
Pensar nas coisas do alto sem fugir da vida real
o que significa pensar nas coisas do alto em colossenses 3:2
Pensai nas coisas de cima, não nas que estão na terra.
Resposta curta
pede que os cristãos "pensai nas coisas de cima, não nas que estão na terra". O verbo grego por trás de "pensai" não descreve pensamento passageiro, mas orientação constante da mente. Paulo escreve a uma igreja influenciada por ensinos que misturavam regras sobre o corpo, misticismo e devoção a anjos. A resposta dele é um novo centro de gravidade: unidos a Cristo em sua morte e ressurreição (v.1), os colossenses pertencem à esfera onde ele reina.
Isso não significa desprezar o trabalho, a família ou o corpo. Poucos versículos depois, Paulo dá instruções concretas sobre casamento, filhos e trabalho. Ali, "as coisas da terra" designa vícios como imoralidade e ganância, não o mundo material em si. Pensar no alto é deixar a ressurreição de Cristo reorientar os valores do cotidiano.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textosó faz sentido apoiado na afirmação anterior de que os colossenses "ressuscitaram com Cristo" (3:1) e de que sua vida "está escondida com Cristo em Deus" (3:3). O mandamento de pensar nas coisas de cima é a ponta prática de um tema que atravessa toda a Escritura: a vida do povo de Deus sendo continuamente redefinida por sua união com um Deus que age, liberta e ressuscita — do êxodo do Egito à ressurreição de Cristo. Em Paulo, essa trajetória chega ao ponto em que a própria identidade do crente passa a ser descrita como morte e vida com Cristo (compare e , onde os crentes já estão "assentados nos lugares celestiais" com Cristo). O texto não está fazendo uma alegoria ou apontando para um cumprimento profético específico; ele pressupõe, como fato já estabelecido pelo evangelho, que a ressurreição de Cristo redefine para onde o crente orienta sua mente e seus valores, com a plenitude disso ainda reservada para quando "Cristo se manifestar" ().
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
Esse versículo pede para o cristão manter o coração e a mente voltados para Cristo, não para o que é errado ou vazio neste mundo. Não é um convite para fugir da vida real, largar o emprego ou parar de cuidar da família. Logo depois, o próprio Paulo fala sobre casamento, filhos e trabalho de um jeito bem prático. A ideia central é que, se a pessoa já pertence a Cristo, isso deveria mudar as prioridades e os valores que ela carrega no dia a dia, e não fazê-la viver desligada da realidade.
Contexto histórico
Colossenses é uma carta escrita por Paulo, provavelmente durante uma prisão em Roma, a uma igreja que ele mesmo não havia fundado — a comunidade de Colossos foi iniciada por Epafras, um colaborador local (; 4:12-13). Colossos era uma cidade pequena da região da Frígia, na Ásia Menor, que já vinha perdendo importância comercial para as vizinhas Laodiceia e Hierápolis. A carta responde a um problema específico: ensinos que circulavam na igreja misturando elementos de filosofia grega, práticas judaicas de calendário e alimentação, ascetismo corporal e uma espécie de culto ou veneração a anjos (). Paulo chama esse conjunto de ideias de "filosofia e vã sutileza" e passa boa parte do capítulo 2 refutando-o, argumentando que Cristo já é suficiente e que regras sobre "não toques, não proves, não manuseies" não têm poder real de conter os desejos da carne.
O capítulo 3 é a virada prática da carta. Depois de desmontar o sistema de regras dos falsos mestres, Paulo não propõe outro conjunto de regras, mas parte de uma realidade já estabelecida: os colossenses "ressuscitaram com Cristo" (3:1). Essa linguagem retoma o batismo como símbolo de morte e ressurreição com Cristo, tema que Paulo desenvolve de forma mais extensa em . É sobre esse fundamento — uma identidade já mudada, não uma performance a conquistar — que ele apoia o mandamento de 3:2: "pensai nas coisas de cima, não nas que estão na terra". O verbo grego "pensai" (phroneite, de phroneo) aparece no modo imperativo e no tempo presente, o que na gramática grega indica uma ação contínua e habitual, não um único ato mental. Não se trata de um pensamento ocasional sobre o céu, mas de uma disposição constante que deveria orientar decisões, afetos e valores. O contraste "cima/terra" não opõe espírito e matéria como num dualismo grego, mas a esfera onde Cristo reina, ressuscitado e exaltado, à esfera dos valores hostis a Deus que Paulo detalha nos versículos seguintes.
Aprofundamento
O detalhe mais importante para entender está no verbo grego traduzido por "pensai": phroneo. F. F. Bruce, em seu comentário sobre Colossenses (The Epistles to the Colossians, to Philemon, and to the Ephesians, 1984), observa que phroneo no grego do Novo Testamento raramente designa um pensamento isolado; ele carrega a ideia de assumir uma disposição, um modo de avaliar e valorizar as coisas — próximo do que hoje chamaríamos de mentalidade ou postura de vida. No modo imperativo presente, como aparece aqui, o verbo pede um hábito contínuo, não um esforço único de concentração espiritual. Por isso comentaristas como Douglas Moo (The Letters to the Colossians and to Philemon, Pillar New Testament Commentary, 2008) traduzem o sentido como "mantende o coração fixo" ou "orientai continuamente a mente para".
Esse mandamento só faz sentido apoiado no indicativo do versículo 1: "se fostes ressuscitados com Cristo". Na gramática de Paulo, a ordem é sempre indicativo antes do imperativo — primeiro a afirmação do que já é verdade sobre o crente unido a Cristo, depois o chamado a viver de acordo com isso. N. T. Wright (Colossians and Philemon, Tyndale New Testament Commentaries, 1986) chama atenção para o fato de que Paulo não está pedindo aos colossenses que se tornem algo que não são, mas que passem a agir de acordo com o que a união com Cristo já os tornou.
Um ponto que merece cuidado é o que exatamente significa "as coisas da terra" (ta epi tes ges). O contraste não é entre espírito e matéria, como em correntes de pensamento gnóstico ou platônico que rondavam Colossos, mas entre dois sistemas de valores. Isso fica claro porque, cinco versículos depois, o próprio Paulo lista o que quer dizer com "coisas da terra": imoralidade sexual, impureza, paixão desregrada, cobiça e idolatria (3:5). Não é o mundo físico que está sendo condenado — Paulo mesmo, mais adiante no capítulo, dá instruções positivas para maridos, esposas, filhos, pais e trabalhadores, tratando essas relações concretas como o próprio lugar onde a vida "de cima" deve se expressar (3:18–4:1).
Vale notar ainda que "ressuscitastes com Cristo" (v.1) e "a vossa vida está escondida com Cristo em Deus" (v.3) formam, com o v.2, um pequeno bloco que descreve a existência cristã em termos de já e ainda-não: já unidos a Cristo ressuscitado, mas aguardando a manifestação plena "quando Cristo se manifestar" (v.4). Pensar nas coisas de cima é, nesse sentido, viver hoje à luz de uma realidade que ainda será revelada por completo.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Pensar nas coisas do alto significa que o cristão deve se desligar do trabalho, da família e das preocupações concretas da vida, vivendo apenas em contemplação espiritual.
O próprio Paulo, na sequência imediata do mesmo capítulo, dá instruções detalhadas e práticas sobre casamento, criação de filhos, relações de trabalho e convivência em comunidade (:1), mostrando que a mentalidade celestial se expressa justamente na vida concreta, não em fuga dela.
Dizem que:"As coisas da terra" se refere a tudo que é físico ou material, então o mundo material seria algo negativo ou impuro para o cristão.
O texto define o que entende por "coisas da terra" cinco versículos depois: vícios morais como imoralidade sexual, impureza, cobiça e idolatria (), não a matéria ou a criação física, que a Bíblia trata como boa desde .
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
catolica
Tradição ligada à espiritualidade monástica e ascética lê o versículo como convite ao desapego (detachment) dos bens criados, buscando a Deus como bem supremo acima de tudo o mais, sem negar o valor do mundo criado em si.
ortodoxa
Ênfase no nous, a mente ou intelecto voltado para Deus, associada à busca de theosis: a contemplação da glória celestial e a vida litúrgica são vividas como antecipação real do reino que ainda se manifestará plenamente.
luterana e reformada
Lida a partir da doutrina da vocação (e, na tradição luterana, dos "dois reinos"): pensar nas coisas de cima não separa o crente do mundo, mas reorienta a perspectiva com que ele vive suas vocações terrenas — trabalho, família, cidadania.
pentecostal e evangelical
Leitura mais comportamental e prática: a renovação da mente pelo Espírito Santo se traduz em santificação diária, evitando valores mundanos como materialismo e orgulho nas escolhas concretas do cotidiano.
No original3 termos
φρονεῖτεphroneiteG5426
Verbo no modo imperativo e tempo presente, indicando um hábito contínuo de orientar a mente, os afetos e os valores — mais do que um pensamento pontual, é assumir uma disposição constante e duradoura.
ἄνωanoG507
Advérbio que significa "acima" ou "no alto", usado aqui para designar a esfera celestial onde Cristo está entronizado, conforme afirmado no versículo anterior.
γῆςgesG1093
Forma de "terra" (ge), usada em contraste com "ano" para indicar a esfera de valores terrenos e hostis a Deus, detalhados nos versículos seguintes, e não a matéria física em si.
O que fazer com isso
Na prática, "pensar nas coisas de cima" pode ser um teste simples para decisões do dia: essa escolha alimenta ganância, orgulho ou raiva, ou reflete os valores de quem já pertence a Cristo? O texto não pede fuga do trabalho, da família ou das contas a pagar — pede que essas áreas sejam vividas a partir de outra referência. Uma pessoa cansada da rotina não precisa abandonar suas obrigações; precisa deixar que a identidade em Cristo mude o peso e o sentido delas.
Passagens relacionadas5
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas4 obras
- F. F. Bruce. The Epistles to the Colossians, to Philemon, and to the Ephesians (NICNT), 1984.
- N. T. Wright. Colossians and Philemon (Tyndale New Testament Commentaries), 1986.
- Douglas J. Moo. The Letters to the Colossians and to Philemon (Pillar New Testament Commentary), 2008.
- Frederick William Danker (ed.). A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 2000.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
"Pensar nas coisas de cima" significa que o cristão não deve se importar com os problemas do dia a dia?
Não. O próprio Paulo, poucos versículos depois, dá instruções bem concretas sobre casamento, criação de filhos e trabalho (:1). O mandamento pede uma mudança de referência de valores, não o abandono das responsabilidades práticas.
O que exatamente são "as coisas da terra" mencionadas no versículo?
No contexto imediato, Paulo lista o que quer dizer com isso logo em seguida: imoralidade sexual, impureza, paixão desregrada, cobiça e idolatria (). Não se trata do mundo material ou físico em si, mas de um conjunto de atitudes e vícios contrários à vida em Cristo.
Esse versículo apoia um estilo de vida de retiro ou isolamento do mundo?
O texto não pede isolamento físico. Ele pede uma orientação constante da mente e das prioridades enquanto a pessoa continua vivendo suas relações e ocupações normais, como o próprio capítulo deixa claro nos versículos seguintes.
Por que Paulo fala em 'ressuscitar com Cristo' antes de pedir isso?
Porque o mandamento depende de uma realidade já estabelecida, não o contrário. Paulo primeiro afirma o que já é verdade sobre quem está unido a Cristo pela fé e batismo, e só depois chama para viver de acordo com essa nova identidade.
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