
Quem é o servo sofredor de Isaías 53?
Isaías 53 fala de Jesus, de Israel ou do próprio profeta?
Verdadeiramente ele tomou sobre si nossas enfermidades, e nossas dores levou sobre si; e nós o considerávamos como afligido, ferido por Deus, e oprimido. Porém ele foi ferido por nossas transgressões, e esmagado por nossas perversidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e por suas feridas fomos curados. Todos nós andávamos sem rumo como ovelhas; cada um se desviava por seu caminho; porém o SENHOR fez vir sobre ele a perversidade de todos nós.
Resposta curta
É o texto mais discutido entre judeus e cristãos, e a discussão é séria dos dois lados.
A leitura cristã identifica o servo com Jesus, e o Novo Testamento o cita mais de dez vezes. A leitura judaica majoritária hoje identifica o servo com Israel, apoiando-se em , onde Deus diz "tu és meu servo, ó Israel".
O dado que costuma ser omitido é que a leitura messiânica também existe em fontes judaicas antigas — o Talmude e o targum a registram —, e que a identificação com Israel se tornou dominante depois, em parte como resposta ao uso cristão.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoé o texto decisivo do uso cristão: um eunuco etíope lê justamente este trecho, pergunta de quem se trata, e Filipe "começando nesta escritura, lhe anunciou a Jesus". Pedro cita o poema quase versículo por versículo em , e Jesus aplica a si mesmo a frase "com os malfeitores foi contado". É o texto do Antigo Testamento com mais citações diretas no Novo sobre a paixão.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
É o texto mais discutido entre judeus e cristãos, e a discussão é séria dos dois lados. A leitura cristã identifica essa figura sofredora com Jesus; a leitura judaica mais comum hoje a identifica com o próprio povo de Israel, sofrendo no exílio — e as duas se apoiam em partes reais do texto.
O detalhe que costuma ser esquecido é que a leitura messiânica também existe em fontes judaicas antigas, não é invenção cristã posterior; ela deixou de ser a mais comum depois, em parte como resposta ao uso cristão do texto. O poema descreve alguém inocente que sofre no lugar de outros, morre e depois volta a viver.
Reconhecer os dois lados do debate, com argumentos reais, é mais honesto do que tratar qualquer um deles como óbvio.
Contexto histórico
a 55 é uma seção sobre consolação e libertação, escrita para o povo no exílio. Dentro dela, quatro trechos são chamados de "cânticos do Servo": 42:1-4, 49:1-6, 50:4-9 e 52:13 a 53:12.
O quarto é o mais longo e o mais estranho. Ele descreve alguém sem beleza que atrai, desprezado e rejeitado, que carrega dores que não são dele, é levado como cordeiro ao matadouro, morre entre os ímpios e é sepultado com o rico.
E então acontece algo que o texto não explica: depois de descrever a morte, ele diz que o servo "verá descendência, prolongará seus dias" e "verá o fruto do trabalho de sua alma, e ficará satisfeito".
A sequência — morte, sepultura, e depois vida e satisfação — é o ponto que a leitura cristã considera decisivo.
Aprofundamento
Os argumentos de cada leitura merecem ser expostos com honestidade.
A favor da identificação com Israel: Isaías chama Israel de "meu servo" nove vezes na mesma seção, inclusive em 49:3 com todas as letras. O sofrimento coletivo do exílio se encaixa em várias imagens. E a linguagem de servo sofredor tem paralelo em outros textos sobre o povo.
Contra: o servo é distinguido do povo dentro do próprio poema — "pela transgressão do meu povo ele foi ferido" (53:8) —, e é descrito como inocente: "nunca fez injustiça, nem houve engano em sua boca". O exílio, no restante de Isaías, é apresentado como consequência do pecado de Israel, não como sofrimento inocente. E em 49:5-6 o servo tem a missão de "restaurar Jacó" e "trazer de volta a Israel", o que dificulta identificá-lo com o próprio Israel.
A favor da identificação messiânica: o servo é individual e inocente, sofre voluntariamente, sofre por outros, morre e depois vive. O Talmude, no tratado Sanhedrin, discute o Messias com base em . O targum de Jônatas aplica 52:13 ao Messias explicitamente, ainda que redirecione o sofrimento. E registra um leitor judeu do século I perguntando exatamente isso: "de quem diz isto o profeta? De si mesmo, ou de algum outro?".
Contra: os judeus que sustentam a leitura coletiva argumentam que "meu servo Israel" está no texto e que a leitura individual é forçada, e que o poema não menciona ressurreição em termos explícitos.
Uma nota sobre o debate: a acusação de que uma das leituras é desonesta não se sustenta. As duas têm base textual, e a divergência é antiga o bastante para ser tratada com respeito de parte a parte.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:Nenhuma fonte judaica leu Isaías 53 como messiânico.
O targum de Jônatas aplica 52:13 ao Messias, o Talmude discute o Messias com base no capítulo, e comentaristas medievais registram a existência dessa leitura entre judeus. A interpretação coletiva se tornou dominante depois.
Dizem que:A leitura judaica atual é desonesta.
Isaías chama Israel de "meu servo" nove vezes na mesma seção, inclusive em 49:3. É uma base textual real, e tratá-la como má-fé impede qualquer conversa séria sobre o capítulo.
Dizem que:O capítulo menciona a ressurreição com todas as letras.
Ele descreve morte, sepultura e depois vida prolongada e satisfação. A sequência é o argumento; a palavra "ressurreição" não aparece, e reconhecer isso torna o argumento mais forte, não mais fraco.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Servo messiânico individual
Um indivíduo inocente sofre voluntariamente pelos pecados de outros, morre e vive. Leitura cristã e presente em fontes judaicas antigas. Sustentada pela distinção entre o servo e "o meu povo" em 53:8.
Servo coletivo — Israel
O povo, sofrendo no exílio, carrega o peso diante das nações. Apoia-se em 49:3 e no uso de "meu servo" para Israel. Enfrenta a inocência declarada do servo e a missão de restaurar Jacó em 49:5-6.
Servo como figura profética
O poema descreveria um profeta específico, ou o remanescente fiel dentro de Israel. Proposta em parte da exegese moderna. Explica algumas tensões; encontra dificuldade na universalidade do alcance descrito no capítulo 53.
No original3 termos
עֶבֶדʿeved
"Servo, escravo". Usado em Isaías tanto para Israel quanto para a figura dos quatro cânticos, e é essa ambivalência que sustenta o debate.
אָשָׁםasham
"Oferta pela culpa". A palavra de 53:10 — "quando puser sua alma como *asham*" —, termo técnico do sistema sacrificial de Levítico.
הִפְגִּיעַhifgiaʿ
"Fez cair sobre, fez interceder". Verbo de "o SENHOR fez vir sobre ele a perversidade de todos nós", e reaparece em 53:12, "intercedeu pelos transgressores".
O que fazer com isso
A imagem central do poema é a transferência: "o SENHOR fez vir sobre ele a perversidade de todos nós".
A linguagem é de carregamento — ele leva o que era de outros. E o verso anterior explica por que ninguém percebeu: "nós o considerávamos como afligido, ferido por Deus". Quem olhava concluía que ele estava sendo punido pelos próprios erros.
Essa observação sobre percepção é uma das mais agudas do Antigo Testamento. A lógica de retribuição — quem sofre, mereceu — é tão automática que a cena inteira foi lida ao contrário por quem a presenciou.
É o mesmo erro dos amigos de Jó, aplicado a outro personagem, e com consequências ainda maiores.
Passagens relacionadas6
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas3 obras
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- Adam Clarke. Commentary on the Bible, 1810.
- Albert Barnes. Notes on the Bible, 1834.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Isaías 53 é lido nas sinagogas?
O ciclo tradicional de leituras proféticas do sábado não inclui este trecho, o que é notado com frequência no debate. As razões da seleção do ciclo são discutidas e não há documentação que a explique de forma definitiva.
O rolo de Isaías de Qumran muda alguma coisa?
Confirma que o texto que temos é substancialmente o mesmo de antes de Cristo — o rolo é do século II a.C. Isso elimina a suspeita de alteração cristã, que às vezes aparece no debate.
Como conversar sobre esse capítulo com um judeu?
Reconhecendo que a leitura coletiva tem base em 49:3, e perguntando pelo texto em vez de afirmar má-fé. O próprio Novo Testamento, em , começa com uma pergunta feita por um leitor judeu.
Temas
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