O que significa "carne e sangue" na Bíblia?
"Carne e sangue" é uma expressão idiomática que significa simplesmente "ser humano". Não é uma referência ao corpo em oposição à alma, nem à natureza pecaminosa, nem à razão humana em oposição à fé.

Toda língua tem expressões que não sobrevivem à tradução palavra por palavra. O hebraico e o aramaico do texto bíblico têm as suas, e várias delas viraram, em português, frases muito mais duras do que eram.
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"Carne e sangue" é uma expressão idiomática que significa simplesmente "ser humano". Não é uma referência ao corpo em oposição à alma, nem à natureza pecaminosa, nem à razão humana em oposição à fé.
Diante da multidão que pede a crucificação de Jesus, e vendo que "nada adiantava", Pilatos pega água, lava as mãos publicamente e declara: "Estou inocente do sangue deste justo. A responsabilidade é vossa."
Ao listar os doze apóstolos, Marcos registra que Jesus deu a Tiago e João, filhos de Zebedeu, o apelido Βοανηργές (Boanerges) — e o próprio evangelista traduz o termo para o leitor grego: "que significa filhos do trovão".
Deuteronômio 6:5 lista três: coração, alma e força. Marcos lista quatro, acrescentando "entendimento" — e Mateus lista três, mas substitui a força pelo entendimento.
Na oração que Jesus faz na véspera da sua morte, ele diz ao Pai que guardou todos os que lhe foram dados, "e nenhum deles se perdeu, a não ser o filho da perdição". Lido em português, "filho da perdição" soa como se estivesse descrevendo uma linhagem — como se Judas descendesse, de algum modo, da perdição.
A imagem soa vingativa em português, e o contexto exclui essa leitura. O versículo seguinte diz: "não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem".
A frase é usada para justificar leituras livres do texto bíblico — "não vamos ficar na letra". O contexto mostra que Paulo está falando de outra coisa inteiramente.
A palavra grega é *paidagogos*, e ela não significa professor. O *paidagogos* era um escravo encarregado de levar a criança à escola, vigiar a conduta dela e aplicar disciplina — uma espécie de tutor-guarda.
A imagem popular é de um estádio, com os fiéis do passado assistindo da arquibancada. Ela é bonita e provavelmente não é o que o texto diz.
A tradução Bíblia Livre, que é o texto âncora deste verbete, verte a abertura de 1 Pedro 1:13 como "preparai as vossas mentes" — uma escolha dinâmica e legítima. Mas o grego por trás dessa frase diz outra coisa, mais concreta: ἀναζωσάμενοι τὰς ὀσφύας τῆς διανοίας ὑμῶν, literalmente "tendo cingido os lombos do vosso entendimento". É a formulação que a tradição (ARC, ARA) traduz ao pé da letra, e que deu nome a este verbete.
A ambiguidade é real e é antiga: a frase pode significar que o amor cobre os pecados de quem ama, ou os pecados daquele que é amado.
A mesma palavra grega, *kosmos*, aparece nos dois textos — e o mesmo autor escreve os dois. João 3:16 diz que Deus amou o mundo; 1 João 2:15 diz para não amá-lo.