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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Contradições aparentes

Mateus fala de dois endemoninhados em Gadara: por que Marcos e Lucas contam só um?

Por que Mateus diz que havia dois homens endemoninhados e Marcos e Lucas falam de só um?

E quando chegou à outra margem, à terra dos gergesenos, vieram-lhe ao encontro dois endemoninhados que tinham saído dos sepulcros. Eles eram tão ferozes que ninguém podia passar por aquele caminho. E eis que gritaram, dizendo: Que temos contigo, Jesus, Filho de Deus? Vieste aqui nos atormentar antes do tempo? Enquanto isso longe deles estava uma manada de muitos porcos pastando. E os demônios rogaram-lhe, dizendo: Se nos expulsares, permite-nos entrar naquela manada de porcos. E ele lhes disse: Ide. Então eles saíram, e entraram na manada de porcos; e eis que toda aquela manada de porcos se lançou de um precipício ao mar, e morreram nas águas. E os que cuidavam dos porcos fugiram; e ao chegarem à cidade, anunciaram todas estas coisas, inclusive o que havia acontecido aos endemoninhados. E eis que toda aquela cidade saiu ao encontro de Jesus; e quando o viram, rogaram-lhe que se retirasse do território deles.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

A mesma cena dramática, Jesus expulsando espíritos imundos que depois entram numa manada de porcos que se precipita ao mar, aparece nos três evangelhos sinóticos. fala de dois homens endemoninhados vindos dos sepulcros para encontrar Jesus; e mencionam apenas um, e dedicam bem mais espaço narrativo a esse único homem, incluindo seu nome de legião, seu pedido para acompanhar Jesus e sua comissão posterior para testemunhar na região de Decápolis. A diferença no número de personagens é real e não deve ser disfarçada, mas comparar as três versões mostra como cada evangelista edita, resume ou expande detalhes de acordo com seus próprios interesses narrativos, sem que isso comprometa o núcleo histórico compartilhado do relato.

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

Independentemente do número de homens envolvidos, o núcleo do relato mostra Jesus exercendo autoridade completa sobre forças espirituais hostis, mesmo em território gentio considerado impuro por judeus. Esse domínio antecipa a extensão universal do Reino que Jesus proclama, alcançando também os que vivem fora da comunidade judaica tradicional, tema que se intensifica ao longo de todo o evangelho até a Grande Comissão final.

Respaldo no Novo Testamento:

Em palavras simples

Mateus conta que Jesus encontrou dois homens endemoninhados perto de Gadara, mas Marcos e Lucas contam a mesma cena falando de apenas um homem, com muito mais detalhes sobre ele. Isso não significa que um dos evangelhos esteja errado; Mateus costuma resumir suas histórias, enquanto Marcos e Lucas dão mais destaque a um dos dois homens, provavelmente o mais marcante da dupla. É como duas pessoas contando o mesmo acontecimento e escolhendo focar em detalhes diferentes, sem que isso torne nenhuma das duas versões mentirosa.

Contexto histórico

O episódio acontece depois que Jesus atravessa o mar da Galileia e chega à região identificada por Mateus como 'dos gadarenos', e por Marcos e Lucas como 'dos gerasenos', variação de nome ligada a incerteza sobre a localização exata entre as cidades de Gadara e Gerasa, ambas situadas na região da Decápolis, território de maioria não judaica ao sul e leste do mar da Galileia, onde a criação de porcos, animal impuro para judeus, era economicamente viável e socialmente comum.

Mateus narra o encontro de forma compacta: 'saíram-lhe ao encontro dois endemoninhados que vinham dos sepulcros, tão ferozes que ninguém podia passar por aquele caminho'. Os espíritos, através dos homens, reconhecem Jesus como Filho de Deus e pedem para ser enviados a uma manada de porcos que pastava próxima; Jesus concede, os porcos se precipitam ao mar e morrem, e os habitantes locais, alarmados, pedem que Jesus se retire da região. Marcos e Lucas contam essencialmente a mesma sequência de eventos, com um único homem, mas acrescentam detalhes substanciais ausentes em Mateus: o homem vivia nu entre os sepulcros, ninguém conseguia dominá-lo nem com correntes, ele se ferira com pedras, o espírito se identifica como 'Legião, porque somos muitos', e depois da cura, o homem pede para seguir Jesus, mas recebe a instrução de voltar para casa e contar o que Deus fizera por ele, tornando-se o primeiro a proclamar publicamente as boas novas na região gentia de Decápolis.

A diferença no número de personagens, portanto, não é o único ponto de comparação entre os relatos; ela aparece dentro de um padrão mais amplo de Mateus condensar narrativas que Marcos e Lucas desenvolvem com muito mais detalhe biográfico e emocional sobre os indivíduos envolvidos. Esse padrão de compactação editorial de Mateus se repete em outros episódios do evangelho, e é reconhecido amplamente pelos estudiosos como característica estilística consistente do autor, não uma peculiaridade isolada deste relato específico.

Aprofundamento

A explicação mais aceita entre comentaristas evangélicos para a diferença numérica não recorre a artifícios forçados, como supor que Mateus e Marcos descrevem eventos diferentes em datas distintas; a localização, a sequência de ações e o desfecho com os porcos são demasiado semelhantes para tratar-se de dois episódios separados. A explicação mais simples e mais amplamente aceita é editorial: Marcos e Lucas escolhem focar toda a narrativa num único homem, provavelmente porque ele era a figura mais dramática e teologicamente significativa da dupla, o mais visivelmente atormentado, o mais conhecido posteriormente na região por sua transformação e seu testemunho público, enquanto Mateus, escrevendo de forma característica mais resumida ao longo de todo seu evangelho, simplesmente menciona que havia dois homens sem desenvolver a história de ambos com o mesmo detalhe.

Esse tipo de diferença é conhecido na análise dos evangelhos sinóticos como variação por seleção editorial, distinta de contradição factual genuína. Um relator pode mencionar todos os elementos presentes numa cena e outro escolher destacar apenas o mais relevante para seu propósito narrativo, sem que isso torne nenhum dos dois relatos falso. Se alguém testemunha um acidente com dois carros envolvidos e depois relata os fatos mencionando apenas o motorista que ficou ferido, sem negar explicitamente a existência do segundo carro, não está mentindo nem se contradizendo caso outro testemunho mencione ambos os veículos; está apenas focando no elemento que considerou mais importante para contar.

Esse padrão de compactação de Mateus aparece de forma consistente em outros relatos paralelos do evangelho, como na cura do cego ou cegos de Jericó, em que também menciona dois homens, enquanto e mencionam apenas um, chamado Bartimeu por Marcos. A recorrência desse padrão específico de Mateus mencionar dois indivíduos onde os outros sinóticos mencionam um sugere uma característica estilística real e identificável do autor, não uma coincidência isolada exclusiva do episódio de Gadara, o que fortalece a leitura editorial em vez de qualquer hipótese de erro factual genuíno de um dos evangelistas.

Do ponto de vista da confiabilidade histórica dos evangelhos, esse tipo de variação é, na verdade, esperado e até favorável à autenticidade dos relatos. Testemunhas independentes de um mesmo evento raramente produzem relatos idênticos palavra por palavra, com exatamente os mesmos detalhes e a mesma ênfase narrativa; a uniformidade excessiva entre múltiplos relatos costuma levantar mais suspeita de cópia mecânica do que a variação natural de perspectiva, seleção e propósito editorial que os evangelhos sinóticos exibem entre si, preservando ao mesmo tempo o núcleo histórico compartilhado do que efetivamente aconteceu naquela região.

O que costumam dizer errado1 afirmação
  • Dizem que:A diferença no número de endemoninhados entre Mateus e Marcos/Lucas é uma contradição que compromete a confiabilidade histórica dos evangelhos.

    Trata-se de variação por seleção editorial, padrão reconhecido e recorrente no estilo de Mateus, visível também na cura dos cegos de Jericó em ; mencionar menos personagens não é o mesmo que negar a existência deles, e o núcleo do evento permanece idêntico nos três relatos.

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Leitura de harmonização editorial

    Mateus resume a cena focando no evento em geral, enquanto Marcos e Lucas expandem a história de um único homem, provavelmente o mais marcante da dupla, sem que isso configure contradição factual entre os relatos.

  • Leitura de crítica das fontes sinóticas

    Estudiosos que analisam as relações literárias entre os evangelhos sinóticos veem nessa diferença um exemplo típico de como Mateus condensa material que aparece de forma mais detalhada em Marcos, hipótese amplamente discutida na chamada questão sinótica.

No original2 termos
  • ΓεργεσηνῶνGergesenon

    'Dos gergesenos', variante de manuscrito encontrada em algumas cópias antigas de , ao lado de 'gadarenos' e 'gerasenos', refletindo incerteza textual sobre o nome exato da região onde o episódio ocorreu.

  • λεγιώνlegion

    'Legião'; termo de origem latina usado pelo espírito para se identificar em e , referência ao grande contingente de uma legião romana, sugerindo a multiplicidade de espíritos que atormentavam o homem.

O que fazer com isso

Diferenças de detalhe entre relatos honestos de um mesmo evento não são necessariamente contradições; elas frequentemente refletem escolhas editoriais legítimas sobre o que destacar. Vale aplicar esse mesmo discernimento generoso, e crítico, tanto à leitura dos evangelhos quanto a relatos divergentes que encontramos no dia a dia, sem descartar automaticamente a veracidade de nenhum deles só por não coincidirem em cada detalhe.

Passagens relacionadas4

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas2 obras
  • Craig S. Blomberg. Matthew (New American Commentary), 1992.
  • R.T. France. The Gospel of Matthew (NICNT), 2007.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Onde exatamente aconteceu esse episódio, Gadara ou Gerasa?

Os manuscritos variam entre 'gadarenos', 'gerasenos' e 'gergesenos', refletindo incerteza textual antiga sobre a localização exata; as três cidades sugeridas situam-se na região da Decápolis, território de maioria gentia a leste do mar da Galileia, o que não afeta o núcleo do relato.

Esse é o único caso de diferença no número de pessoas entre os evangelhos sinóticos?

Não. O mesmo padrão aparece na cura do cego ou cegos de Jericó, com mencionando dois homens e e mencionando apenas um, chamado Bartimeu, reforçando que se trata de estilo editorial recorrente de Mateus, não de um erro isolado.

Temas

  • #mateus
  • #marcos
  • #lucas
  • #evangelhos-sinoticos
  • #gadara
  • #endemoninhado
  • #harmonizacao

Publicado em 24/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 2 obras citadas, com autor e ano
  • 1 afirmação popular checada e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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