
Por que "Pai, perdoa-lhes" falta em alguns manuscritos antigos?
por que o versículo pai perdoa-lhes não está em todas as bíblias
E Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. E, repartindo suas roupas, lançaram sortes.
Resposta curta
Pendurado na cruz, ainda sendo pregado, Jesus disse: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem." É uma das frases mais citadas da paixão de Cristo — e, ironicamente, uma das mais discutidas por quem estuda os manuscritos antigos do Novo Testamento. Ela está ausente em testemunhos gregos muito antigos e importantes, como o Papiro 75 e o Códice Vaticano, embora apareça em outros manuscritos igualmente respeitados.
Isso não quer dizer que a frase foi inventada ou que a Bíblia foi adulterada. Significa que, desde os primeiros séculos, os copistas do texto de Lucas já discordavam sobre incluí-la ali. As principais edições críticas do grego hoje mantêm a frase, mas entre colchetes duplos, um sinal de que os estudiosos reconhecem a antiguidade da tradição sem ter certeza absoluta de que ela pertencia originalmente a este versículo específico.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoNo relato da paixão, Jesus intercede pelos próprios algozes enquanto ainda está sendo crucificado. Lucas já havia preparado essa cena poucos versículos antes, ao aplicar a Jesus as palavras de ('E também foi contado com os transgressores', ) — texto que, na profecia, continua descrevendo o servo sofredor como aquele que 'intercede pelos transgressores'. A oração de , discutida ou não quanto à sua posição exata no texto grego, encaixa-se precisamente nesse quadro: o próprio ato de pedir perdão para quem o crucifica é a intercessão anunciada em Isaías se cumprindo diante das testemunhas da cena.
Respaldo no Novo Testamento: (citando )
Contexto histórico
A cena de acontece no momento em que os soldados romanos pregam Jesus na cruz, no lugar chamado Caveira (Gólgota). Fazia parte da execução romana despir o condenado e, como direito reconhecido dos soldados encarregados, dividir suas roupas entre si — o próprio versículo relata isso na sequência: "E, repartindo suas roupas, lançaram sortes." É nesse instante, conforme o texto tradicional de Lucas, que Jesus pronuncia o pedido de perdão.
Gramaticalmente, a frase é simples: um vocativo ("Pai"), um imperativo ("perdoa-lhes") e uma oração explicativa introduzida por "porque" (o motivo da súplica: "não sabem o que fazem"). O verbo grego por trás de "perdoa" é aphíēmi, o mesmo usado em outras orações de perdão nos evangelhos, e "sabem" vem de oîda, verbo comum para conhecimento ou percepção. Não há nada de incomum no vocabulário — a dificuldade do versículo não é de tradução, mas de crítica textual: se essas palavras realmente faziam parte do texto que Lucas escreveu.
O problema é que os manuscritos gregos mais antigos que possuímos de Lucas não concordam entre si. A frase falta em papiros e códices importantes e muito antigos, entre eles o Papiro 75 (um dos manuscritos mais antigos do Evangelho de Lucas, copiado por volta do fim do século II ou início do III) e o Códice Vaticano (do século IV). Por outro lado, ela aparece em outros manuscritos antigos e respeitados, como o Códice Bezae, e é citada por escritores cristãos dos primeiros séculos — o que mostra que a tradição da frase já circulava muito cedo entre os cristãos, mesmo que sua presença exata neste versículo de Lucas seja discutida.
Quanto a quem Jesus se refere com "eles", o texto não especifica: no contexto imediato são os soldados romanos que o crucificam e sorteiam suas roupas, mas a cena mais ampla de também inclui os líderes religiosos que pediram sua condenação. O verso, por si só, permite as duas leituras.
Aprofundamento
A ausência de a em manuscritos tão antigos e importantes intriga críticos textuais há mais de um século. O erudito Bruce Metzger, em seu clássico "A Textual Commentary on the Greek New Testament" (2ª ed., 1994), resume o problema: a frase falta em testemunhos tão diversos e antigos que dificilmente sua ausência é um acidente isolado, mas ao mesmo tempo ela é citada por autores cristãos muito antigos, sugerindo uma tradição genuinamente primitiva sobre Jesus. Por isso a comissão editorial do texto grego padrão optou por manter a frase, mas colocá-la entre colchetes duplos — um recurso técnico para sinalizar que ela quase certamente não fazia parte do texto original de Lucas neste ponto, mas é antiga e talvez remonte a uma memória histórica real sobre Jesus.
Por que um copista teria tirado — ou acrescentado — essas palavras? Há mais de uma hipótese, e nenhuma é consenso fechado. Bart Ehrman, em "The Orthodox Corruption of Scripture" (1993), defende que a omissão pode refletir um desconforto teológico: à medida que a relação entre cristãos e judeus se deteriorava nos primeiros séculos, alguns copistas talvez hesitassem em preservar uma oração de Jesus pedindo perdão explícito para quem eles passaram a culpar pela crucificação. Outros estudiosos, como Raymond E. Brown em "The Death of the Messiah" (1994), tratam a questão com mais cautela, notando que explicações puramente acidentais de cópia também são plausíveis, e que a motivação teológica é uma hipótese razoável, não um fato demonstrado.
Um argumento a favor da autenticidade da tradição, mesmo que ela não estivesse originalmente neste exato versículo, é o estilo. Lucas é o evangelista que mais insiste no perdão aos inimigos e na oração sob perseguição: é o único a registrar, em , que Estêvão, sendo apedrejado, orou de modo quase idêntico — "Senhor, não lhes imputes este pecado." Esse paralelo interno reforça, para muitos comentaristas, entre eles I. Howard Marshall em seu comentário sobre Lucas (NIGTC, 1978), que a cena tem raízes muito antigas na tradição sobre Jesus, mesmo que sua posição exata no texto grego seja incerta.
Vale notar o que essa discussão não significa: não há aqui nenhuma conspiração para remover palavras de Jesus das Bíblias modernas. É o contrário — foi o estudo cuidadoso, ao longo de séculos, de milhares de manuscritos gregos antigos que revelou essa diferença, e as edições acadêmicas registram isso abertamente, em nota de rodapé, para que o leitor saiba exatamente o que está em discussão.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Bíblias modernas "tiraram" essa frase de Jesus para esconder algo dos leitores.
É o oposto: foi o estudo acadêmico rigoroso de milhares de manuscritos gregos antigos — não uma decisão de esconder nada — que revelou que essa frase falta em alguns dos testemunhos mais antigos que temos. As edições críticas e a maioria das traduções atuais mantêm a frase no texto principal e registram a variante em nota de rodapé, exatamente para que o leitor saiba o que está em discussão, em vez de escondê-lo.
Dizem que:Essa diferença entre manuscritos prova que não se pode confiar na Bíblia.
Uma diferença entre cópias antigas de um mesmo texto não é a mesma coisa que um erro de conteúdo: é justamente esse tipo de comparação cuidadosa entre milhares de manuscritos que permite reconstruir, com alto grau de confiança, o que os autores escreveram, e identificar os poucos pontos, como este, em que a certeza é menor. A imensa maioria do Novo Testamento não tem esse tipo de dúvida.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Lida tradicionalmente como expressão da misericórdia de Cristo, incorporada à devoção das "Sete Palavras" na liturgia da Sexta-Feira Santa; entendida como intercessão que Jesus faz enquanto sumo sacerdote, abrindo caminho ao perdão para todos os que a ele respondem com fé.
Ortodoxa
Destacada na hinografia da Semana Santa como ícone do perdão que os cristãos são chamados a imitar; a cena é lida menos como uma questão sobre quem exatamente é perdoado e mais como revelação do caráter de Cristo, que ora pelos que o ferem no próprio instante do sofrimento.
Reformada
Comentaristas reformados costumam notar que a oração pede perdão, mas não declara que ele já foi concedido de modo automático e incondicional; a ignorância mencionada ("não sabem o que fazem") é vista como atenuante que reduz a culpa objetiva sem dispensar a necessidade de arrependimento e fé da parte de quem seria perdoado.
Arminiana/Wesleyana
Enfatiza o alcance amplo da graça expressa nessa oração — coerente com a ênfase wesleyana na graça que se oferece a todos, incluindo os próprios executores de Jesus — como sinal de que nenhum pecado, nem mesmo o de crucificar o Filho de Deus, está fora do alcance do perdão oferecido em Cristo.
No original3 termos
ΠάτερPatērG3962
Pai — vocativo usado por Jesus para se dirigir a Deus em oração.
ἄφεςaphesG863
Perdoa, deixa ir — imperativo do verbo aphíēmi, usado em pedidos de perdão de pecados ou dívidas.
οἴδασινoidasinG1492
Sabem, conhecem — forma do verbo oida, ligado à percepção consciente do que se faz.
O que fazer com isso
Não é preciso resolver a discussão sobre manuscritos para levar a sério o que essa cena ensina: Jesus ora pelo perdão exatamente no momento em que está sendo ferido, sem esperar arrependimento de quem o crucifica. Isso desloca o foco de quem merece perdão para o próprio ato de entregar a dor a Deus antes de processá-la sozinho. Na prática, isso convida a notar quando a mágoa começa a virar rancor guardado — e a experimentar, mesmo sem vontade nenhuma, uma oração parecida com essa.
Passagens relacionadas4
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Fontes consultadas4 obras
- Bruce M. Metzger. A Textual Commentary on the Greek New Testament, 1994.
- Bart D. Ehrman. The Orthodox Corruption of Scripture, 1993.
- Raymond E. Brown. The Death of the Messiah, 1994.
- I. Howard Marshall. The Gospel of Luke: A Commentary on the Greek Text (NIGTC), 1978.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que a frase "Pai, perdoa-lhes" não aparece em algumas Bíblias ou está em nota de rodapé?
Porque ela está ausente em alguns dos manuscritos gregos mais antigos que temos de Lucas, como o Papiro 75 e o Códice Vaticano, embora apareça em outros manuscritos igualmente antigos. Colocá-la em nota de rodapé é uma forma de ser transparente sobre essa diferença entre os testemunhos manuscritos, não de omitir a frase por decisão arbitrária.
Isso significa que Jesus nunca disse essas palavras?
Não necessariamente. A dúvida é sobre se essas palavras estavam originalmente neste ponto específico do texto de Lucas, não sobre se Jesus as disse. Muitos estudiosos consideram a tradição antiga e ligada a Jesus, mesmo os que duvidam de sua posição exata no manuscrito.
Quem Jesus estava perdoando: os soldados romanos ou os líderes judeus?
O texto não especifica. No contexto mais imediato, são os soldados que o crucificam e sorteiam suas roupas; mas a cena mais ampla de também envolve os líderes religiosos que pediram sua condenação. Comentaristas se dividem sobre qual grupo, ou se ambos, o texto tem em vista.
A maioria das traduções em português mantém essa frase?
Sim, a esmagadora maioria das traduções em português, incluindo as mais usadas, mantém a frase no texto principal, seguindo a prática das edições críticas do Novo Testamento grego, que a preservam entre colchetes duplos por reconhecerem sua antiguidade apesar da incerteza textual.
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