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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Contradições aparentes

"Mas alguns duvidaram": a Grande Comissão com dúvida embutida

Por que a Bíblia diz que alguns discípulos duvidaram na Grande Comissão?

Os onze discípulos se foram para a Galileia, ao monte onde Jesus havia lhes ordenado. E quando o viram, o adoraram; porém alguns duvidaram.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

narra os Onze subindo ao monte na Galileia, onde Jesus havia marcado encontro; eles o adoram, “mas alguns duvidaram”. O grego “hoi de” é ambíguo: pode indicar que apenas parte do grupo hesitou, enquanto outros já criam plenamente, ou que o grupo inteiro viveu simultaneamente adoração e incerteza diante de algo tão extraordinário. De qualquer forma, Mateus não maquia a cena para parecer uma certeza unânime e triunfante.

É exatamente sobre essa base humana, imperfeita e ainda processando o que via, que Jesus proclama a Grande Comissão, enviando os discípulos a todas as nações. A dúvida registrada não invalida a missão; ela mostra que fé e obediência podem coexistir com perguntas ainda não resolvidas.

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

A cena mostra a trajetória entre dúvida humana genuína e missão confiada por Cristo, um padrão que se repete na história da igreja: pessoas reais, com perguntas reais, recebendo e cumprindo um chamado que ultrapassa sua própria certeza momentânea. A comissão dada aqui se estende e se confirma na comissão ampliada registrada em Atos.

Respaldo no Novo Testamento:

Em palavras simples

No fim de Mateus, os discípulos vão a um monte na Galileia encontrar Jesus depois da ressurreição. Eles o adoram, mas o texto diz que “alguns duvidaram”. Mesmo assim, é exatamente ali que Jesus dá a ordem para levar a mensagem a todas as nações do mundo. Isso mostra que ter fé não significa nunca ter dúvida — os dois podem existir juntos na mesma pessoa, ao mesmo tempo, sem problema.

Contexto histórico

A Galileia havia sido marcada como ponto de encontro já antes da crucificação, em , e reafirmada pelo anjo e por Jesus mesmo às mulheres no túmulo, em 28:7 e 10 — um detalhe que amarra toda a narrativa da ressurreição a um plano anunciado com antecedência, e não a um improviso de última hora. O grupo é chamado explicitamente de “os onze discípulos”, não doze, lembrança discreta e dolorosa da ausência de Judas, morto após a traição, e da fragilidade recente de todo o grupo diante da prisão e execução de Jesus poucos dias antes. O cenário do monte retoma um padrão literário caro a Mateus, que já havia situado o Sermão do Monte e a Transfiguração em elevações semelhantes, ecoando também a tradição de Moisés recebendo revelação divina no Sinai — um pano de fundo que confere à cena um peso de autoridade e revelação comparável aos grandes momentos reveladores do Antigo Testamento. A “adoração” (prosekynēsan) prestada pelos discípulos, mesmo em meio à dúvida de alguns, mostra que reconhecimento da identidade divina de Jesus e incerteza cognitiva sobre os detalhes do que estava acontecendo não são mutuamente exclusivos — um padrão humano de fé em desenvolvimento, e não uma contradição lógica insustentável dentro do relato. Vale notar que Mateus não especifica se algum dos presentes chegou a verbalizar essa dúvida em voz alta, ou se o próprio narrador apenas registra, de fora, aquilo que percebia nas expressões e reações do grupo diante de Jesus vivo outra vez, um detalhe que a maioria dos comentaristas considera secundário frente ao propósito teológico maior do versículo. É esse mesmo grupo, ainda processando dúvidas concretas sobre o que exatamente estava diante deles, que recebe a responsabilidade de levar a mensagem sobre Jesus a todas as nações da terra, um detalhe que diz bastante sobre como o próprio evangelho de Mateus entende a relação entre fé madura e missão confiada por Deus a pessoas reais.

Aprofundamento

O verbo grego usado é διστάζω (distazō, Strong G1365), “duvidar, hesitar, estar dividido entre duas posições” — o mesmo verbo empregado em para a hesitação momentânea de Pedro andando sobre as águas antes de começar a afundar, sugerindo aqui uma hesitação diante do extraordinário, e não uma rejeição cínica e deliberada da fé cristã. R.T. France, no comentário da série NICNT sobre Mateus (2007), discute a ambiguidade gramatical de “hoi de” (οἱ δέ), que pode se referir a um subconjunto específico dos Onze presentes na cena, e não necessariamente ao grupo inteiro reunido no monte. Craig Blomberg, no New American Commentary sobre Mateus, observa que alguns intérpretes conectam esse momento à tradição mais ampla de aparições registrada em , onde Paulo menciona “mais de quinhentos irmãos” vendo Jesus ao mesmo tempo, levantando a possibilidade de que Mateus condense, numa única cena representativa, elementos de encontros distintos ocorridos na região da Galileia. Donald A. Hagner, no Word Biblical Commentary sobre (1995), relaciona essa nota de dúvida ao tema recorrente da “pouca fé” (oligopistia) que atravessa todo o evangelho de Mateus, presente também em 14:31, 16:8 e 17:20, como parte de um retrato deliberadamente honesto e nada hagiográfico dos discípulos ao longo de toda a narrativa. Referências cruzadas relevantes incluem , onde Jesus repreende diretamente a incredulidade dos Onze numa tradição paralela, e , onde a comissão final ainda é acompanhada de perguntas dos discípulos sobre o momento exato da restauração do reino, mostrando continuidade desse padrão de fé misturada a questões não completamente resolvidas. William Barclay, em suas notas de estudo sobre Mateus, observa que a honestidade dessa nota final contrasta com a tendência natural que comunidades religiosas teriam de idealizar seus fundadores apostólicos, o que torna o detalhe da dúvida um sinal a favor, não contra, da fidedignidade histórica geral do relato registrado pelo evangelista sobre esse encontro decisivo na Galileia. Essa mesma leitura é compartilhada, com variações pontuais de ênfase, por praticamente todos os grandes comentários evangélicos contemporâneos sobre o evangelho de Mateus, ainda que discordem entre si sobre a extensão exata do grupo que efetivamente hesitou naquele momento específico e solene da narrativa final do livro. Nenhum desses comentaristas, de qualquer tradição teológica, propõe que a dúvida mencionada invalide a comissão dada em seguida ou a autoridade de Jesus para pronunciá-la, o que sugere um consenso interpretativo amplo sobre o sentido pastoral, e não cético, dessa observação final registrada pelo evangelista.

O que costumam dizer errado1 afirmação
  • Dizem que:“Alguns duvidaram” significa que parte dos onze apóstolos nunca creu de verdade na ressurreição.

    O verbo grego distazō indica hesitação diante do extraordinário, não rejeição definitiva da fé; é o mesmo termo usado para a hesitação momentânea de Pedro andando sobre as águas, não uma negação categórica e permanente.

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Católica

    Comentaristas católicos tendem a ler “alguns” como um subgrupo entre os Onze, preservando a confiabilidade apostólica coletiva sem negar momentos humanos legítimos de hesitação individual dentro do próprio grupo.

  • Reformada

    Autores reformados como France leem o versículo como testemunho da honestidade histórica de Mateus, que não maquia a fé imperfeita dos apóstolos nem mesmo no momento culminante e solene da comissão final.

No original1 termo
  • διστάζωdistazōG1365

    “Duvidar, hesitar, estar dividido”; usado em para descrever a reação de alguns diante de Jesus ressuscitado, o mesmo verbo aplicado à hesitação de Pedro em .

O que fazer com isso

A Grande Comissão não é entregue a um grupo de certezas absolutas, mas a pessoas reais, ainda processando o que tinham acabado de ver, com dúvidas coexistindo ao lado da adoração sincera. Isso liberta quem hoje sente hesitação diante de questões de fé: engajamento real com a missão e com a igreja não exige primeiro resolver toda incerteza teológica ou emocional pendente.

Passagens relacionadas5

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas3 obras
  • R.T. France. The Gospel of Matthew (NICNT), 2007.
  • Donald A. Hagner. Matthew 14-28 (Word Biblical Commentary), 1995.
  • William Barclay. The Gospel of Matthew (The Daily Study Bible), 1975.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Quem exatamente duvidou em Mateus 28:17?

O grego é ambíguo: pode se referir a alguns dos Onze discípulos presentes ou a um grupo maior de seguidores reunidos na ocasião; os comentaristas não têm consenso unânime sobre a extensão exata dessa dúvida.

Isso enfraquece a confiabilidade da ressurreição?

Não; pelo contrário, muitos estudiosos veem essa nota honesta sobre a dúvida como sinal de que o relato não foi maquiado para parecer uma narrativa triunfalista artificial.

Temas

  • Ressurreição
  • #grande-comissao
  • #mateus
  • #duvida
  • #discipulos
  • #fe-e-duvida
  • #novo-testamento

Faz parte de

Publicado em 15/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 3 obras citadas, com autor e ano
  • 1 afirmação popular checada e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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Quantas mulheres foram ao túmulo?

Depende de qual evangelho se lê isoladamente. Mateus 28:1 cita “Maria Madalena e a outra Maria”; Marcos 16:1 acrescenta Salomé; Lucas 24:10 menciona Maria Madalena, Joana, Maria mãe de Tiago “e as outras que estavam com elas”; João 20:1 cita apenas Maria Madalena. Nenhum desses textos afirma oferecer uma lista completa e exclusiva — são registros seletivos, típicos da historiografia antiga, que nomeiam algumas testemunhas relevantes sem pretender esgotar o grupo.

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