
Por que Paulo empilha sete citações do Antigo Testamento em Romanos 3
Por que Paulo junta tantos versículos diferentes do Antigo Testamento em Romanos 3:10-18?
como está escrito: Não há justo, nem um sequer. Ninguém há que entenda, ninguém há que busque a Deus. Todos se desviaram, e juntamente se tornaram inúteis. “Não há quem faça o bem, não há um sequer”. Salmos 14:1-3; 53:1-3; Eclesiastes 7:20 “Suas gargantas são sepulcro aberto; com suas línguas enganam”; Salmos 5:9 “veneno de serpentes está sob seus lábios”. Salmos 140:3 “Suas bocas estão cheias de maldição e amargura”. Salmos 10:7 “Seus pés são velozes para derramar sangue. Destruição e miséria há em seus caminhos, e não conheceram o caminho da paz”. Isaías 59:7-8 “Diante dos seus olhos não há temor a Deus”. Salmos 36:1
Resposta curta
Depois de argumentar que judeus e gentios estão igualmente sob pecado, Paulo não resume a conclusão com suas próprias palavras: ele encadeia sete citações consecutivas de Salmos e Isaías, uma atrás da outra, formando um mosaico de acusação que cobre garganta, língua, lábios, boca, pés e olhos. Essa técnica de encadear vários versículos em sequência sobre um mesmo tema era método de argumentação conhecido na tradição rabínica, usado aqui para mostrar que a acusação de pecado universal não é invenção pessoal de Paulo, mas conclusão já presente, espalhada e repetida, dentro das próprias Escrituras de Israel. O resultado é um argumento que soa como veredito coletivo da própria tradição escriturística, não como opinião isolada de um apóstolo específico.
Como isso aponta para Jesus
ContrasteO retrato de corrupção universal que as sete citações constroem prepara o contraste que Paulo apresenta poucos versículos depois: 'mas agora, sem lei, é manifestada a justiça de Deus... mediante a fé em Jesus Cristo'. O diagnóstico sombrio de só faz sentido pleno como pano de fundo para o anúncio da solução que se segue imediatamente.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Para provar que todo ser humano, judeu ou gentio, está sob pecado, Paulo não usa apenas suas próprias palavras: ele junta sete citações diferentes dos Salmos e de Isaías, uma depois da outra, formando uma lista que passa pela garganta, língua, lábios, boca, pés e olhos das pessoas. Essa técnica de juntar vários versículos sobre o mesmo assunto era um método conhecido entre rabinos judeus, usado para mostrar que a conclusão já estava nas próprias Escrituras de Israel, não era invenção de Paulo.
Contexto histórico
chega a um momento crucial do argumento que Paulo vem construindo desde o início da carta: depois de mostrar, no capítulo 1, que os gentios são culpados por rejeitarem o conhecimento de Deus disponível na criação, e no capítulo 2, que os judeus também são culpados por não cumprirem integralmente a lei que possuem e ensinam a outros, ele precisa fechar o argumento de forma que nenhum grupo possa reivindicar exceção. É nesse ponto que, em vez de apresentar uma síntese teológica própria, Paulo recorre a uma sequência de sete citações do Antigo Testamento, todas do livro de Salmos exceto a última, de Isaías: (ou 53, versão paralela), sobre não haver quem faça o bem; , sobre a garganta como sepulcro aberto; , sobre veneno debaixo dos lábios; , sobre a boca cheia de maldição; , sobre a ausência do temor de Deus; e , sobre pés velozes para derramar sangue. A introdução da série, 'como está escrito', é fórmula técnica de citação escriturística amplamente usada por Paulo em toda a carta, mas aqui ganha peso adicional pela quantidade e pela organização quase anatômica das citações, percorrendo o corpo humano de cima a baixo — garganta, língua, lábios, boca, pés, olhos — como se estivesse descrevendo, parte por parte, a extensão completa da corrupção humana diante de Deus, sem deixar zona do corpo ou da conduta fora do diagnóstico. É importante notar que Paulo já havia estabelecido, no versículo anterior, que tanto judeus quanto gentios estão 'debaixo do pecado', de modo que a sequência de citações funciona como prova escriturística detalhada dessa afirmação já feita, não como introdução de tema novo dentro do argumento mais amplo do capítulo. Essa organização quase corporal das citações não é acidente de compilação: sugere planejamento retórico deliberado, como se Paulo estivesse construindo, peça por peça, um retrato completo e inescapável da condição humana diante do padrão de justiça que ele está prestes a apresentar como solução no restante do capítulo.
Aprofundamento
A técnica usada por Paulo em tem nome na tradição judaica de interpretação: chama-se charaz, literalmente 'encadeamento' ou 'enfiar pérolas', método rabínico documentado em literatura judaica de sinagoga que consistia em reunir várias passagens escriturísticas distintas sobre um mesmo tema, muitas vezes ligadas por palavras-chave ou imagens recorrentes, para construir um argumento cumulativo mais persuasivo do que qualquer citação isolada conseguiria sozinha. Paulo, treinado como fariseu sob Gamaliel segundo o próprio relato de Atos, conhecia bem esse recurso argumentativo e o emprega aqui com precisão retórica: ao empilhar sete testemunhas escriturísticas diferentes, ele transforma a acusação de pecado universal numa conclusão que não depende de sua própria autoridade apostólica, mas de um coro de vozes proféticas e poéticas já reconhecidas como Escritura por qualquer judeu que o ouvisse ou lesse. C. E. B. Cranfield observa que a escolha específica dos textos não é aleatória: a maioria das citações vem de salmos que originalmente lamentavam a opressão de ímpios contra os justos, textos que os primeiros leitores judeus provavelmente aplicariam a inimigos externos de Israel, não a si mesmos. Ao reaplicar essas mesmas palavras à condição universal da humanidade, incluindo Israel, Paulo produz um efeito retórico deliberadamente desconfortável: ele vira contra o próprio povo da aliança acusações que a tradição de leitura mais comum reservava para os de fora. Douglas Moo nota ainda que a sequência termina com a citação de sobre violência e derramamento de sangue, deslocando o foco final da fala e do coração para a ação concreta e destrutiva, preparando o terreno para a conclusão do capítulo: 'não há distinção, porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus'. O uso extensivo e organizado de citações também demonstra algo sobre o método teológico de Paulo mais amplamente: mesmo em sua argumentação mais original sobre justificação pela fé, ele constrói sistematicamente sobre a base das Escrituras já existentes, nunca as tratando como pano de fundo decorativo, mas como fundamento probatório indispensável de cada etapa lógica do seu argumento. Esse compromisso com a base escriturística explica por que a carta, mesmo tratando de temas abstratos como pecado, justificação e graça, permanece ancorada em citações concretas do Antigo Testamento do início ao fim, recusando qualquer separação entre a novidade do evangelho e a revelação anterior já dada a Israel. Essa característica distingue o método paulino de leitura escriturística de abordagens que tratariam o Antigo Testamento apenas como pano de fundo histórico superado, reforçando que a acusação de pecado universal e a solução oferecida em Cristo formam, para Paulo, uma única história contínua, não dois momentos desconectados de revelação.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Paulo inventou ou distorceu os versículos citados, adaptando-os fora de contexto para seu argumento.
As citações reproduzem fielmente o conteúdo dos textos de origem em Salmos e Isaías; o que Paulo faz é reaplicar esses textos, originalmente voltados a descrever ímpios em geral, à condição universal da humanidade, técnica de leitura reconhecida na exegese judaica da época, não distorção do sentido literal das palavras.
Dizem que:Esse encadeamento de citações é único e exclusivo de Paulo, sem paralelo em outra literatura judaica.
O método de encadear textos escriturísticos sobre um mesmo tema (charaz) é documentado em literatura rabínica e também aparece em outros escritos do Novo Testamento e em textos de Qumrã, mostrando que Paulo emprega uma convenção retórica já estabelecida em seu tempo.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura reformada sobre depravação humana
é citado como texto-chave para a doutrina da depravação total, mostrando que nenhum aspecto da natureza humana permanece incorrupto diante do pecado.
Leitura histórico-retórica judaica
O texto é analisado como exemplo claro do método rabínico de charaz aplicado por um autor formado na tradição farisaica, evidenciando continuidade metodológica entre Paulo e a exegese judaica de seu tempo.
Leitura pastoral sobre igualdade diante de Deus
Destaca-se o efeito nivelador do argumento: ao aplicar aos próprios judeus textos que condenavam 'os ímpios' em geral, Paulo elimina qualquer base para reivindicação de superioridade moral de um grupo sobre outro.
No original2 termos
חָרַזcharaz
'Enfiar' ou 'encadear', como pérolas em um colar; termo usado para o método rabínico de reunir várias citações escriturísticas sobre o mesmo tema em sequência argumentativa.
καθὼς γέγραπταιkathos gegraptai
'Como está escrito'; fórmula de introdução de citação escriturística usada repetidamente por Paulo ao longo de Romanos, incluindo antes da série de .
O que fazer com isso
A escolha de deixar as próprias Escrituras de Israel pronunciarem o veredito, em vez de apenas afirmá-lo com autoridade pessoal, mostra um modelo de argumentação que busca fundamento compartilhado, não apenas persuasão retórica isolada. É um convite a fundamentar afirmações difíceis em algo maior do que a própria voz de quem as pronuncia, e a aceitar que o diagnóstico severo sobre a condição humana vem de dentro da própria tradição de fé, não de fora dela.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas2 obras
- C. E. B. Cranfield. Romans (International Critical Commentary), 1975.
- Douglas J. Moo. The Epistle to the Romans (New International Commentary on the New Testament), 1996.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Todas as citações vêm dos Salmos?
Não; seis das sete vêm de diferentes Salmos (14, 5, 140, 10, 36), mas a última, sobre pés velozes para derramar sangue, vem de , ampliando a base profética do argumento além do livro de Salmos.
Esse tipo de encadeamento aparece em outros lugares da Bíblia?
Sim, técnica semelhante aparece em , que encadeia várias citações do Antigo Testamento para argumentar a superioridade de Cristo sobre os anjos, mostrando que o recurso era comum na argumentação cristã e judaica do período.
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