domingo, 19 de julho de 2026
Agapas-me ou phileis-me? O jogo de palavras que o português apaga
João 21:15-17
Havendo eles pois já jantado, disse Jesus a Simão Pedro: Simão filho de Jonas, tu me amas mais do que estes outros? Disse-lhes ele: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe: Alimenta meus cordeiros. Voltou a lhe a dizer a segunda vez: Simão, filho de Jonas, tu me amas? Disse-lhe: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe: Apascenta minhas ovelhas. Disse-lhe a terceira vez: Simão, filho de Jonas, tu me amas? Entristeceu-se Pedro de que já pela terceira vez lhe dissesse: Tu me amas? E disse-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo. Disse-lhe Jesus: Alimenta minhas ovelh
O grego tem, no Novo Testamento, mais de uma palavra corrente para "amar", e este trecho usa duas delas alternadamente: ἀγαπάω, agapaō, e φιλέω, phileō. O português quase sempre traduz as duas pela mesma palavra — "amar" —, e o jogo verbal que estrutura a cena inteira desaparece por completo na leitura em tradução. Uma tradição de pregação, popularizada por comentaristas do século XIX como Trench, viu nessa alternância um drama teológico: Jesus pergunta pelo amor mais alto e sacrificial (agapaō) duas vezes, Pedro só consegue responder com o amor de afeto e amizade (phileō), e na terceira pergunta Jesus desce ao nível de Pedro, usando phileō também. Essa leitura é bonita e influente — e a linguística do grego koiné, hoje, olha para ela com reserva séria. Este verbete apresenta os dois lados com honestidade, porque nenhum dos dois é absurdo, e o debate entre eles é real.
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