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Significado Bíblico
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Ilustração da categoria Profecia

Por que deram vinagre a Jesus na cruz? O Salmo 69:21 e as três bebidas da crucificação

Por que ofereceram vinagre a Jesus na cruz, e o que isso tem a ver com o Salmo 69?

Deram-me fel como alimento; e em minha sede me deram vinagre para beber.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

Os evangelhos registram mais de uma bebida oferecida a Jesus na cruz. Antes de ser crucificado, recusou vinho misturado com mirra (), chamado “vinho com fel” em . Durante a crucificação, soldados e um passante ofereceram vinagre em uma esponja (; ; ), bebida que Jesus aceitou antes de dizer “Está consumado”. O Salmo 69:21 diz: “por alimento me deram fel, e na minha sede me deram a beber vinagre”. Os escritores do Novo Testamento ligam os dois momentos. Este verbete explica a diferença entre o analgésico recusado e o vinagre aceito, o papel do hissopo em João e a relação com a Páscoa, sem confundir as bebidas.

Como isso aponta para Jesus

Cumprimento direto

João apresenta a sede e o vinagre como realização do Salmo 69:21: o justo sofredor que pede alívio e recebe vinagre é, no relato da Paixão, o próprio Jesus. O hissopo e a menção à Páscoa reforçam a leitura de Jesus como o cordeiro cuja morte cumpre a imagem do Êxodo.

Respaldo no Novo Testamento:

Em palavras simples

Os evangelhos falam de bebidas diferentes na cruz. Jesus recusou vinho com mirra, que servia para aliviar a dor. Mais tarde aceitou vinagre numa esponja, bebida comum dos soldados, e logo disse “Está consumado”. Os autores do Novo Testamento veem nisso o Salmo 69:21, em que o justo sofredor pede água e recebe vinagre. A sede da cruz é real e humana. O hissopo lembra a Páscoa.

Contexto histórico

O Salmo 69 é uma oração de Davi, em lamento, de alguém que se afoga em águas profundas, perseguido sem causa e abandonado pelos próprios irmãos. É um dos salmos mais citados no Novo Testamento: o versículo 9, “o zelo da tua casa me consumiu”, é aplicado a Jesus em e ; o versículo 4, “odiaram-me sem motivo”, aparece em ; e o versículo 25 é aplicado a Judas em . O versículo 21 pertence ao ponto mais doloroso do lamento: o salmista tem fome e sede, e quem devia consolá-lo lhe oferece o pior. Na narrativa da Paixão, três momentos com bebida se destacam. Primeiro, ao chegar ao Gólgota, Jesus recebe vinho com mirra (), que descreve como vinho misturado com fel; ele prova e recusa. Depois, quando clama na cruz, alguém corre, embebe uma esponja em vinagre e a levanta em uma cana (; ). mostra os soldados se aproximando para oferecer vinagre em tom de zombaria. Por fim, narra que Jesus diz “tenho sede”, que uma esponja com vinagre é posta em um ramo de hissopo e levada à sua boca, e que ele, depois de beber, diz “Está consumado” e entrega o espírito. A expressão “vinagre” não designa necessariamente o vinagre puro: o termo grego oxos podia nomear o vinho azedo ou a posca, mistura de água e vinagre usada pelos soldados romanos. Vale lembrar também o cenário físico: depois de ser pregado, Jesus passa horas exposto ao sol, com perda de líquidos, e a sede é um fato comum nesse tipo de execução, o que torna o pedido de plausível e humano antes de ser simbólico. Entender essas camadas ajuda a perceber que o Novo Testamento não descreve uma cena única repetida em versões contraditórias, e sim uma sequência com bebidas diferentes.

Aprofundamento

Vale separar as bebidas. A primeira, vinho com mirra, era uma oferta de alívio. O Talmude (Sanhedrin 43a) registra o costume de dar aos condenados vinho com incenso para entorpecê-los, e já falava em dar bebida forte a quem está prestes a perecer. Jesus a recusa, o que combina com o seu propósito de passar pela morte plenamente consciente. Mateus chama a mistura de “fel” (cholē), palavra que ecoa o Salmo 69:21 na tradução grega, enquanto Marcos fala em “mirra”; muitos estudiosos entendem que Mateus destaca a ligação com o salmo, e não que os relatos descrevam bebidas diferentes. A segunda bebida é o vinagre de Marcos, Mateus e Lucas, oferecido com a esponja, que na maioria das leituras é um gesto de cuidado misturado com zombaria. A terceira, em João, é a mais discutida. O vinagre era o vinho barato dos soldados, a posca, e o ato de aceitá-lo contrasta com a recusa inicial: Jesus rejeita o que reduz a dor, mas aceita o que sacia a sede. João diz que isso acontece “para que a Escritura se cumprisse” (19:28), e o texto mais próximo é o Salmo 69:21, embora o Salmo 22:15 (“a língua me gruda ao paladar”) também seja citado por estudiosos. O detalhe do hissopo em chama atenção, porque uma planta pequena parece frágil para sustentar uma esponja. Alguns propõem que o texto original falava em hyssō, “dardo” ou “lança”, hipótese antiga sem apoio em manuscritos; outros lembram que o caule de hissopo podia ser longo o bastante. O hissopo também liga a cena à Páscoa: em , um ramo de hissopo aplicava o sangue do cordeiro nas portas, e João situa a morte de Jesus na preparação da Páscoa (19:14), citando ainda “nenhum osso lhe será quebrado” (19:36), eco das regras do cordeiro pascal. Por isso a maioria dos comentaristas vê em João uma intenção teológica clara, sem que isso apague a plausibilidade histórica dos detalhes. Outra pergunta é por que Lucas fala em zombaria e João em ato de socorro. Os relatos tratam de momentos e personagens distintos: em Marcos e Mateus, um homem sem identificação corre e embebe a esponja, enquanto alguns presentes dizem que esperem para ver se Elias vem; em Lucas, são os soldados que oferecem o vinagre junto com a zombaria do título de rei. Nada impede que mais de um gesto, de pessoas diferentes, tenha ocorrido ao longo das horas.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:Os evangelhos se contradizem: Marcos fala em mirra, Mateus em fel e João em vinagre.

    São ofertas diferentes, em momentos distintos: vinho com mirra antes da crucificação (recusado) e vinagre durante a cruz (aceito). Mateus usa “fel” para ecoar o Salmo 69:21, mas isso não anula a diferença entre os dois momentos.

  • Dizem que:O vinagre foi um ato de crueldade dos soldados, sem outro sentido.

    Lucas descreve zombaria, mas Marcos, Mateus e João mostram também um gesto de saciar a sede. A posca era bebida comum dos soldados e, ao aceitá-la, Jesus recebe o que sacia, enquanto recusa o que entorpece.

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Leitura de cumprimento direto

    O Salmo 69:21 é lido como profecia direta da Paixão; João vê nos eventos a realização exata do salmo.

  • Leitura tipológica do justo sofredor

    O salmo descreve a experiência de Davi, o justo perseguido, e Jesus a revive em plenitude; os evangelistas usam o padrão para interpretar a cruz, sem negar o contexto original do salmo.

No original3 termos
  • חֹמֶץḥômeṣH2558

    “vinagre, vinho azedo”; é a bebida oferecida ao sedento no Salmo 69:21.

  • ראֹשׁrō’šH7219

    “fel, veneno, erva amarga”; é o que o salmista recebe como alimento em , associado ao fel de .

  • ὄξοςóxosG3690

    “vinho azedo, vinagre”, bebida barata dos soldados (posca); é o termo usado em .

O que fazer com isso

A cena mostra que Jesus não foi poupado do sofrimento em nenhum detalhe, nem mesmo da sede. Quem passa por dor profunda encontra no Salmo 69 uma linguagem honesta para orar, e em Jesus, alguém que passou por abandono e zombaria. Isso consola quem sofre sem achar resposta. Ao ler essas passagens, vale lembrar que o Evangelho não esconde o lado cru da cruz.

Passagens relacionadas5

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas3 obras
  • Raymond E. Brown. The Death of the Messiah, 1994.
  • D. A. Carson. The Gospel according to John (Pillar), 1991.
  • Martin Hengel. Crucifixion in the Ancient World and the Folly of the Message of the Cross, 1977.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Por que Jesus recusou o vinho com mirra?

A mistura servia para entorpecer os condenados. Os evangelhos sugerem que Jesus preferiu enfrentar a cruz plenamente consciente, embora o texto não explique o motivo em detalhe.

O que era a posca?

Mistura de água e vinagre ou vinho azedo, bebida barata dos soldados romanos. Muitos estudiosos pensam que o oxos dos evangelhos se refere a essa bebida.

Temas

  • #salmo-69
  • #vinagre
  • #crucificacao
  • #hissopo
  • #mirra
  • #posca
  • #joao-19
  • #pascoa

Publicado em 09/10/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 3 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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