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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Questões de tradução

"Dai, e dar-se-vos-á": Lucas 6:38 é uma promessa de retorno financeiro?

Lucas 6:38 garante que quem dá oferta recebe de volta mais dinheiro?

Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; liberai, e vos liberarão. Dai, e será vos dado; medida boa, comprimida, sacudida e transbordante vos darão no vosso colo; pois com a mesma medida que medirdes vos medirão de volta.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

costuma abrir campanhas de oferta, com a promessa de que quem dá receberá "medida boa, recalcada, sacudida e transbordante". O versículo, porém, termina uma sequência sobre não julgar, não condenar e perdoar, dentro do Sermão da Planície, e a imagem vem do comércio de grãos: o vendedor enche, comprime e sacode a vasilha até transbordar no regaço do comprador. A ordem "dai" é de generosidade e misericórdia para com o próximo, e a última frase, "com a medida com que medirdes vos medirão também", mostra que o retorno é proporcional ao modo como se trata os outros, inclusive diante de Deus. Ler o texto como investimento financeiro ignora o contexto e contraria o versículo 35, que manda emprestar sem esperar nada em troca.

Como isso aponta para Jesus

Ligação indireta

O padrão de misericórdia que Jesus ensina aqui, perdoar, não condenar e dar sem esperar retribuição, é o que ele mesmo vive. Na cruz, ele pede ao Pai o perdão para quem o crucifica. O "sede misericordiosos como vosso Pai" encontra em Cristo sua forma concreta.

Respaldo no Novo Testamento:

Em palavras simples

Muita gente usa para dizer que quem dá dinheiro na igreja vai receber mais de volta. Mas o versículo fecha um ensino sobre não julgar, perdoar e ter misericórdia. A imagem da medida cheia vem do comércio de grãos e fala de generosidade. Jesus mesmo diz, poucos versículos antes, para emprestar sem esperar nada em troca. A recompensa é real, mas vem de Deus e cresce na medida em que a pessoa trata os outros com misericórdia.

Contexto histórico

O Sermão da Planície () é a versão lucana de ensinos que Mateus reúne no Sermão do Monte. Jesus desce do monte onde escolheu os doze, encontra uma multidão e abre com bem-aventuranças e ais, que contrastam pobres e ricos, famintos e fartos (6:20-26). Em seguida vem o mandamento mais exigente: "amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam" (6:27). Os exemplos que se seguem são concretos: oferecer a outra face, dar a túnica a quem toma a capa, dar a quem pede, não exigir de volta o que foi tomado (6:29-30). A chamada "regra de ouro" aparece no versículo 31, e logo depois Jesus pergunta que mérito há em amar apenas quem ama, ou em emprestar apenas a quem pode retribuir (6:32-34). O versículo 35 resume: "amai, pois, os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem esperar nenhuma paga", e "o vosso galardão será grande, e sereis filhos do Altíssimo". O versículo 36, a chave do trecho, afirma: "Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso". É a esse fundamento que se ligam os versículos 37 e 38: não julgar, não condenar, perdoar e dar. Cada verbo no imperativo aparece ao lado de uma consequência. Quem não julga não será julgado, quem não condena não será condenado, quem perdoa será perdoado, quem dá receberá. Em seguida (6:39-42), Jesus fala do cego que guia cego e do argueiro no olho do irmão, também sobre julgar. O contexto, em resumo, é o de uma comunidade que precisa aprender a tratar bem quem não retribui: inimigos, devedores, pessoas dignas ou indignas de confiança. Ler o versículo 38 separado desse conjunto é perder o argumento. Também convém lembrar a primeira parte do sermão, dirigida a uma plateia de gente pobre e faminta (6:20-21): as palavras sobre dar não foram pensadas como incentivo a ricos que querem multiplicar o patrimônio, mas como retrato de uma comunidade em que ninguém retém para si o que pode partilhar com o necessitado.

Aprofundamento

A tradução tradicional "dai, e dar-se-vos-á" dá a impressão de uma lei universal: dê, e Deus devolverá. O texto grego é mais específico. A segunda parte do versículo usa uma terceira pessoa do plural sem sujeito explícito, algo como "darão no vosso regaço". Essa construção é comum para evitar o nome de Deus, e pode ser lida como "Deus dará" ou como "as pessoas darão". Os comentaristas se dividem. I. Howard Marshall e Joel Green consideram provável que se trate de retribuição divina, mas não excluem a reciprocidade entre as pessoas. O ponto mais claro é a imagem da medida. A palavra kolpos, traduzida por "regaço" ou "seio", designa a dobra da túnica sobre o peito, que servia de bolsa. Um comerciante de grãos enchia a medida, pressionava o conteúdo para que coubesse mais, sacudia para que se acomodasse e ainda deixava transbordar. A imagem é de generosidade abundante, não de lucro garantido. O fecho do versículo explica por que isso importa: "porque com a medida com que medirdes vos medirão também". A frase retoma 6:37 e mostra que a abundância descrita é a da misericórdia: o tratamento que se dá aos outros volta, de algum modo, a quem o deu, e Jesus tem em mente principalmente o juízo de Deus. Compare-se e , em que o provérbio da medida aparece com outros usos, e , que afirma que o juízo é sem misericórdia para quem não usou misericórdia. Nada disso torna o texto uma promessa de enriquecimento. O versículo 35 diz que o empréstimo deve ser feito "sem esperar nada em troca", e a recompensa prometida é ser "filho do Altíssimo". Além disso, a tradição bíblica ensina que dar não é fórmula: Paulo louva a generosidade dos macedônios, pobres e aflitos (2 Co 8:1-5), e Jesus elogia a viúva que deu tudo e nada recebeu de volta em terra (Lc 21:1-4). Isso não nega que Deus abençoe a generosidade, como afirma, mas impede de transformar a bênção em cálculo. , lido com cuidado, pede um coração tão generoso quanto o do Pai, e essa generosidade inclui perdoar e não condenar. Quem lê o versículo apenas pelo viés material perde justamente o centro do argumento: a medida que transborda é a da misericórdia, e é por ela que cada um será avaliado. Isso não impede que o dinheiro entre na conversa, pois dar a quem tem fome é parte da misericórdia, mas muda a pergunta de "quanto vou receber?" para "que tipo de pessoa estou me tornando?".

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:Lucas 6:38 garante que quem dá oferta na igreja receberá mais dinheiro de volta.

    O versículo fecha uma instrução sobre misericórdia e não julgar. O versículo 35 manda emprestar sem esperar nada em troca. A promessa da medida refere-se ao tratamento que se dá aos outros, não a um mecanismo financeiro.

  • Dizem que:A expressão "dar-se-vos-á" significa que Deus sempre devolve em dinheiro o que se dá.

    O original traz uma terceira pessoa do plural impessoal, que pode apontar para Deus ou para as pessoas. O foco do texto é a medida da misericórdia, não o valor financeiro recebido.

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Leitura da retribuição escatológica

    A medida transbordante aponta para a generosidade de Deus no juízo e na recompensa final, proporcional à misericórdia que o discípulo praticou.

  • Leitura da reciprocidade comunitária

    A generosidade tende a gerar generosidade nas relações humanas, e a comunidade de discípulos é convidada a viver essa lógica, sem calcular retorno.

No original2 termos
  • μέτρονmetronG3358

    medida, instrumento de medir; aqui, a vasilha de grãos e, em sentido figurado, o padrão de tratamento.

  • κόλποςkolposG2859

    seio, regaço; a dobra da túnica sobre o peito, usada como bolsa para carregar grãos.

O que fazer com isso

Ler no contexto corrige duas distorções: a de usá-lo como promessa de retorno financeiro e a de achar que generosidade é questão de dinheiro apenas. O texto pede que o discípulo trate os outros com a mesma misericórdia que espera de Deus, sem julgar, sem condenar e sem fazer da doação um investimento. A recompensa é real, mas vem de Deus e não pode ser cobrada como direito.

Passagens relacionadas5

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas4 obras
  • I. Howard Marshall. The Gospel of Luke (NIGTC), 1978.
  • Joel B. Green. The Gospel of Luke (NICNT), 1997.
  • Darrell L. Bock. Luke 1:1-9:50 (BECNT), 1994.
  • Joseph A. Fitzmyer. The Gospel According to Luke I-IX (Anchor Bible), 1981.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Lucas 6:38 fala de dízimos e ofertas?

Não. O contexto é o amor aos inimigos, a misericórdia e o não julgar. O dar do versículo é generosidade para com o próximo em sentido amplo.

Quem é o sujeito de "vos darão"?

O grego usa um plural impessoal. Muitos estudiosos veem aqui Deus, por respeito ao nome divino, mas a reciprocidade humana não está excluída.

Temas

  • #lucas
  • #generosidade
  • #misericordia
  • #julgar
  • #medida
  • #oferta
  • #sermao-da-planicie

Publicado em 03/11/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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