
O hino de Davi que ecoa três salmos
por que o cântico de Davi em 1 Crônicas 16 é quase idêntico aos Salmos 105, 96 e 106
Louvai ao SENHOR, invocai o seu nome, notificai entre os povos os seus feitos. Cantai a ele, cantai-lhe salmos; falai de todas as suas maravilhas. Gloriai-vos em seu santo nome; alegre-se o coração dos que buscam ao SENHOR.
Resposta curta
Quando Davi leva a arca da aliança para a tenda que preparara em Jerusalém, ele organiza Asafe e os levitas para conduzir a primeira celebração pública diante dela (). O hino que o cronista registra em seguida, nos versículos 8 a 10, reproduz quase palavra por palavra o início do Salmo 105. Ao longo do capítulo, o mesmo cântico recolhe trechos que reaparecem no Salmo 96 e no Salmo 106.
Essa sobreposição não indica cópia desonesta nem erro de transmissão. No culto de Israel, hinos e chamados ao louvor circulavam entre os cantores do templo e eram reaproveitados, combinados e adaptados conforme a ocasião, muito antes de serem fixados na forma final que hoje conhecemos como o livro de Salmos. O cronista, escrevendo gerações depois de Davi, reuniu material litúrgico já consagrado para narrar aquele momento de adoração.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoO hino de já convoca: "notificai entre os povos os seus feitos" — um tema que atravessa toda a Escritura, o de que o louvor a Deus não fica contido dentro de Israel, mas é chamado a alcançar as nações. Esse impulso amadurece ao longo do Antigo Testamento e desemboca, no Novo Testamento, na descrição de Cristo como aquele cuja obra faz com que judeus e gentios juntos glorifiquem a Deus, cumprindo o padrão de louvor internacional já ensaiado nos salmos que Davi manda cantar. O hino do cronista funciona, nesse sentido, como um elo antigo de uma corrente que a igreja apostólica reconheceu se completar no anúncio do evangelho a todas as nações.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Quando Davi trouxe a arca sagrada para Jerusalém, ele pediu a Asafe e aos levitas que cantassem um hino de louvor diante dela. Esse cântico, registrado em , é quase igual a partes dos , 96 e 106. Isso não quer dizer que alguém copiou de forma desonesta. Naquela época, os cânticos usados no culto do templo eram compartilhados entre os cantores e reaproveitados em diferentes ocasiões, como acontece hoje quando igrejas diferentes cantam o mesmo hino com pequenos ajustes.
Contexto histórico
A cena de recupera um episódio também narrado em : depois de uma primeira tentativa fracassada (), Davi finalmente transporta a arca da aliança até Jerusalém e a coloca numa tenda que ele mesmo havia preparado (). O templo definitivo ainda não existia — seria construído só por Salomão —, mas Davi já organiza uma estrutura de culto: nomeia Asafe, Hemã e Jedutum e suas famílias como responsáveis pelo canto e pelos instrumentos diante da arca (; 16:4-7), lançando as bases do que se tornaria o corpo permanente de cantores levitas do templo.
O livro de Crônicas foi escrito bem depois do reinado de Davi, provavelmente no período pós-exílico, quando o povo de Israel já havia retornado da Babilônia e reconstruía sua identidade religiosa em torno do culto restaurado. O cronista tinha à disposição fontes escritas mais antigas — entre elas, aparentemente, um repertório de cânticos litúrgicos usados havia séculos no serviço do templo — e as usou para compor sua narrativa. É por isso que o hino colocado na boca dos cantores de Davi soa tão parecido com salmos que também estavam em uso no culto de Israel: os , 96 e 106.
Nesse mundo, um salmo não pertencia a um único autor da forma como hoje entendemos a autoria literária. Os títulos hebraicos atribuem muitos salmos a Davi, a Asafe ou aos filhos de Coré, mas essas atribuições muitas vezes indicam a escola ou guilda de cantores responsável pela peça, não um compositor isolado protegido por direitos autorais. Trechos de louvor podiam circular soltos, ser copiados, reorganizados e reaproveitados em coleções diferentes — um padrão observado também em outros hinos do antigo Oriente Próximo. Entender esse pano de fundo evita tanto a suspeita de fraude quanto a leitura ingênua de que o cronista simplesmente inventou um discurso histórico preciso.
Aprofundamento
A semelhança entre e três salmos distintos é uma das evidências mais claras, dentro da própria Bíblia, de como textos litúrgicos eram compostos e transmitidos no antigo Israel. Os versículos 8 a 22 reproduzem, com pequenas variações de ortografia e algumas omissões, o Salmo 105:1-15. Os versículos 23 a 33 correspondem, quase na íntegra, ao Salmo 96. E os versículos 34 a 36 reúnem o início e o final do Salmo 106 (106:1 e 106:47-48), inclusive a doxologia que fecha o quarto livro do Saltério hebraico — um detalhe que intriga comentaristas, porque essa doxologia parece pensada para marcar o fim de uma seção do livro de Salmos, não o fim de uma cena narrativa em Crônicas.
Historicamente, comentaristas divergem sobre a direção do empréstimo. C. F. Keil, na clássica série de comentários que leva seu nome ao lado do de Franz Delitzsch, defendia que o cronista citou salmos davídicos já existentes e amplamente conhecidos no culto, adaptando-os ao contexto narrativo de . Comentaristas mais recentes, como H. G. M. Williamson e Sara Japhet, observam que as diferenças textuais entre as duas versões — pequenas trocas de palavras, a ausência de certos versos — sugerem que o cronista trabalhava com uma coleção de material litúrgico que já circulava de forma independente dos salmos exatamente como os conhecemos hoje, possivelmente anterior à formação final do Saltério em sua ordem atual.
Em qualquer uma dessas leituras, o fenômeno não equivale a plágio no sentido moderno. A noção de propriedade intelectual individual sobre um texto é estranha ao mundo da produção literária antiga, sobretudo em material de uso litúrgico. Cânticos de louvor eram bens comunitários do culto, mantidos e transmitidos por guildas de cantores — os filhos de Asafe, entre outros — e podiam ser recombinados, resumidos ou ampliados conforme a necessidade de cada celebração. O próprio Novo Testamento reflete prática semelhante ao citar e reorganizar textos do Antigo Testamento em contextos litúrgicos e doutrinários novos, sem que isso comprometa a integridade de nenhum dos dois textos.
Para o leitor de hoje, o paralelo mais próximo talvez seja o hinário de uma igreja: muitos hinos combinam estrofes de autores diferentes, reaproveitam melodias e letras antigas com pequenos ajustes, e são cantados em ocasiões variadas sem que ninguém acuse os hinistas de fraude. O que preserva é uma fotografia desse processo vivo de composição e uso litúrgico, muito antes de haver um livro de Salmos fechado como o conhecemos.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A repetição prova que a Bíblia tem erro de cópia ou plágio interno.
A ideia de plágio pressupõe autoria individual protegida, um conceito estranho à composição de hinos litúrgicos antigos. Cânticos de louvor eram bens comunitários do culto, mantidos por guildas de cantores e reaproveitados de forma legítima e conhecida por todos — não uma cópia escondida.
Dizem que:Como Davi canta esse hino em Crônicas, isso prova que ele é o autor exato dos Salmos 105, 96 e 106 tal como estão hoje no Saltério.
Os títulos hebraicos não atribuem esses três salmos a Davi de forma uniforme — o Salmo 96, por exemplo, é anônimo no texto hebraico. As diferenças textuais entre as duas versões sugerem que a forma final dos salmos no Saltério pode refletir um processo editorial posterior à cena narrada em Crônicas.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Lê esse hino composto como confirmação da antiguidade e da autoridade litúrgica dos salmos, usados desde sempre na oração pública; a repetição textual reforça a ideia de um saltério vivo, incorporado à liturgia das horas e à missa como oração comunitária contínua.
Reformada
Setores ligados ao princípio regulativo do culto veem em um modelo de que o louvor formal da igreja deve se apoiar em textos bíblicos, entendendo a prática de Davi como precedente para a centralidade da Palavra cantada na adoração pública.
Pentecostal
Destaca que Asafe e os levitas foram formalmente designados e depois descritos como profetizando com instrumentos (), lendo esse hino como exemplo bíblico de louvor conduzido sob inspiração, combinando ordem litúrgica com liberdade de expressão no Espírito.
Luterana
Com sua ênfase histórica na composição de hinos baseados diretamente em textos bíblicos, vê nesse capítulo um precedente para reaproveitar e adaptar linguagem bíblica já consagrada na criação de novos cânticos de adoração para a congregação.
No original7 termos
הוֹדוּhoduH3034
imperativo hifil de yadah, 'agradecer/louvar publicamente' — abre tanto este hino quanto o Salmo 105
קִרְאוּ בִשְׁמוֹqir'u vishmoH7121
invocar o nome, convocação pública do nome do SENHOR em adoração
הוֹדִיעוּhodi'uH3045
imperativo hifil de yada, 'fazer saber, tornar conhecido entre os povos'
עֲלִילוֹתָיוalilotav
seus feitos/façanhas — termo usado tanto para atos de Deus quanto de reis humanos
זַמְּרוּzammeruH2167
cantar louvores com acompanhamento instrumental, salmodiar
הִתְהַלְלוּhithhaleluH1984
forma reflexiva de halal (louvar), 'gloriar-se no nome santo' — raiz da palavra hallelujah
מְבַקְשֵׁי יְהוָהmevaqshei YHWH
particípio de baqash, 'os que buscam o SENHOR'
O que fazer com isso
Perceber que o cântico de Davi reaproveita hinos já conhecidos ajuda a ler os Salmos com mais liberdade: eles nasceram para serem cantados de novo, adaptados a diferentes momentos da vida de fé, não apenas lidos uma vez como registro histórico fechado. Isso também dá espaço para reconhecer valor na prática comum de repetir e adaptar cânticos antigos no culto de hoje — recombinar palavras de louvor já testadas por gerações anteriores é parte legítima da tradição de adoração, não uma falta de originalidade.
Passagens relacionadas7
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Fontes consultadas4 obras
- Matthew Henry. Comentário Bíblico de Matthew Henry (1 Crônicas), 1710.
- C. F. Keil. Commentary on the Books of Chronicles (Keil-Delitzsch Old Testament Commentaries), 1872.
- H. G. M. Williamson. 1 and 2 Chronicles (New Century Bible Commentary), 1982.
- Sara Japhet. I & II Chronicles: A Commentary (Old Testament Library), 1993.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O cronista copiou os Salmos 105, 96 e 106, ou foi o contrário?
Os estudiosos divergem. Alguns, como C. F. Keil, entendem que o cronista citou salmos davídicos já conhecidos no culto. Outros, como H. G. M. Williamson e Sara Japhet, apontam diferenças textuais que sugerem uma fonte litúrgica comum, anterior à forma final dos três salmos no Saltério. O texto bíblico não resolve essa questão de forma explícita.
Isso significa que a Bíblia contém plágio?
Não. O conceito moderno de plágio pressupõe propriedade individual sobre um texto, algo estranho à cultura litúrgica antiga. Hinos de louvor eram mantidos por guildas de cantores do templo e reaproveitados livremente em diferentes celebrações, um padrão também observado fora de Israel no antigo Oriente Próximo.
Davi realmente escreveu os Salmos 105, 96 e 106?
Os títulos hebraicos do Saltério não atribuem esses três salmos a Davi de forma unânime — o Salmo 96, por exemplo, é anônimo no texto hebraico. É possível que Davi tenha composto parte do material original, mas a forma final desses salmos provavelmente passou por mãos posteriores.
Por que o cronista incluiu a doxologia final do Salmo 106?
Salmo 106:48 encerra o quarto dos cinco livros em que o Saltério hebraico está dividido, com uma bênção e um amém repetido. Sua presença em sugere que essa fórmula já circulava como conclusão padrão de hinos de louvor, independentemente da estrutura final do livro de Salmos.
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