Zuleica (Zuleikha) vem de tradições judaicas medievais e da literatura islâmica e persa, não de .
Potifar acreditou na acusação da esposa?
O texto diz que a ira dele “se acendeu” () e que mandou José para a prisão. Não diz se ele acreditou plenamente. Alguns comentaristas notam que a pena, a prisão e não a morte, pode indicar dúvida, mas é inferência.
A mulher de Potifar é a mesma Asenate, esposa de José?
Não. diz que a esposa de José foi Asenate, filha de Potífera, sacerdote de Om. Potifar e Potífera são nomes egípcios parecidos, e a Bíblia trata os dois como pessoas distintas.
Por que José não contou a verdade ao ser acusado?
O texto não registra defesa de José diante de Potifar. Ele aparece em silêncio na cena da acusação. A narrativa não explica esse silêncio, e a posição de escravo estrangeiro contra a esposa do dono ajuda a entender a dificuldade.