Mishná (Repetição, Lei Oral)
O que é a Mishná?
A palavra no original
מִשְׁנָה
mishná (mišnāh)
Ensino por repetição; a coletânea rabínica da lei oral organizada por Judá ha-Nasi.
Tudo isto ao mesmo tempo
- repetir e ensinar oralmente
- lei oral rabínica
- compilação organizada por temas
- tradição dos mestres (tanaítas)
- base do Talmude
Resposta curta
Mishná (מִשְׁנָה) é o nome da primeira grande compilação escrita da tradição oral judaica, reunida por volta de 200 d.C. pelo rabino Judá ha-Nasi. O termo vem do verbo hebraico shanah, "repetir, ensinar", e remete ao método de transmitir a lei por repetição oral. Nesse sentido, a palavra não está na Bíblia: é um termo rabínico, posterior ao Novo Testamento em mais de um século.
A Mishná organiza-se em seis ordens (sedarim): sementes, festas, mulheres, danos, coisas sagradas e purezas. Serviu de base ao Talmude, que a comenta. Para quem estuda a Bíblia, ela é uma fonte valiosa sobre como o judaísmo rabínico aplicava a Torá, mas deve ser usada com cuidado para descrever o tempo de Jesus, porque registra debates de uma época posterior à destruição do Templo.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
ContrasteA Mishná não aparece no Novo Testamento e é posterior a ele, mas a questão que ela representa, o peso da tradição oral ao lado da Escritura, aparece nos evangelhos. Em , Jesus contrasta o mandamento de Deus com a tradição dos anciãos quando esta o anula, e cita . O contraste é pontual, e não uma rejeição de todo ensino herdado: em outros textos Jesus reconhece a autoridade dos que ensinam a Lei () e afirma que não veio abolir a Lei (). O texto não diz que Jesus respondia à Mishná, e sim que pôs a vontade de Deus acima de uma prática que a encobria.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
A Mishná é um livro judaico que reúne, por escrito, ensinos sobre como viver a lei de Moisés. Foi organizada por volta do ano 200 depois de Cristo, pelo rabino Judá, o Príncipe. Antes disso, esses ensinos eram passados de boca em boca. O nome vem de um verbo que significa "repetir", porque se aprendia repetindo. Ela não faz parte da Bíblia e foi escrita muito depois de Jesus. Por isso ajuda a entender o judaísmo, mas não deve ser usada como retrato exato da época de Jesus.
De onde vem a palavra
Depois da destruição do Templo de Jerusalém, em 70 d.C., o judaísmo perdeu o centro do sacrifício e do sacerdócio e passou a se organizar em torno do estudo da Torá e das sinagogas. Os mestres que lideraram essa reorganização, chamados tanaítas ("os que repetem, ensinam"), discutiam como aplicar a lei de Moisés a casos concretos. Um deles, Judá ha-Nasi, chamado simplesmente de "Rabi", reuniu por volta do ano 200 d.C. o material numa obra organizada por assunto, escrita no hebraico rabínico conhecido como hebraico mishnaico. A tradição o liga à Galileia, em lugares como Bet-Searim e Séforis.
A palavra mishná vem da raiz shanah, "repetir". Na Bíblia existe um substantivo parecido, mishneh, que significa "segundo, dobro, cópia". diz que o rei deve escrever para si uma "cópia (mishneh) desta lei", e é por isso que o livro de Deuteronômio recebeu em grego o nome de "segunda lei" (deuteronomion). A Mishná rabínica é outra coisa: nomeia o ensino transmitido por repetição, um modo de estudar em que o aluno repete a lição até guardá-la.
Para os rabinos, a Torá escrita foi dada a Moisés junto com uma explicação oral, transmitida de geração em geração. O tratado Avot (1:1) resume essa cadeia: Moisés recebeu a Torá no Sinai e a entregou a Josué, e assim por diante, até os mestres. Essa é uma afirmação de fé da tradição rabínica, e os historiadores a tratam como tal. O que se pode documentar é que, no tempo de Jesus, os fariseus mantinham normas "recebidas dos pais" que não estavam na Lei escrita, segundo o historiador Flávio Josefo (Antiguidades 13.297), e que os saduceus as rejeitavam. A Mishná é o resultado escrito de um longo processo posterior a essa discussão.
O Novo Testamento, naturalmente, não a conhece. O que ele conhece é a "tradição dos anciãos" de , prática de grupos judeus do tempo, que a Mishná só registraria depois e de forma já transformada pela vida sem Templo.
Aprofundamento
A Mishná tem seis ordens (sedarim), divididas em 63 tratados. Zeraim ("sementes") trata de agricultura e de ofertas da terra. Moed ("festas") cuida do sábado e das festas. Nashim ("mulheres") reúne leis de casamento, divórcio e votos. Nezikin ("danos") é o direito civil e penal, e inclui o tratado Avot, de ditos dos mestres. Kodashim ("coisas sagradas") discute sacrifícios e o Templo. Tohorot ("purezas") regula a pureza ritual. Cada ordem organiza o material por tema, e não por livro bíblico, o que a distingue das coleções de midrash. Ela cita a Escritura com menos frequência e registra opiniões divergentes, com o nome de quem as defendeu. Como guarda também as posições minoritárias ao lado da que prevaleceu, documenta um debate vivo, e não um código fechado, o que explica seu valor para os historiadores.
A Mishná é a base do Talmude, formado pela Mishná mais a Guemará, o comentário dos mestres seguintes (os amoraítas). Há o Talmude de Jerusalém, ou palestino, de cerca de 400 d.C., e o Talmude da Babilônia, concluído por volta do século VI. Existem também a Tosefta, coleção paralela de material mishnaico, e as baraitot, ensinos tanaíticos que ficaram fora da Mishná.
O ponto de cautela é histórico. Muitas leis da Mishná são atribuídas a mestres anteriores a 70 d.C., e alguns tratados descrevem o Templo em funcionamento, o que sugere material antigo. Mas a obra foi editada mais de um século depois, e os historiadores divergem sobre quanto dela se pode projetar sobre o judaísmo do tempo de Jesus. E. P. Sanders usa a Mishná como evidência, com critério; Jacob Neusner insiste que cada atribuição precisa ser testada. O risco é o anacronismo: ler como se Jesus debatesse o texto da Mishná.
Em , fariseus e escribas perguntam por que os discípulos comem sem lavar as mãos, "segundo a tradição dos anciãos". Jesus responde citando e acusa alguns de anular a palavra de Deus por causa de uma tradição, com o exemplo do corbã, voto que dedicava bens a Deus e podia deixar os pais sem sustento. A Mishná trata de votos no tratado Nedarim e de lavagem das mãos no tratado Yadayim, o que mostra que os assuntos eram reais no judaísmo, mas essas passagens não são a fonte de Marcos. A crítica de Jesus não recai sobre a tradição como tal. Recai sobre o uso de uma regra humana que contradiz um mandamento claro, como o de honrar pai e mãe ().
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:A Mishná já era o livro de estudo dos fariseus no tempo de Jesus.
A Mishná foi reunida por volta de 200 d.C., mais de um século depois do Novo Testamento. Pode conter material anterior, mas a obra como livro é posterior, e atribuir seu conteúdo ao tempo de Jesus sem teste é anacronismo.
Dizem que:Jesus condenou a lei oral judaica como um todo em Marcos 7.
O texto critica uma prática específica, o corbã, que anulava o mandamento de honrar os pais. Os evangelhos mostram Jesus aceitando partes da prática judaica de seu tempo, e a expressão 'lei oral' como sistema organizado vem de época posterior.
Dizem que:A Mishná e o Talmude são a mesma obra.
A Mishná é a compilação mais antiga, de cerca de 200 d.C. O Talmude inclui a Mishná e acrescenta a Guemará, o comentário dos séculos seguintes, em duas versões, a de Jerusalém e a da Babilônia.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaísmo rabínico ortodoxo
Entende a Mishná como registro escrito da Torá oral, dada a Moisés no Sinai junto com a Torá escrita e transmitida por uma cadeia ininterrupta de mestres, e portanto vinculante.
Judaísmo caraíta
Rejeita a autoridade da Torá oral rabínica e defende que a prática deve nascer da leitura direta da Escritura, ainda que reconheça o costume como auxiliar.
Protestantismo histórico
Lê como advertência de que tradições humanas não podem anular a palavra de Deus, e tende a ver a Mishná como testemunho do judaísmo posterior, não da fé dos autores bíblicos.
Estudos históricos críticos
Trata a Mishná como fonte de valor, mas posterior, que precisa ser comparada com Josefo, Qumran e o Novo Testamento antes de ser usada para descrever o judaísmo anterior a 70 d.C.
O que fazer com isso
A Mishná ensina uma distinção útil: tradição e Escritura não são a mesma coisa, mesmo quando uma nasce da outra. Em qualquer comunidade de fé, costumes antigos podem ajudar a viver o texto ou podem encobri-lo. Perguntar de onde vem uma prática, quando surgiu e o que ela pretende proteger é um exercício honesto de leitura, que modela sem negar o valor de ensinar e de transmitir.
Passagens relacionadas7
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Fontes consultadas6 obras
- Danby, H.. The Mishnah (tradução), 1933.
- Neusner, J.. The Mishnah: A New Translation, 1988.
- Strack, H. L.; Stemberger, G.. Introduction to the Talmud and Midrash, 1996.
- Sanders, E. P.. Judaism: Practice and Belief, 63 BCE - 66 CE, 1992.
- Cohen, S. J. D.. From the Maccabees to the Mishnah, 1987.
- Jaffee, M. S.. Torah in the Mouth: Writing and Oral Tradition in Palestinian Judaism, 2001.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O que quer dizer Mishná?
Vem do verbo hebraico shanah, que significa repetir ou ensinar. O nome lembra que a lei oral era aprendida por repetição antes de ser posta por escrito, por volta do ano 200 d.C.
Qual a diferença entre a Torá e a Mishná?
A Torá escrita são os cinco primeiros livros da Bíblia. A Mishná é uma compilação rabínica de ensinos sobre como aplicar essa Lei na vida, que a tradição considera parte da Torá oral. Não está na Bíblia cristã nem na Bíblia hebraica.
A Mishná ajuda a entender o Novo Testamento?
Pode ajudar como fonte de comparação, pois registra debates sobre sábado, pureza e votos que também aparecem nos evangelhos. Mas é posterior, e seu uso exige cuidado para não atribuir ao tempo de Jesus o que só foi registrado depois.
Quais são as seis ordens da Mishná?
Zeraim (sementes), Moed (festas), Nashim (mulheres), Nezikin (danos), Kodashim (coisas sagradas) e Tohorot (purezas). Juntas, somam 63 tratados.
Palavras próximas
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