
A fome que tirou Elimeleque de Belém
por que a família de Rute foi morar em Moabe
E aconteceu nos dias que governavam os juízes, que houve fome na terra. E um homem de Belém de Judá, foi a peregrinar nos campos de Moabe, ele e sua mulher, e dois filhos seus. O nome daquele homem era Elimeleque, e o de sua mulher Noemi; e os nomes de seus dois filhos eram Malom e Quiliom, efrateus de Belém de Judá. Chegaram, pois, aos campos de Moabe, e assentaram ali. E morreu Elimeleque, marido de Noemi, e restou ela com seus dois filhos; Os quais tomaram para si mulheres de Moabe, o nome da uma Orfa, e o nome da outra Rute; e habitaram ali uns dez anos. E morreram também os dois, Malom e Quiliom, restando assim a mulher desamparada de seus dois filhos e de seu marido.
Resposta curta
Rute começa com uma ironia dura: uma fome atinge justamente Belém, cujo nome em hebraico significa "casa do pão". Para sobreviver, Elimeleque leva a mulher, Noemi, e os dois filhos, Malom e Quiliom, para os campos de Moabe, território vizinho habitado por um povo estrangeiro e, segundo a Lei, de relação historicamente tensa com Israel. A narrativa não julga a família; apenas registra que a fome os empurrou para fora da terra prometida.
Em Moabe, Elimeleque morre, e os dois filhos se casam com mulheres da região, Orfa e Rute. Depois de cerca de dez anos, Malom e Quiliom também morrem, sem deixar filhos. Em poucas linhas, o texto reduz uma família de cinco pessoas a uma só mulher, Noemi, viúva e sem filhos — o ponto de partida amargo da história de lealdade contada no restante do livro.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoEstes versículos não fazem, em si, nenhuma promessa messiânica: são o cenário de perda que abre a história. Mas o Novo Testamento faz uma ligação concreta com o desfecho dessa história: Rute, a moabita que aqui ainda nem foi apresentada como nora fiel, é listada explicitamente na genealogia de Jesus em , ao lado de Boaz e Obede, avô de Davi. A trajetória começa exatamente aqui, com uma família israelita empobrecida e reduzida pela morte, e termina, gerações depois, na linhagem do Messias — mostrando que Deus tece a vinda de Cristo através de perdas comuns e de uma mulher estrangeira, não apesar delas. A observação de que Jesus nasce justamente em Belém, a "casa do pão" (), e mais tarde se apresenta como "o pão da vida" (), é uma leitura tradicional e homilética valorizada por muitos intérpretes — um eco literário bonito, mas que o Novo Testamento não estabelece como argumento explícito; a ligação segura e citável permanece a genealogia de Mateus.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
O livro de Rute abre com uma família de Belém fugindo de uma fome grave. Elimeleque, sua mulher Noemi e os dois filhos vão morar em Moabe, um país vizinho. Lá, Elimeleque morre, os filhos se casam com moças moabitas e, anos depois, os dois filhos também morrem. Sobra só Noemi, sem marido, sem filhos e longe de sua terra. É uma sequência de perdas contada sem drama, que prepara o terreno para a amizade e a lealdade que aparecem no restante da história.
Contexto histórico
O livro de Rute se passa "nos dias em que os juízes governavam" (v.1), a mesma época conturbada narrada no livro de Juízes — um período situado entre a ocupação de Canaã e o início da monarquia, marcado por instabilidade política e infidelidade religiosa recorrente. Nesse cenário, uma fome atinge Belém de Judá. O detalhe carrega ironia: "Belém" vem do hebraico Bet-Lechem, "casa do pão", mas é justamente ali que falta pão. Comentaristas como Robert Hubbard (The Book of Ruth, NICOT) apontam esse contraste como um recurso literário deliberado logo na abertura do livro.
Diante da fome, Elimeleque leva a família para os "campos de Moabe", território a leste do mar Morto, habitado por um povo que a tradição bíblica liga à descendência de Ló (). As relações entre Israel e Moabe eram historicamente tensas: os moabitas contrataram Balaão contra Israel () e, no próprio período dos juízes, o rei moabita Eglom chegou a oprimir Israel (). A Lei também restringia a participação de moabitas na assembleia de Israel (). É nesse contexto de desconfiança mútua que a família se estabelece em Moabe e que os filhos, Malom e Quiliom, se casam com mulheres locais, Orfa e Rute — uma união que, sob a Lei, não era simples.
Os nomes dos personagens também chamam atenção dos estudiosos. "Elimeleque" significa "meu Deus é rei", o que soa irônico num homem que decide deixar a terra da promessa. Alguns comentaristas, como Hubbard e Frederic Bush (Ruth, Esther, Word Biblical Commentary), observam que "Malom" e "Quiliom" podem carregar sentido de fraqueza ou definhamento, embora essa etimologia seja debatida entre hebraístas e não haja consenso sobre ela. O texto bíblico não depende dessas leituras para funcionar; são propostas de interpretação, não fatos estabelecidos.
Em cerca de dez anos (v.4), a família perde todos os seus homens: primeiro Elimeleque, depois os dois filhos. Restam três viúvas — Noemi e suas duas noras — sem sustento nem descendência, numa sociedade em que a sobrevivência de uma mulher dependia quase inteiramente de um marido ou de filhos vivos.
Aprofundamento
A economia narrativa desses cinco versículos chama atenção: em poucas linhas, o texto atravessa uma fome, uma migração, dois casamentos e três mortes. Esse ritmo acelerado é proposital — o narrador não está interessado em detalhar cada evento, mas em levar o leitor rapidamente ao ponto de partida real da história, que é a situação de Noemi no versículo 5: uma mulher sem marido e sem filhos, numa terra que não é a sua.
Uma pergunta recorrente entre leitores é se a saída de Elimeleque de Belém foi um ato de desobediência. O texto não afirma isso. Ele registra a fome como motivo e não atribui as mortes posteriores a nenhum pecado específico da família. Comentaristas divergem aqui: leitores mais antigos, como Matthew Henry, tendem a ler a decisão de deixar a terra prometida durante uma fome como sinal de pouca confiança em Deus. Já comentaristas modernos, como Hubbard, alertam que impor esse julgamento é ir além do que o texto diz — a narrativa é deliberadamente silenciosa sobre culpa, e o restante do livro trata Rute, a moabita, com dignidade, não com suspeita retroativa.
Vale notar também o pano de fundo social. Uma viúva sem filhos no antigo Oriente Próximo enfrentava risco real de pobreza: sem marido ou filho homem, ela dependia de parentes próximos para ter acesso a terra e sustento — o problema concreto que move o restante do livro de Rute, quando entra em cena a figura do "resgatador" (go'el), parente com obrigação de socorrer a viúva. Os cinco versículos iniciais preparam exatamente esse problema, sem ainda apontar a solução.
Por fim, a menção a Moabe não é neutra para o leitor original. Moabe carregava memória de conflito com Israel, e a Lei olhava com reserva para a integração de moabitas ao povo (). Ao fazer os filhos de uma família judia se casarem com mulheres moabitas, o texto já sinaliza, discretamente, que a história vai desafiar fronteiras étnicas esperadas — algo que se tornará central quando Rute, a estrangeira, for tratada como modelo de lealdade (hesed) nos capítulos seguintes. O leitor de , portanto, não deve procurar aqui uma lição moral fechada, mas reconhecer o cenário de perda real e de tensão social que torna a fidelidade posterior de Rute tão notável.
Mais adiante no capítulo, a própria Noemi resumirá esses cinco versículos com uma frase amarga: "Eu me fui cheia, mas vazia me fez voltar o SENHOR" (v.21). Essa leitura retrospectiva confirma que o narrador quer que o leitor sinta, já na abertura, o peso real da perda antes de qualquer sinal de virada na história.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:As mortes de Elimeleque e dos filhos foram um castigo direto de Deus por terem deixado Belém e ido morar em Moabe.
O texto narra as três mortes sem atribuir a elas nenhuma causa moral explícita. Comentaristas como Robert Hubbard notam que a narrativa é propositalmente silenciosa quanto à culpa; ler as mortes como punição é uma inferência de tradição de púlpito, não uma afirmação do texto.
Dizem que:Os filhos morreram porque desobedeceram a Lei ao se casar com mulheres moabitas.
trata da participação de moabitas na assembleia de Israel, e não proíbe explicitamente esse casamento; o texto de Rute também não liga as mortes dos filhos a essa união. O livro, aliás, trata Rute, a moabita, como exemplo de lealdade, não como motivo de suspeita.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
reformada/puritana clássica
Comentaristas como Matthew Henry leem a saída de Elimeleque da terra prometida durante a fome como sinal de pouca confiança em Deus, situando as perdas subsequentes dentro da providência divina que disciplina e ensina.
católica
A ênfase recai sobre a providência divina conduzindo eventos aparentemente trágicos para um bem maior — a futura linhagem de Davi e de Cristo — sem necessariamente emitir um juízo moral sobre a decisão pessoal de Elimeleque.
evangélica contemporânea
Autores como Robert Hubbard (NICOT) argumentam que o texto é deliberadamente silencioso sobre culpa, e que atribuir as mortes a um castigo específico é uma leitura que vai além do que a narrativa afirma.
No original5 termos
בֵּית לֶחֶםBeit LechemH1035
casa do pão; nome da cidade de onde a família de Elimeleque saiu.
מוֹאָבMoavH4124
Moabe, território e povo vizinhos de Israel, a leste do mar Morto.
רָעָבra'avH7458
fome, escassez de alimento; a causa da migração da família.
אֱלִימֶלֶךְElimelek
nome próprio, tradicionalmente entendido como "meu Deus é rei".
נָעֳמִיNo'omi
nome próprio, associado por muitos à ideia de "agradável" ou "doce".
O que fazer com isso
Antes de qualquer explicação teológica, o texto apenas descreve perda: uma mudança forçada pela necessidade, viuvez, filhos que morrem sem deixar herdeiros. Quem hoje enfrenta desemprego, uma mudança de cidade por necessidade ou uma sequência de lutos encontra aqui uma companhia honesta — a Bíblia não pula direto para o consolo, ela primeiro nomeia a dor sem explicá-la por completo. Isso permite orar e seguir vivendo o presente sem precisar ter todas as respostas sobre o motivo do sofrimento antes de dar o próximo passo.
Passagens relacionadas7
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas4 obras
- Robert L. Hubbard Jr.. The Book of Ruth (NICOT), 1988.
- Frederic W. Bush. Ruth, Esther (Word Biblical Commentary), 1996.
- Matthew Henry. Comentário Bíblico Matthew Henry (sobre Rute), 1708.
- Keil e Delitzsch. Commentary on the Old Testament (Judges, Ruth), 1866.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que a família de Elimeleque foi para Moabe?
Uma fome grave atingiu Belém de Judá, e Moabe era um território vizinho e fértil, a leste do mar Morto. Buscar alimento e sustento ali, mesmo em terra estrangeira, era uma alternativa comum em tempos de escassez no antigo Oriente Próximo.
Rute era mesmo de outro povo?
Sim. Rute e Orfa eram moabitas, um povo que a Bíblia liga à descendência de Ló () e que historicamente teve relações tensas com Israel. É por isso que o casamento dos filhos de Elimeleque com elas chama atenção no texto.
Deus estava punindo Elimeleque com as mortes na família?
O texto não afirma isso. Ele narra a fome, a migração e as três mortes sem atribuir causa moral explícita a nenhuma delas. Ler as mortes como castigo é uma inferência de leitores e pregadores, não uma afirmação do texto bíblico.
Quanto tempo a família ficou morando em Moabe?
O texto diz que, depois dos casamentos dos filhos, a família habitou ali por cerca de dez anos (), até a morte de Malom e Quiliom.
Temas
- Sofrimento
- #rute
- #antigo-testamento
- #belem
- #moabe
- #fome
- #noemi
- #elimeleque
- #viuvez
- #migracao