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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Contradições aparentes

Jesus mandou os apóstolos evitarem samaritanos e gentios: isso contradiz a Grande Comissão?

Por que Jesus proibiu os discípulos de irem a samaritanos e gentios, se depois mandou pregar a todas as nações?

Jesus enviou esses doze, e lhes mandou, dizendo: Não ireis pelo caminho dos gentios, nem entrareis em cidade de samaritanos. Em vez disso, ide às ovelhas perdidas da casa de Israel.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

Em , Jesus envia os doze apóstolos com uma instrução restritiva: não seguir caminho de gentios, não entrar em cidade de samaritanos, e ir apenas às ovelhas perdidas da casa de Israel. Capítulos depois, em , o mesmo Jesus ressuscitado ordena fazer discípulos de todas as nações. A tensão incomoda quem espera coerência linear num único personagem central dos evangelhos. Mas a instrução de tem alcance geográfico e temporal explicitamente limitado: é uma missão pontual, durante o ministério terreno de Jesus, endereçada primeiro ao povo da aliança. A ordem final em pressupõe justamente essa etapa cumprida, com a rejeição de parte de Israel já demonstrada e a ressurreição já consumada, abrindo a porta que antes estava deliberadamente fechada.

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

A missão restrita a Israel em e a ordem universal de traçam a trajetória do próprio plano de salvação: Cristo cumpre primeiro as promessas feitas ao povo da aliança e, a partir da sua morte e ressurreição, abre esse cumprimento a todas as nações, realizando a bênção prometida a Abraão para "todas as famílias da terra".

Respaldo no Novo Testamento:

Em palavras simples

No começo, Jesus mandou seus discípulos pregarem só para o povo de Israel, e disse para eles não irem a samaritanos nem a estrangeiros. Depois que Jesus morreu e ressuscitou, ele deu uma ordem diferente: ir a todas as nações do mundo. Isso não é Jesus mudando de ideia nem se contradizendo. É uma missão em duas etapas: primeiro o povo com quem Deus tinha feito promessas antigas, depois todo o resto do mundo, exatamente como Deus já havia prometido desde a história de Abraão.

Contexto histórico

O discurso missionário de organiza o envio dos doze com instruções muito específicas: nada de bolsa, nada de duas túnicas, hospitalidade das casas que os recebem, e um alvo geográfico restrito. A ordem de não ir a gentios nem a samaritanos soa dura a ouvidos modernos, mas responde a uma lógica de prioridade, não de desprezo. Em , Paulo resume essa lógica com a fórmula "primeiro ao judeu, e também ao grego": a história da salvação, no entendimento do Novo Testamento, segue uma sequência, e Israel ocupa o primeiro lugar dela, por causa das promessas feitas aos patriarcas.

A relação com os samaritanos carregava um peso histórico particular. Depois do exílio assírio do século 8 a.C., a população que ficou na região de Samaria se misturou com povos estrangeiros trazidos pelo império, e passou a ser vista, por judeus do sul, como de origem e prática religiosa suspeitas — narra essa mistura. Quando os exilados de Judá voltaram e reconstruíram o templo, os samaritanos foram excluídos do projeto, e construíram seu próprio templo rival no monte Gerizim. No tempo de Jesus, séculos de hostilidade mútua tornavam samaritanos e judeus grupos que evitavam contato direto sempre que possível, como o próprio evangelho de João registra ().

É por isso que chama atenção o fato de Jesus, mesmo durante esse período de missão restrita aos discípulos, atravessar pessoalmente essa fronteira: conversa longamente com a samaritana no poço (), atende ao servo do centurião romano () e, mais tarde, à mulher cananeia que insiste em seu favor (), mesmo repetindo a ela quase a mesma frase de . A restrição, portanto, parece ser uma diretriz de estratégia missionária para os doze naquele momento específico, não uma regra absoluta que Jesus mesmo seguia sem excepcionar. O texto de confirma essa leitura, repetindo a mesma limitação de alvo logo antes de Jesus quebrá-la para atender a mulher gentia que o busca.

Aprofundamento

O grego de chama os destinatários da missão "τὰ πρόβατα τὰ ἀπολωλότα οἴκου Ἰσραήλ" — "as ovelhas perdidas da casa de Israel". A imagem retoma um vocabulário profético bem estabelecido: e descrevem o povo de Israel como um rebanho disperso por pastores infiéis, que só o próprio Deus, ou seu representante escolhido, pode reunir de volta. Ao usar essa linguagem, Mateus situa a missão dos doze dentro de uma expectativa messiânica judaica muito concreta: o Messias reúne as ovelhas perdidas de Israel antes de qualquer outra coisa.

R.T. France, em seu comentário sobre Mateus na série NICNT, observa que a limitação geográfica de precisa ser lida junto com o restante do evangelho, que mostra repetidamente Jesus cruzando essa fronteira em encontros individuais, ainda que a missão organizada dos doze, naquele momento, permanecesse voltada só para Israel. Para France, isso indica uma estratégia deliberada de sequência, não uma convicção teológica sobre a irrelevância dos gentios. Donald Hagner, no comentário da série Word Biblical Commentary sobre , chega a conclusão semelhante: a restrição é temporária e ligada à economia da revelação, cumprindo primeiro as promessas feitas a Israel antes de abrir formalmente a porta às nações — o que só acontece depois da morte, ressurreição e outorga de "toda autoridade no céu e na terra" a Jesus, em .

Craig Keener acrescenta que o público original do evangelho de Mateus, majoritariamente judeu-cristão, precisava entender por que a mensagem de Jesus, nascida dentro de Israel, terminou se espalhando a todas as nações; o evangelho constrói essa transição de forma deliberada, mostrando primeiro a prioridade histórica de Israel e depois a ordem final e universal. e confirmam esse padrão fora de Mateus: os apóstolos anunciam primeiro nas sinagogas, e só depois da rejeição formal por parte de líderes judeus se voltam explicitamente aos gentios, repetindo em nova escala o mesmo movimento de "primeiro a Israel".

A tensão, portanto, não é entre dois planos contraditórios de Jesus, mas entre duas etapas de um único plano que sempre incluiu as nações — a promessa a Abraão em já previa bênção para "todas as famílias da terra" através de sua descendência. e não competem; o segundo texto pressupõe e completa o primeiro, como a segunda metade de uma frase que só faz sentido completo depois da primeira.

O que costumam dizer errado1 afirmação
  • Dizem que:Jesus era indiferente ou hostil a samaritanos e gentios, e só mudou de posição depois.

    Durante o próprio período da missão restrita, Jesus atendeu pessoalmente a samaritana do poço, o centurião romano e a mulher cananeia. A restrição valia para a missão organizada dos doze naquele momento, não para o comportamento pessoal de Jesus, que já sinalizava a abertura futura.

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Dispensacionalista

    Costuma ler e como programas distintos de Deus para épocas diferentes, Israel e depois a Igreja, com a virada acontecendo de forma marcada entre os dois textos.

  • Reformada / pacto da graça

    Tende a ler as duas ordens como um único plano redentor em desenvolvimento contínuo, no qual Israel sempre foi o meio, nunca o limite final, da bênção prometida a todas as nações.

No original1 termo
  • ἀπολωλόταapolōlotaG622

    Particípio de ἀπόλλυμι, "perder-se, estar perdido"; descreve as ovelhas de Israel como um rebanho disperso, retomando a linguagem profética de Jeremias e Ezequiel sobre pastores infiéis.

O que fazer com isso

A sequência de para ensina a distinguir prioridade temporária de exclusão definitiva. Deus pode limitar uma etapa da sua obra sem abandonar seu propósito maior; a paciência com o tempo de Deus não é resignação, é reconhecer que um plano em estágios ainda é um só plano. Antes de ler uma restrição bíblica como contradição, vale perguntar se o texto mesmo já sinaliza que aquilo é uma etapa, não a palavra final sobre o assunto.

Passagens relacionadas5

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas3 obras
  • R.T. France. The Gospel of Matthew (NICNT), 2007.
  • Donald A. Hagner. Matthew 1-13 (Word Biblical Commentary), 1993.
  • Craig S. Keener. A Commentary on the Gospel of Matthew, 1999.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Jesus mudou de ideia entre Mateus 10 e Mateus 28?

Não. O texto apresenta duas etapas de um mesmo plano: primeiro uma missão concentrada em Israel, depois, após a ressurreição, uma missão explicitamente estendida a todas as nações.

Jesus evitava samaritanos e gentios pessoalmente?

Não; ele mesmo atendeu samaritanos e gentios durante o período da missão restrita. A limitação valia para o alcance organizado da missão dos doze, não para os encontros pessoais de Jesus.

Temas

  • Israel
  • #mateus
  • #grande-comissao
  • #samaritanos
  • #gentios
  • #missao

Publicado em 24/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 3 obras citadas, com autor e ano
  • 1 afirmação popular checada e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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