Pular para o conteúdo
Significado Bíblico
Ilustração da categoria Textos eticamente difíceis

O que significa "entregar a Satanás"?

Paulo mandou entregar um homem a Satanás?

De ao tal entregar a Satanás, para destruição da carne, para que o espírito seja salvo, no dia do Senhor Jesus.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

A expressão é chocante, e o propósito declarado no mesmo versículo é o oposto do que ela sugere: "para que o espírito seja salvo, no dia do Senhor Jesus".

A leitura mais aceita é que "entregar a Satanás" significa excluir da comunidade — colocar alguém fora do âmbito de proteção da igreja, no mundo, que o Novo Testamento descreve como sob domínio do adversário.

E 2 Coríntios registra o desfecho: uma pessoa disciplinada que se arrependeu, e Paulo pedindo à igreja que a perdoe e a console.

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

O procedimento tem base em , onde Jesus estabelece os passos e termina com "seja para ti como um gentio e publicano" — e o mesmo evangelho registra que ele comia com gentios e publicanos. Paulo segue a mesma lógica: a exclusão tem prazo, e mostra o retorno. dá o tom: restaurar "com espírito de mansidão".

Respaldo no Novo Testamento: ; ;

Em palavras simples

Essa expressão soa assustadora, mas o mesmo versículo já explica o objetivo: "para que o espírito seja salvo". A leitura mais aceita é que "entregar a Satanás" significa afastar alguém temporariamente da comunidade da igreja — tirar essa pessoa da proteção do grupo, não condená-la ao inferno. Era uma medida disciplinar, aplicada a um caso grave, com um objetivo declarado: levar a pessoa de volta.

E o mais importante: outra carta do mesmo autor, escrita depois, parece contar o final dessa história — pedindo que a igreja perdoe e console alguém que havia sido disciplinado e se arrependeu. A disciplina, quando é bíblica, tem prazo e serve para restaurar, não para descartar.

Contexto histórico

O caso é específico e Paulo o descreve sem eufemismo: alguém na igreja de Corinto vivia com a mulher do próprio pai — provavelmente a madrasta, já que o texto não diz "sua mãe".

O que indigna Paulo não é apenas o caso. É a reação da igreja: "e vós estais inchados", em vez de terem "pranteado".

O capítulo é sobre disciplina comunitária, e Paulo usa a imagem do fermento: "um pouco de fermento leveda toda a massa". A preocupação é o efeito sobre o corpo, e não apenas sobre o indivíduo.

A instrução prática está no versículo 11: não conviver com quem, "chamando-se irmão", vive nesses padrões — e a lista inclui avareza, idolatria, maledicência, embriaguez e roubo, não apenas questões sexuais.

E o versículo 12 estabelece o limite: "que tenho eu em julgar os que estão de fora?".

Aprofundamento

A expressão "entregar a Satanás" aparece duas vezes no Novo Testamento — aqui e em , sobre Himeneu e Alexandre, "para que aprendam a não blasfemar".

Nos dois casos, o propósito declarado é corretivo.

As leituras se dividem sobre o mecanismo.

A primeira, majoritária, entende exclusão da comunidade. O argumento é o contexto: o capítulo inteiro trata de expulsar da assembleia — "tirai o perverso do meio de vós" é a frase final. Fora da igreja, a pessoa fica no domínio que Paulo chama de "o deus deste século" em .

A segunda entende alguma aflição física permitida, com base em "para destruição da carne". Jó e a mensageira de Satanás em são citados como paralelos.

A terceira lê "carne" no sentido paulino de natureza corrompida, não de corpo — sentido que Paulo usa com frequência, como em . Nessa leitura, a destruição da carne é o fim do padrão de vida, não dano físico.

A terceira é a que mais comentaristas adotam hoje, porque "carne" em Paulo raramente significa corpo físico em contextos morais.

O desfecho é o dado mais importante e o menos citado. trata de alguém que foi disciplinado, se entristeceu e agora precisa de perdão. Paulo escreve: "basta-lhe a repreensão feita pela maioria… perdoai-lhe e consolai-o, para que não seja o tal consumido por excessiva tristeza".

A maioria dos comentaristas identifica esse caso com o de . Se estiver certo, a disciplina funcionou, e o capítulo tem final registrado.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:Paulo condenou o homem à perdição.

    O propósito declarado no mesmo versículo é "para que o espírito seja salvo, no dia do Senhor Jesus". E registra o pedido de perdão e consolo a alguém disciplinado, identificado pela maioria dos comentaristas com este caso.

  • Dizem que:A disciplina se aplica a quem está fora da igreja.

    O versículo 12 diz o contrário com todas as letras: "que tenho eu em julgar os que estão de fora?". Paulo registra que já havia sido mal entendido nesse ponto.

  • Dizem que:A lista de faltas é só sobre pecados sexuais.

    O versículo 11 inclui avareza, idolatria, maledicência, embriaguez e roubo. A seleção de apenas um item da lista é escolha de quem cita, não do texto.

Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Exclusão da comunidade

    Entregar a Satanás é colocar fora do âmbito da igreja. Sustentada pelo contexto do capítulo e pela frase final, "tirai o perverso do meio de vós". É a leitura majoritária.

  • Aflição física permitida

    "Destruição da carne" indicaria sofrimento corporal, com paralelos em Jó e . Toma a expressão literalmente; enfrenta o uso paulino de "carne".

  • Fim do padrão de vida carnal

    "Carne" no sentido moral que Paulo usa em . É a leitura que mais cresceu entre comentaristas, por coerência com o vocabulário do autor.

No original3 termos
  • παραδοῦναι τῷ Σατανᾷparadounai to Satana

    "Entregar a Satanás". Aparece duas vezes no Novo Testamento, aqui e em , sempre com propósito corretivo declarado.

  • σάρξsarx

    "Carne". Em Paulo, frequentemente designa a natureza corrompida, não o corpo — como em , "as obras da carne".

  • ζύμηzyme

    "Fermento". A imagem do capítulo: um pouco leveda toda a massa. Ligada à Páscoa e aos pães sem fermento, que Paulo menciona no versículo 7.

O que fazer com isso

A frase que Paulo usa para explicar o propósito é a única que importa para julgar o episódio: "para que o espírito seja salvo".

A disciplina descrita não é punição nem expurgo. É uma medida com destino declarado, e o destino é a restauração.

Isso estabelece um critério verificável. Disciplina que não tem previsão de retorno, que não é acompanhada de disposição para perdoar, e que não termina quando há arrependimento, não é o que este capítulo descreve.

E o versículo 12 estabelece o outro limite: "os que estão de fora, Deus os julga". A instrução vale para dentro da comunidade, e Paulo diz isso expressamente porque foi mal entendido antes — ele registra que já havia escrito sobre o assunto e que a carta fora lida errado.

Passagens relacionadas6

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas3 obras
  • Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
  • Henry Alford. The Greek Testament, 1863.
  • Albert Barnes. Notes on the Bible, 1834.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

O homem foi restaurado?

A maioria dos comentaristas identifica o caso de com este, e ali Paulo pede que a igreja perdoe e console. Se a identificação estiver certa, a disciplina cumpriu o objetivo.

Disciplina eclesiástica existe hoje?

A maior parte das tradições cristãs prevê algum procedimento, baseado em e neste capítulo. As formas variam bastante, e o critério bíblico é que a medida tenha restauração como finalidade.

Por que Paulo se indignou com a igreja, e não só com o homem?

Porque a igreja estava "inchada" em vez de entristecida. A preocupação do capítulo é o efeito sobre o corpo — "um pouco de fermento leveda toda a massa".

Temas

Publicado em 21/08/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 3 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 3 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

Uma explicação nova por semana

Sem devocional, sem corrente e sem promoção. Só o verbete da semana, com o contexto que normalmente fica de fora. Todo e-mail leva um link para sair, e sair é imediato.

Continue por aqui

Textos eticamente difíceis1 Coríntios 7:1-2

A Bíblia permite morar junto antes do casamento?

Em 1 Coríntios 7:1-2, Paulo responde a perguntas que os coríntios enviaram por carta. A frase "bom é para o homem não tocar mulher" provavelmente reproduz a opinião de um grupo da igreja que valorizava o celibato até dentro do casamento; muitos estudiosos leem essa linha como uma citação que Paulo cita para em seguida equilibrar. Depois, "por causa dos pecados sexuais", ele orienta que cada homem tenha sua própria mulher e cada mulher seu próprio marido — instrução sobre a estrutura exclusiva do casamento, não sobre convivência informal.

Ler explicação →
Textos eticamente difíceis1 Coríntios 8:4-8

É pecado comer alimento associado a outra religião?

Em Corinto, boa parte da carne vendida no mercado vinha de animais sacrificados nos templos pagãos. Um grupo de cristãos, convencido de que "o ídolo nada é no mundo" e que "não há qualquer outro Deus, a não ser um" (1 Coríntios 8:4), sentia-se livre para comer sem culpa. Paulo concorda: para quem crê, há um só Deus Pai e um só Senhor Jesus Cristo, de quem vêm todas as coisas.

Ler explicação →
Textos eticamente difíceis1 Coríntios 7:21-23

"Fostes comprados por preço": o que Paulo diz ao escravo cristão

Paulo responde a uma pergunta prática: quem virou cristão sendo escravo precisa buscar liberdade a qualquer custo? Ele aplica o mesmo princípio já usado para a circuncisão: cada um permaneça no estado em que foi chamado (v. 20). Ao escravo, diz para não se afligir, mas aproveitar chance legítima de liberdade (v. 21). O argumento central vem a seguir: diante do Senhor, o escravo chamado é livre, e o livre chamado é escravo de Cristo — a hierarquia social desaparece diante de Deus (v. 22).

Ler explicação →
Textos eticamente difíceis1 Coríntios 9:11-14

É certo o pastor receber salário pelo ministério?

Em 1 Coríntios 9:11-14, Paulo argumenta que é justo receber sustento material por um trabalho espiritual. Ele lembra os coríntios de que, se semeou entre eles as verdades do evangelho, não é absurdo esperar colher algum benefício prático dessa mesma comunidade. Para reforçar o ponto, cita um costume conhecido de todos: os que serviam no templo, cuidando do altar e das coisas sagradas, viviam daquilo que ali era oferecido.

Ler explicação →
Textos eticamente difíceis1 Coríntios 9:19-23

Fiz-me tudo para todos: Paulo prega relativismo ou estratégia missionária?

Em 1 Coríntios 9:19-23, Paulo escreve que se fez tudo para todos, judeu para os judeus, como quem está sob a lei para os que estão sob a lei, fraco para os fracos, a fim de por todos os meios ganhar alguns para o evangelho. Tirada de contexto, a frase parece endossar dizer qualquer coisa a qualquer público, sem convicção fixa. Lida dentro do capítulo inteiro, ela descreve limites práticos e concretos de adaptação cultural na estratégia missionária, não abandono de convicção pessoal ou doutrinária. Ainda assim, a linha entre adaptação legítima e comprometimento de princípios gera debate honesto até hoje entre quem tenta aplicar o mesmo princípio em contextos missionários contemporâneos.

Ler explicação →
Textos eticamente difíceis2 Tessalonicenses 3:6-10

Quem não quer trabalhar, também não coma

Paulo escreve à igreja de Tessalônica pouco depois de sua primeira carta, num momento em que parte da comunidade parou de trabalhar, talvez convencida de que "o dia do Senhor" já tinha chegado ou era iminente demais para manter a rotina normal. O apóstolo ordena que os irmãos se afastem de quem "anda desordenadamente" — expressão que no grego descrevia um soldado fora de fileira — e não segue o padrão de vida ensinado pelos apóstolos com o próprio exemplo.

Ler explicação →
Costumes da época1 Coríntios 1:11-13

Paulo, Apolo, Cefas: a rivalidade que dividia Corinto

Paulo escreve à igreja de Corinto porque recebeu, pela casa de Cloé, um relato preocupante: a comunidade estava rachada em grupos rivais. Uns diziam "eu sou de Paulo", outros "eu de Apolo", outros "eu de Cefas" — nome aramaico de Pedro — e outros "eu de Cristo", como se cada nome fosse a bandeira de um time à parte. Corinto valorizava oratória e patronagem, e essa lógica de "seguir um mestre" para ganhar status migrou para dentro da igreja, criando disputas que fragmentavam a comunidade.

Ler explicação →