
Salmo 22:16: leão ou perfurado?
Por que Salmo 22:16 aparece diferente em algumas traduções da Bíblia?
Porque cães ficaram ao meu redor; uma multidão de malfeitores me cercou; perfuraram minhas mãos e meus pés.
Resposta curta
Salmo 22:16 descreve mãos e pés do salmista de duas formas bem diferentes, dependendo da versão: algumas trazem "como um leão, [dilaceraram] minhas mãos e pés", outras trazem "perfuraram minhas mãos e pés". A diferença nasce de uma ambiguidade real no texto hebraico consonantal, que pode ser lido como ka'ari ("como leão") ou ka'aru ("perfuraram"/"cavaram"), já que o hebraico antigo era escrito sem vogais.
A tradição massorética medieval fixou a leitura "como leão"; a Septuaginta grega, muito mais antiga, e um fragmento dos Rolos do Mar Morto oferecem base para "perfuraram". Não é erro de tradução nem manipulação deliberada de nenhum dos dois lados — é uma divergência textual genuína e documentada, sem solução unânime entre especialistas.
Como isso aponta para Jesus
TipologiaO Salmo 22 é amplamente lido pela tradição cristã como retrato profético do sofrimento do Messias, e a própria narrativa da crucificação nos evangelhos cita ou ecoa vários de seus versículos, incluindo a partilha das roupas (22:18) e o próprio grito de abandono (22:1). Se a leitura "perfuraram" for a original, ela se conecta de forma direta e concreta aos ferimentos de pregos na crucificação; mesmo na leitura "como leão", a imagem de violência extrema contra mãos e pés permanece compatível com essa leitura tipológica mais ampla.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Em Salmo 22:16, algumas Bíblias dizem que as mãos e pés do salmista foram "perfurados", e outras dizem "como um leão" fizeram algo com elas. Isso acontece porque o hebraico antigo era escrito só com consoantes, sem vogais, e essa palavra específica pode ser lida de duas formas diferentes. Textos muito antigos, como a tradução grega chamada Septuaginta e um pedaço dos Rolos do Mar Morto, apoiam "perfuraram"; a tradição judaica que fixou a pronúncia oficial séculos depois escolheu "como leão". Nenhuma das leituras é invenção — é uma dúvida real e antiga sobre o texto.
Contexto histórico
O Salmo 22 é um lamento individual intenso, atribuído a Davi, que começa com o grito "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" — citado por Jesus na cruz segundo e — e descreve com detalhes viscerais o sofrimento físico e o escárnio público de alguém cercado por inimigos: ossos desconjuntados, boca seca, roupas divididas por sorteio (22:18, diretamente citado em ). Para o Israel antigo, esse tipo de lamento tinha função litúrgica real, usado em momentos de aflição comunitária ou pessoal, terminando tipicamente, como este salmo termina, em voto de louvor depois da libertação.
O hebraico bíblico, na forma como foi originalmente escrito, registrava apenas consoantes — sinais vocálicos (os "pontos massoréticos") só foram adicionados por escribas judeus entre os séculos VI e X d.C., séculos depois da composição do salmo, para preservar a pronúncia tradicional conforme era lida em voz alta nas sinagogas. Isso significa que, para boa parte da história de transmissão do texto, mais de uma leitura consonantal permanecia teoricamente possível, e a vocalização registrada refletia a tradição oral de leitura (a "qere") escolhida pelos massoretas, não necessariamente a única leitura originalmente pretendida pelo autor.
É nesse ponto específico, no versículo 16, que as consoantes hebraicas כארו permitem duas análises gramaticais diferentes: como כָּאֲרִי (ka'ari, "como um leão", exigindo que se suplemente mentalmente um verbo de ataque, já que a frase ficaria gramaticalmente incompleta) ou como uma forma verbal de כרה (karah, "cavar" ou "perfurar"), lida כָּארוּ (ka'aru, "perfuraram"). A primeira segue a tradição massorética; a segunda tem apoio em testemunhas textuais bem mais antigas que o texto massorético vocalizado.
Esse tipo de divergência não é exclusividade do Salmo 22: qualquer texto hebraico consonantal sem vogais pode, em princípio, gerar leituras alternativas legítimas, e a crítica textual moderna existe precisamente para avaliar, caso a caso, qual leitura tem maior probabilidade de refletir o texto original com base em manuscritos, versões antigas e considerações gramaticais e literárias — não para decidir por preferência teológica de um lado ou de outro da disputa.
Aprofundamento
A Septuaginta, tradução grega do Antigo Testamento produzida a partir do século III a.C., traduz o versículo com ὤρυξαν (ōryxan, "cavaram" ou "perfuraram"), refletindo claramente uma leitura hebraica próxima de ka'aru, não ka'ari. Um fragmento dos Rolos do Mar Morto encontrado em Nahal Hever (conhecido como 5/6HevPs), datado de período anterior à fixação massorética, também traz uma grafia consonantal que a maioria dos especialistas em crítica textual, incluindo Peter Craigie em seu comentário sobre os Salmos, lê como suporte à tradição "perfuraram" — embora a grafia exata do fragmento ainda gere debate técnico sobre sua vocalização implícita.
Do lado massorético, a leitura "como um leão" tem apoio na tradição rabínica de leitura sinagogal e em versões posteriores como a Vulgata em algumas passagens, mas exige uma elipse verbal pouco natural — o texto ficaria "como um leão minhas mãos e meus pés", sem verbo, obrigando o leitor a suprir mentalmente algo como "dilaceraram" ou "cercaram", o que muitos hebraístas, incluindo Mitchell Dahood em seu comentário sobre os Salmos, consideram gramaticalmente forçado quando comparado à leitura verbal direta oferecida por ka'aru.
Derek Kidner, em seu comentário sobre os Salmos, reconhece a genuína dificuldade textual, mas nota que o sentido geral do versículo — descrição de violência extrema contra mãos e pés do sofredor — permanece coerente com o restante do salmo em qualquer uma das duas leituras, o que reduz, ainda que não elimine, o peso doutrinário que qualquer um dos lados de um debate apologético tentaria colocar sobre a variante textual isolada. É importante notar, com honestidade acadêmica, que cristãos historicamente usaram a leitura "perfuraram" como suporte a uma leitura messiânica/profética da crucificação, e alguns comentaristas judeus modernos, cientes dessa disputa, defendem com mais firmeza a leitura massorética "como leão" — o que significa que o debate técnico e o debate apologético, historicamente, não estão totalmente separados um do outro.
Do ponto de vista estritamente da crítica textual, sem entrar no debate apologético, o peso das evidências documentais mais antigas (Septuaginta e o fragmento de Nahal Hever) favorece ka'aru, e é essa a leitura adotada por comentaristas críticos como Craigie e por versões modernas como a NVI e a NAA em nota de rodapé, ainda que a ARA e outras traduções mais formalmente equivalentes ao texto massorético preservem "como um leão" no corpo do texto, algumas com nota indicando a leitura alternativa. John Goldingay, em seu comentário sobre os Salmos, resume bem a posição de consenso entre críticos textuais contemporâneos: a evidência favorece "perfuraram", mas a incerteza remanescente é honesta e não deveria ser resolvida por conveniência teológica de nenhum lado do debate.
O que costumam dizer errado1 afirmação
Dizem que:A leitura "como leão" foi uma manipulação rabínica tardia para esconder uma profecia sobre Jesus.
Não há evidência histórica de manipulação deliberada; a vocalização massorética documenta uma tradição de leitura oral preservada por séculos, e a própria ambiguidade consonantal já existia antes de qualquer disputa cristã-judaica sobre o texto.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Segue predominantemente a leitura "perfuraram", presente na Vulgata em parte da tradição textual latina, e a usa amplamente na liturgia da Semana Santa como prefiguração direta da crucificação.
Judaica (para contraste histórico)
Mantém a leitura massorética "como um leão", entendendo a imagem como cerco e ameaça de dilaceramento por inimigos ferozes, sem relação com uma leitura messiânica cristã do texto.
No original1 termo
כָּארוּ / כָּאֲרִיka'aru / ka'ari
Consoantes hebraicas idênticas (כארו) que podem ser vocalizadas como "perfuraram" (forma verbal de karah, cavar) ou "como um leão" (ka'ari, substantivo com prefixo comparativo); a ambiguidade nasce da ausência de vogais no hebraico consonantal original do Salmo 22:16.
O que fazer com isso
Esse tipo de variante mostra que reconhecer incerteza textual pontual não enfraquece a confiabilidade geral da Bíblia — é justamente o oposto: a existência de milhares de manuscritos antigos permite identificar e discutir essas diferenças abertamente, em vez de escondê-las. Vale mais integridade intelectual ao lidar com esse tipo de questão do que apologética apressada que finge que não existe nenhuma dificuldade real no texto.
Passagens relacionadas5
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas4 obras
- Peter C. Craigie. Psalms 1-50 (Word Biblical Commentary), 1983.
- Derek Kidner. Psalms 1-72 (Tyndale Old Testament Commentaries), 1973.
- Mitchell Dahood. Psalms I: 1-50 (Anchor Bible), 1966.
- John Goldingay. Psalms, Volume 1 (Baker Commentary on the Old Testament), 2006.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Qual leitura os Rolos do Mar Morto apoiam em Salmo 22:16?
O fragmento de Nahal Hever (5/6HevPs) traz uma grafia consonantal que a maioria dos especialistas lê como mais próxima de "perfuraram" do que de "como um leão", embora o debate técnico sobre a grafia exata continue.
Essa variante muda alguma doutrina cristã essencial?
Não. O sofrimento messiânico descrito no Salmo 22 e sua conexão com a crucificação se sustentam em múltiplos versículos do salmo e em citações diretas nos evangelhos, independentemente de como se resolva essa variante pontual do versículo 16.
Temas
- Como a Bíblia chegou até nós
- #salmo-22
- #critica-textual
- #rolos-do-mar-morto
- #septuaginta
- #messianismo
- #antigo-testamento
- #traducao-biblica