
De onde vem o ditado "Saul também está entre os profetas"?
o que significa saul também está entre os profetas
E quando chegaram ali ao morro, eis que a companhia dos profetas que vinha a encontrar-se com ele, e o Espírito de Deus o arrebatou, e profetizou entre eles. E aconteceu que, quando todos os que o conheciam de antes viram como profetizava com os profetas, o povo dizia o um ao outro: Que sucedeu ao filho de Quis? Saul também entre os profetas? E algum dali respondeu, e disse: E quem é o pai deles? Por esta causa se tornou em provérbio: Também Saul entre os profetas?
Resposta curta
Depois de ungir Saul em segredo, Samuel dá a ele três sinais que confirmariam sua nova condição de líder de Israel. O terceiro é o mais chamativo: perto do morro de Deus, Saul encontraria uma companhia de profetas descendo do alto ao som de saltério, adufe, flauta e harpa, e o Espírito do SENHOR o tomaria com força, fazendo-o profetizar com eles e "ser transformado em outro homem". O texto de narra o cumprimento desse sinal.
A cena espanta quem conhecia Saul: um jovem que saíra atrás de jumentas perdidas, sem formação nem família ligada à profecia, é visto profetizando com os profetas. Isso gera a pergunta "Saul também está entre os profetas?", que o texto explica ter virado provérbio popular em Israel, repetido quando alguém agia de forma inesperada para sua origem.
Contexto histórico
O episódio ocorre logo depois da unção secreta de Saul por Samuel (10:1). Para que Saul tivesse certeza de que aquilo era obra de Deus, e não decisão sua, Samuel anuncia de antemão três sinais que se cumpririam naquele mesmo dia: encontrar dois homens perto do sepulcro de Raquel, encontrar três homens subindo a Betel, e por fim, no "morro de Deus" (provavelmente perto de Gibeá, onde havia uma guarnição filisteia), encontrar uma companhia de profetas descendo do lugar alto tocando instrumentos e profetizando (10:5-6). Samuel promete que o Espírito do SENHOR "arrebatará" Saul e ele profetizará com eles, sendo "transformado em outro homem".
Esse "arrebatar" traduz um verbo hebraico (tsalach) usado noutros lugares para descrever o Espírito vindo com força sobre juízes como Sansão () e, mais tarde, sobre Davi no dia de sua unção (). Não é um dom permanente de caráter, mas uma capacitação pontual para uma tarefa — aqui, confirmar a Saul que Deus mesmo o escolhera.
A "companhia de profetas" (em hebraico, um "cordão" ou grupo de nevi'im) representa um fenômeno atestado em vários pontos do Antigo Testamento: grupos que profetizavam de forma coletiva, muitas vezes acompanhados de música, num estado que o texto chama de hitnabbe (profetizar, forma que pode indicar um comportamento extático e visível, não necessariamente a entrega de um oráculo verbal). O mesmo verbo reaparece, com tom bem mais sombrio, em , quando Saul, perseguindo Davi, é novamente tomado pelo Espírito de Deus, despe as roupas e cai nu diante de Samuel — e o mesmo ditado é repetido.
O versículo 12 é explícito quanto à origem do provérbio: "Por esta causa se tornou em provérbio: Também Saul entre os profetas?" Isso é uma fórmula etiológica comum no Antigo Testamento, em que o narrador explica de onde veio uma expressão que os primeiros leitores já conheciam e usavam, ancorando-a num episódio histórico específico.
Aprofundamento
A pergunta "Saul também está entre os profetas?" aparece duas vezes no livro de 1 Samuel, e comparar as duas ocorrências ajuda a entender o alcance do ditado. Na primeira (10:10-12), o tom é de espanto genuíno: um homem sem vínculo com círculos proféticos passa a profetizar, e isso é lido como confirmação divina de sua nova posição. Na segunda (19:23-24), o mesmo fenômeno acontece num contexto de degradação — Saul, já rejeitado por Deus e perseguindo Davi, é dominado pelo Espírito, despe-se e cai nu por um dia e uma noite inteiros diante de Samuel. O narrador repete a mesma pergunta, mas agora carregada de ironia: o rei que perseguia o ungido de Deus é reduzido a uma cena que lembra, e ao mesmo tempo contrasta, com o início promissor de seu reinado.
Comentaristas como Keil e Delitzsch, em seu comentário clássico sobre os livros históricos do Antigo Testamento, observam que esse tipo de profecia coletiva e extática — associada a instrumentos musicais — não era incomum em Israel antigo; o próprio Eliseu, mais tarde, pede um harpista antes de profetizar (). P. Kyle McCarter, em seu comentário sobre 1 Samuel na série Anchor Bible, destaca que o hebraico hitnabbe descreve um comportamento visível e possivelmente incontrolável, distinto do ofício formal de "profeta" (nabi) que fala em nome de Deus com uma mensagem articulada — daí bandos de nevi'im poderem existir sem que cada participante fosse um profeta no sentido pleno de porta-voz divino.
Ralph Klein, no comentário da série Word Biblical Commentary, nota que a pergunta popular carrega ambiguidade proposital: pode expressar admiração ("veja como esse homem comum foi tocado por Deus") ou surpresa cética ("ele, entre gente tão diferente dele?"). Robert Alter, em sua tradução comentada de Samuel, chama atenção para o jogo entre a mudança de coração prometida a Saul (10:9) e a fragilidade dessa mudança, que o restante da narrativa vai desmontar aos poucos — o mesmo homem tomado pelo Espírito em êxtase profético é, poucos capítulos depois, atormentado por um espírito mau (16:14) e, no fim, abandonado por Deus.
O episódio, portanto, não é uma prova de caráter espiritual permanente de Saul, nem uma ordenação ao ofício profético. É um sinal público e passageiro, dado por Deus para confirmar uma escolha que os próprios israelitas contemporâneos do narrador ainda repetiam como ditado — um lembrete de como um evento concreto pode virar linguagem popular muito depois de seu sentido original ter se perdido para a maioria de quem o repete.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A frase 'Saul também está entre os profetas?' sempre foi usada de forma zombeteira ou depreciativa, como se dissesse que Saul era um impostor.
No contexto de , a reação é de espanto genuíno diante de algo inesperado, não de deboche — o texto não indica ridicularização. O tom mais irônico só aparece na segunda ocorrência da frase, em , num contexto narrativo diferente.
Dizem que:Esse episódio prova que Saul tinha o dom permanente de profecia, como Samuel ou os profetas escritores.
O texto descreve uma manifestação pontual do Espírito ligada à confirmação de sua unção como líder, não uma vocação contínua ao ofício profético; Saul nunca é tratado como profeta no restante da narrativa.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada
Entende o episódio como uma capacitação externa e temporária do Espírito para uma tarefa (o ofício de rei), distinta da regeneração interior — o mesmo Espírito que vem sobre Saul aqui o abandona depois (), o que é lido como evidência de que dons ou manifestações espirituais não equivalem, por si só, à salvação pessoal.
Católica
Lê o episódio dentro da tradição profética de Israel como um sinal de graça que confirma uma vocação — Saul é tocado por Deus para uma missão específica, mas sua história posterior mostra que um dom recebido pode ser resistido ou desperdiçado por más escolhas pessoais.
Pentecostal
Vê no episódio um exemplo veterotestamentário do Espírito de Deus vindo sobre uma pessoa de forma visível e transformadora para capacitá-la a uma tarefa, um padrão que a tradição pentecostal associa (com as devidas diferenças de contexto) à experiência de ser tomado ou revestido pelo Espírito para o serviço.
Luterana
Distingue claramente entre o chamado externo de Deus (o sinal dado a Saul para confirmar sua vocação como rei) e o estado espiritual interior da pessoa chamada — o sinal confirma o ofício, não o caráter, o que explica por que Saul pôde receber esse sinal e, anos depois, ser rejeitado.
No original5 termos
נָבִיא / נְבִיאִיםnabi / nevi'imH5030
profeta, profetas — aqui no plural, referindo-se à companhia de profetas que Saul encontra.
וַיִּתְנַבֵּאvayyitnabbeH5012
forma hitpael do verbo naba, 'profetizar' — descreve um comportamento visível, ligado a forte emoção ou êxtase, não necessariamente um oráculo verbal articulado.
רוּחַ אֱלֹהִיםruach Elohim
Espírito de Deus — a força divina que toma Saul e o capacita a profetizar com o grupo.
חֶבֶל נְבִיאִיםchevel nevi'im
literalmente 'cordão de profetas' — expressão para um grupo ou companhia de profetas atuando junto.
מָשָׁלmashalH4912
provérbio, ditado — o texto usa esse termo para explicar que a pergunta popular se tornou uma expressão fixa entre os israelitas.
O que fazer com isso
O episódio mostra que a capacitação de Deus não depende do currículo ou da origem de alguém: Saul não vinha de família sacerdotal nem tinha formação religiosa, e ainda assim foi usado naquele momento. Isso convida a olhar com mais cuidado para pessoas que parecem "fora do lugar" fazendo algo bom, em vez de julgar pela aparência. É também um lembrete de que um começo promissor não garante, por si só, um final fiel.
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas4 obras
- C. F. Keil e F. Delitzsch. Commentary on the Old Testament: 1 Samuel, 1872.
- P. Kyle McCarter Jr.. I Samuel (Anchor Bible), 1980.
- Ralph W. Klein. 1 Samuel (Word Biblical Commentary), 1983.
- Robert Alter. The David Story: A Translation with Commentary of 1 and 2 Samuel, 1999.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Saul virou um profeta oficial depois desse episódio?
Não. O texto descreve uma capacitação pontual do Espírito para confirmar a Saul que sua unção como líder vinha de Deus, não uma ordenação ao ofício de profeta. Saul nunca é chamado de nabi (profeta) no sentido de porta-voz que recebe e transmite mensagens de Deus.
O que exatamente significa 'profetizar' nesse contexto?
O verbo hebraico usado (hitnabbe) descreve um comportamento visível, associado a música e a um estado de forte emoção ou êxtase, e não necessariamente a pronunciar um oráculo com palavras específicas de Deus. É diferente do uso do mesmo verbo para profetas que falam mensagens articuladas em nome do SENHOR.
Por que a mesma frase aparece de novo em 1 Samuel 19, com um tom tão diferente?
Em 19:23-24 o episódio se repete, mas Saul já está rejeitado por Deus e perseguindo Davi; ele acaba caindo nu diante de Samuel. O mesmo ditado é repetido, só que agora com ironia, marcando o contraste entre o começo promissor do reinado de Saul e sua queda.
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