"Primogênito de toda a criação" significa que Cristo foi criado?
O versículo seguinte responde à pergunta: "porque nele foram criadas todas as coisas". Se todas as coisas foram criadas nele, ele não está entre as coisas criadas.
Novo Testamento · livro 51 de 66
13 passagens difíceis explicadas em Colossenses, espalhadas por 4 capítulos.
O versículo seguinte responde à pergunta: "porque nele foram criadas todas as coisas". Se todas as coisas foram criadas nele, ele não está entre as coisas criadas.
Em Colossenses 1:16, Paulo diz que "nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam domínios, sejam governos, sejam autoridades", todas criadas por Cristo e para Cristo. A lista sugere uma classificação de seres celestiais, quase uma hierarquia entre anjos. Mas Paulo não catalogava ordens angelicais: escrevia a uma igreja exposta a ensinos que valorizavam poderes espirituais intermediários, afirmando que tudo, visível ou invisível, deve sua existência a Cristo.
Colossenses 1:24 traz uma das frases mais debatidas de todo o Novo Testamento: Paulo diz que se alegra em seus sofrimentos por causa dos colossenses, e que 'cumpre na minha carne o que resta das aflições de Cristo, por amor do seu corpo, que é a igreja'. A formulação parece sugerir, à primeira leitura, que a obra redentora de Cristo estaria faltando algo, incompleta sem a contribuição sofrida do próprio apóstolo — ideia que, se levada ao pé da letra, contradiz o restante do Novo Testamento sobre a suficiência única do sacrifício de Cristo. Por isso, o texto se tornou um dos mais debatidos sobre sofrimento vicário, o papel específico do apóstolo dentro do corpo de Cristo, e os limites exatos do que 'faltava' nas aflições associadas à extensão contínua da missão de Cristo através da igreja.
Em Colossenses 2:8, Paulo alerta a igreja de Colossos: "Cuidado que ninguém vos tome cativos por meio de filosofias e de enganos vãos, conforme a tradição humana, conforme os elementos do mundo, e não conforme Cristo." O apóstolo não ataca o pensamento racional em geral, mas um sistema de ensino específico que circulava naquela comunidade, misturando regras humanas, ascetismo e possivelmente o culto a poderes espirituais, ameaçando afastar os cristãos da suficiência de Cristo.
União hipostática é o nome técnico da doutrina segundo a qual Jesus Cristo é uma única pessoa que possui, plena e simultaneamente, duas naturezas completas — divina e humana —, sem que uma diminua a outra e sem que as duas se misturem numa terceira coisa híbrida.
Em Colossenses 2:11-12, Paulo diz que os crentes foram "circuncidados" com uma circuncisão "não feita por mãos" — o abandono do corpo dos pecados da carne, realizado por Cristo — e liga essa imagem ao batismo, descrito como sepultamento e ressurreição junto com Cristo, "pela fé no poder de Deus". A passagem responde a um ensino que pressionava a igreja de Colossos a acrescentar ritos, entre eles a circuncisão física, à fé em Cristo.
Em Colossenses 2:14-15, Paulo usa duas imagens fortes para descrever o que a cruz realizou. A primeira é jurídica: Deus "riscou a certidão de nossa dívida em ordenanças, a qual era contra nós", e a removeu, "cravando-a na cruz" — como quem cancela um documento de cobrança ao pregá-lo, anulado, num lugar público.
Em Colossenses 2:16-17, Paulo orienta a igreja de Colossos a não deixar que ninguém a julgue por causa de comida, bebida, festas, lua nova ou sábado, porque essas observâncias eram "sombra das coisas que haviam de vir", enquanto "o corpo é de Cristo". O apóstolo reage a um grupo que impunha regras rituais judaicas como marca extra de espiritualidade, pressão sentida por cristãos de origem gentia em Colossos. Ele não nega o valor histórico dessas práticas dentro da aliança com Israel, mas nega que continuem obrigatórias como critério de aceitação diante de Deus, porque apontavam para uma realidade que já chegou em Cristo. Por isso o texto é central no debate entre quem guarda o sábado e quem celebra o domingo, cada lado interpretando a palavra "sombra" de um jeito próprio.
Colossenses 3:2 pede que os cristãos "pensai nas coisas de cima, não nas que estão na terra". O verbo grego por trás de "pensai" não descreve pensamento passageiro, mas orientação constante da mente. Paulo escreve a uma igreja influenciada por ensinos que misturavam regras sobre o corpo, misticismo e devoção a anjos. A resposta dele é um novo centro de gravidade: unidos a Cristo em sua morte e ressurreição (v.1), os colossenses pertencem à esfera onde ele reina.
Em Colossenses 3:9, Paulo escreve aos cristãos de Colossos: "Não mintais uns aos outros, pois já vos despistes do velho ser humano com os seus costumes". O mandamento aparece dentro de uma lista de comportamentos a abandonar, ligada à ideia de que quem está unido a Cristo já deixou para trás uma forma antiga de viver e agora veste um caráter novo, renovado conforme a imagem do Criador.
Colossenses 3:23 pertence ao código doméstico de Colossenses 3, onde Paulo orienta esposas e maridos, filhos e pais, escravos e senhores. O versículo conclui a instrução a escravos do versículo anterior: "E tudo quanto fizerdes, fazei de coração, como para o Senhor, e não para as pessoas." Paulo não formula uma ética profissional genérica; fala a pessoas sem liberdade legal, presas a um sistema que não escolheram, sobre como viver com integridade nele.
Perto do fim da carta aos Colossenses, Paulo instrui os cristãos sobre como se relacionar com "os que estão de fora" — quem ainda não faz parte da comunidade de fé. Ele pede que "convivei com sabedoria" com essas pessoas, "aproveitando o tempo oportuno" (v.5), e completa: "a vossa palavra seja sempre com graça, temperada com sal" (v.6). A imagem une duas qualidades que muitos tratam como opostas: bondade e substância.
Colossenses 4:16 registra uma instrução simples que gerou séculos de curiosidade: Paulo pede que os colossenses, depois de lerem sua carta, providenciem que ela também seja lida na igreja de Laodiceia, e que eles, por sua vez, leiam "a carta de Laodiceia". A expressão grega é ambígua — pode significar uma carta que Paulo escreveu aos laodicenses e que se perdeu, ou uma carta escrita pelos próprios laodicenses e enviada a Colossos. Nenhuma cópia sobreviveu na coleção que se tornou o Novo Testamento, e uma "Epístola aos Laodicenses" que circulou depois, em latim, é hoje reconhecida como composição pseudônima feita de retalhos de Filipenses. O texto expõe algo incômodo para quem pensa no Novo Testamento como coleção fechada desde sempre: Paulo escreveu mais cartas do que as que foram preservadas e canonizadas.