Paradosis (Tradição)
O que significa Paradosis na Bíblia?
A palavra no original
παράδοσις
paradosis (parádosis) · Strong G3862
O que é entregue ou passado adiante de uma pessoa ou geração a outra; ensino ou costume transmitido.
Tudo isto ao mesmo tempo
- transmissão de ensino e costumes
- tradição dos anciãos e dos pais
- ensino apostólico recebido e entregue
- norma humana que pode anular a palavra de Deus
- continuidade entre gerações
Resposta curta
Paradosis (παράδοσις) é o substantivo grego para aquilo que é entregue de uma pessoa a outra: o que foi transmitido e, por extensão, a 'tradição'. Vem do verbo paradidōmi, 'entregar, passar adiante'. A palavra ocorre cerca de treze vezes no Novo Testamento e tem destinos opostos. Jesus a condena em , quando a tradição dos anciãos anula o mandamento de Deus, e Paulo alerta contra ela em . Mas o mesmo Paulo elogia os coríntios por reterem as tradições que lhes entregou () e manda os tessalonicenses guardá-las ( e 3:6).
O termo não é bom nem mau em si. O que decide é a origem e o conteúdo do que se transmite: um ensino recebido dos apóstolos ou um acréscimo humano que desloca a palavra de Deus. Traduzir sempre por 'tradição' esconde isso.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaA palavra paradosis não aponta para Cristo por si mesma, mas o Novo Testamento mostra qual é o conteúdo central do que foi entregue. Paulo resume o que 'recebeu e transmitiu' como o evangelho de Cristo morto pelos pecados e ressuscitado ao terceiro dia (), e a ceia, que ele também diz ter 'recebido e entregado' (). Em , Jesus coloca o mandamento de Deus acima da tradição humana, e em o critério é se algo é 'segundo Cristo'. A ligação é, assim, indireta: Cristo é o conteúdo e o critério da boa transmissão.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Paradosis é a palavra grega para 'o que foi passado adiante', e é daí que vem a ideia de 'tradição'. O Novo Testamento a usa de duas maneiras opostas. Jesus critica a tradição dos líderes judeus quando ela passa por cima do que Deus mandou, como em . Paulo também avisa contra tradições humanas em . Mas o próprio Paulo pede aos cristãos que guardem os ensinos que ele passou a eles, em e . A diferença está em quem origina o que é transmitido.
De onde vem a palavra
No grego comum, paradosis nomeia qualquer coisa passada adiante: costumes, relatos, ensinos, práticas de uma geração para a seguinte. No judaísmo do Segundo Templo, a palavra ganhou um sentido específico. Os fariseus cultivavam um conjunto de normas de conduta que não estavam escritas na Lei de Moisés, mas que vinham dos 'pais'. O historiador Flávio Josefo, nas Antiguidades dos Judeus, descreve exatamente isso: os fariseus transmitiram ao povo regulamentos recebidos da sucessão dos antigos, e os saduceus rejeitavam o que não constava da lei escrita. É esse o pano de fundo da 'tradição dos anciãos' mencionada nos evangelhos.
Em , fariseus e escribas perguntam a Jesus por que seus discípulos comem sem lavar as mãos, em desacordo com a tradição dos anciãos. Marcos explica que 'todos os judeus' seguiam esses ritos de purificação (7:3-4). A resposta de Jesus não ataca a lavagem em si, mas o princípio: citando , ele diz que seus interlocutores 'deixam o mandamento de Deus' para 'reter a tradição dos homens' (7:8), e dá o exemplo do corbã, a oferta declarada sagrada que livrava o filho de sustentar os pais, contrariando o quinto mandamento (7:9-13).
Fora dos evangelhos, Paulo usa a mesma palavra em sentidos distintos. Em diz que fora zeloso das 'tradições de seus pais', descrevendo sua vida anterior. Em previne contra a filosofia segundo a 'tradição dos homens' e os 'rudimentos do mundo', 'e não segundo Cristo'. Mas em elogia os leitores por guardarem as tradições 'assim como vo-las entreguei', e em e 3:6 usa o mesmo vocábulo para o ensino apostólico, transmitido 'por palavra ou por carta' e que inclui orientações sobre o trabalho e a vida ordeira. Há, portanto, no Novo Testamento, uma tradição que se rejeita e uma que se guarda, e o que as separa não é o rótulo, mas a procedência.
Aprofundamento
O substantivo paradosis (Strong G3862) deriva de paradidōmi, composto de para ('de junto', 'a') e didōmi ('dar'). O verbo significa entregar, passar às mãos de outro, e o léxico de Bauer, Danker, Arndt e Gingrich (BDAG) registra para o substantivo o sentido de 'ensino ou prática transmitida', com a nota de que pode ser neutro, positivo ou negativo conforme o contexto. É o mesmo verbo usado para a 'entrega' de Jesus por Judas, o que mostra que a raiz, sozinha, não diz se o que se entrega é bom ou mau: quem decide é o objeto da transmissão.
Um dado de vocabulário ajuda a ler Paulo. Em , ele escreve: 'transmiti-vos, em primeiro lugar, o que também recebi' (parelabon... paredōka). Os verbos 'receber' e 'transmitir' correspondem aos hebraicos qibbel e masar, usados na cadeia de transmissão da Torá, como no tratado Avot da Mishná (1:1), onde Moisés recebe a Torá no Sinai e a transmite a Josué. Muitos estudiosos observam que Paulo usa aí o vocabulário técnico da transmissão em sentido cristão, e o conteúdo central do que ele entregou é a morte e a ressurreição de Cristo (), não um conjunto indefinido de costumes.
Em o critério de Jesus é nítido. Os verbos são 'deixar' (aphentes) o mandamento e 'reter' (krateite) a tradição; e no versículo 13 o ato é 'invalidar' (akyrountes) a palavra de Deus pela tradição. O problema, portanto, não é a antiguidade nem o fato de a norma ser oral, mas o efeito de anular o que Deus mandou. Em o critério é cristológico: a tradição condenada é a 'segundo os homens' e 'não segundo Cristo'. Já em a tradição apostólica tem duas vias, 'por palavra ou por carta', e é exatamente essa cláusula que as tradições cristãs leem de modos diferentes.
A palavra também não é a única do campo. Vale notar que usa outro termo, patroparadotos ('recebido dos pais'), um composto raro, para falar da 'vã maneira de viver' herdada. Isso mostra que a crítica à herança humana vazia não depende apenas de paradosis. A lição filológica é simples: paradosis é um termo de função, e não de valor. Para saber se a tradição é boa ou má, é preciso perguntar quem transmite, o que transmite e com que efeito sobre a palavra de Deus. Foi a essa pergunta que Jesus e Paulo responderam, cada um em seu contexto, e por isso o mesmo substantivo recebe aprovação num texto e reprovação em outro.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Jesus condenou toda tradição religiosa, e por isso o cristão deve rejeitar qualquer prática transmitida.
Em Jesus condena a tradição que anula o mandamento de Deus, não a transmissão como tal. Paulo, que também critica 'tradição dos homens' em , manda guardar as tradições apostólicas em e . O mesmo termo grego recebe avaliação oposta conforme a origem do que se transmite.
Dizem que:Paulo manda guardar toda tradição da igreja, de qualquer época.
Os textos de Paulo falam das tradições que ele mesmo ensinou 'por palavra ou por carta' () e que os leitores 'receberam de nós' (3:6). Não é uma ordem genérica para práticas posteriores. Se e como a tradição posterior pode ter autoridade é justamente o ponto em que as confissões cristãs divergem, e o texto não resolve a questão sozinho.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica e ortodoxa
Entendem a Tradição apostólica como a transmissão viva do evangelho na Igreja, que não é separada da Escritura. A constituição Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, trata Escritura e Tradição como duas formas de uma mesma fonte, e lê como indício de que o ensino apostólico não se esgotou no texto escrito.
Protestante (sola Scriptura)
Reconhece valor às tradições da igreja, mas as subordina à Escritura como norma final. Lê as tradições apostólicas de e como o ensino que os apóstolos depois deixaram registrado no Novo Testamento, e como advertência contra toda norma humana que se iguale à palavra de Deus.
Judaísmo rabínico
Vê na transmissão oral, descrita em Avot 1:1, a Torá oral dada junto com a escrita no Sinai, e a Mishná como seu registro. A crítica de Jesus em é lida, nessa perspectiva, como uma discussão interna sobre o alcance dessa autoridade, e não como rejeição da ideia de tradição.
O que fazer com isso
A palavra convida a perguntar, diante de qualquer costume religioso, de onde ele vem e o que faz com a palavra de Deus: serve a ela ou a substitui? O Novo Testamento não oferece uma regra fácil contra toda tradição nem a favor de toda tradição. Pede discernimento, medido pelo que Cristo e os apóstolos de fato entregaram, e honestidade para reconhecer que cada comunidade herda hábitos que precisam ser examinados.
Passagens relacionadas8
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Fontes consultadas6 obras
- Bauer, W.; Danker, F.W.; Arndt, W.F.; Gingrich, F.W.. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 2000.
- Kittel, G.; Friedrich, G. (eds.). Theological Dictionary of the New Testament (verbete paradidōmi, paradosis), 1964.
- Marcus, J.. Mark 1–8 (Anchor Bible), 2000.
- Flávio Josefo. Antiguidades dos Judeus (livro 13).
- Concílio Vaticano II. Constituição dogmática Dei Verbum, 1965.
- Strong, J.. Strong's Exhaustive Concordance of the Bible, 1890.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que Jesus critica a tradição em Marcos 7, mas Paulo manda guardá-la?
Porque falam de tradições diferentes. Jesus critica a tradição dos anciãos quando ela anula o mandamento de Deus, como no caso do corbã. Paulo manda guardar o que ele mesmo ensinou às igrejas. O termo grego é o mesmo, paradosis, e o que muda é a origem e o efeito do que é transmitido.
Paradosis aparece quantas vezes no Novo Testamento?
Cerca de treze vezes, nos evangelhos de Mateus e Marcos (sobre a tradição dos anciãos) e nas cartas de Paulo (Gálatas, Colossenses, 1 Coríntios e 2 Tessalonicenses). O número exato depende da edição do texto grego, por isso convém conferir numa concordância.
Qual é a relação entre paradosis e o verbo paradidōmi?
Paradosis é o substantivo formado a partir de paradidōmi, 'entregar'. O verbo é usado para entregar uma pessoa, uma mensagem ou um ensino. Por isso a palavra, sozinha, é neutra, e o contexto indica se a transmissão é boa ou má.
Tradição e Escritura são a mesma coisa para os católicos?
Não. A teologia católica as distingue, mas as considera inseparáveis, vindas da mesma fonte, que é a revelação. Os protestantes, em geral, mantêm a Escritura como norma suprema e tratam as tradições como subordinadas a ela.
Palavras próximas
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