Tércio
Quem foi Tércio, o escriba que escreveu a Carta aos Romanos?
Ficha do personagem
Corinto, c. 57 d.C.
Aparece em
Relações
- secretário de Paulo
- companheiro em Corinto de Gaio
- companheiro em Corinto de Erasto
Resposta curta
Tércio é o escriba (amanuense) que escreveu a Carta aos Romanos ao ditado de Paulo. Ele é a única pessoa que se identifica pelo nome como secretário numa carta paulina, ao acrescentar uma saudação própria em : "Eu, Tércio, que escrevi esta carta, vos saúdo no Senhor". O texto sugere que a carta foi redigida em Corinto, por volta de 57 d.C.
Fora desse versículo, a Bíblia nada diz sobre ele. O nome é latino e significa "terceiro", e era comum entre escravos e libertos, mas nada garante que Tércio fosse um deles. Ele não deve ser confundido com Silas, nem com Tértulo, o orador de . A prática de ditar cartas a secretários era normal no mundo antigo, e isso coloca perguntas sobre quanto de uma carta era da mão do secretário e quanto do autor.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaA saudação de Tércio é feita "no Senhor" (en kyrio), a mesma expressão que Paulo usa em para qualificar os crentes e seus serviços (16:2, 8, 11-13). O escriba é lembrado como alguém cujo trabalho de escrever se insere no serviço a Cristo, não como mero técnico. Não há tipologia: o texto não apresenta Tércio como figura de Cristo. A relação é indireta, no sentido de que a menção mostra o evangelho passando por mãos humanas comuns, em uma carta que fala da justiça de Deus revelada em Jesus Cristo.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Tércio foi o secretário que escreveu a Carta aos Romanos enquanto Paulo ditava. Quase no fim da carta, ele aproveita para mandar a sua própria saudação: "Eu, Tércio, que escrevi esta carta, vos saúdo no Senhor". É o único secretário que se apresenta pelo nome em uma carta de Paulo. No mundo antigo, era comum ditar cartas a um escriba. Fora desse versículo, a Bíblia não conta nada sobre ele. Ele não deve ser confundido com Silas.
O mundo dele
é um capítulo de recomendações e saudações. Em 16:1-2, Paulo recomenda Febe, diaconisa de Cencreia, o porto oriental de Corinto, que provavelmente levou a carta a Roma. Nos versículos finais, ele envia saudações de seus companheiros presentes, entre eles Timóteo, Lúcio, Jasão e Sosípatro (16:21), e, em 16:22, intervém uma voz distinta: "Eu, Tércio, que escrevi esta carta, vos saúdo no Senhor". Seguem Gaio, que hospeda Paulo e toda a igreja, e Erasto, tesoureiro da cidade (16:23). Tudo isso indica Corinto como local da redação, em cerca de 57 d.C., durante a visita de três meses mencionada em .
No mundo greco-romano, quase toda correspondência de peso era ditada a um secretário (em latim, amanuensis). A maioria dos escritores não tinha tempo, vista ou habilidade para escrever longos textos, e o trabalho de cópia em papiro era demorado. Cícero, por exemplo, serviu-se por muito tempo de seu secretário Tiro, que, segundo a tradição, aperfeiçoou um sistema de abreviações (a "notação tironiana"), e o orador distingue em suas cartas os casos em que escreveu de próprio punho e aqueles em que ditou. Outros autores latinos mencionam práticas semelhantes. Entre os cristãos, Pedro envia sua primeira carta "por meio de Silvano" (), expressão que pode indicar secretário ou portador.
Paulo faz questão, em várias cartas, de assinalar que acrescentou algo de sua própria mão, o que pressupõe que o restante fora escrito por outro: "Vede com que letras grandes vos escrevi de minha própria mão" (); veja-se também , Tessalonicenses 3:17 e . Em Romanos, porém, não há esse tipo de marca, e a saudação de Tércio é o único caso em que o secretário aparece com nome. O local e a data são inferências a partir dos nomes e das viagens de Paulo, pois a carta não traz endereço de origem; mesmo assim, a hipótese coríntia é a mais aceita entre os comentaristas.
A história
O versículo é breve, mas diz muito. O verbo "escrevi" (em grego, ho grapsas) indica que Tércio foi quem pôs a carta no papiro. A saudação "no Senhor" mostra que ele era cristão e que participava da comunidade, e que Paulo permitiu que ele se pronunciasse na primeira pessoa. É raro, na literatura antiga, que um secretário se apresente dentro do texto, e isso sugere que Tércio tinha lugar de estima entre os colaboradores de Paulo.
O nome Tertius significa "terceiro" e era comum em Roma, inclusive entre escravos e libertos. Muitos escravos e libertos exerciam a função de secretários, por serem alfabetizados e treinados. Daí, alguns estudiosos concluem que Tércio era escravo ou liberto, o que é plausível, mas o texto não diz. Também é possível que fosse homem livre, e há quem o associe, sem apoio no texto, à classe de profissionais contratados.
O que um amanuense fazia? E. Randolph Richards, em seu estudo de 1991 sobre o secretário nas cartas de Paulo, mostra que o trabalho variava em um espectro. Em um extremo, o secretário apenas registrava palavra por palavra, às vezes sílaba por sílaba, em ditado lento. No outro, recebia apenas as ideias gerais e redigia a carta, que o autor revisava e assinava. Havia também o uso de escrita rápida (taquigrafia), de rascunhos em tabuinhas de cera e de cópias para arquivo, de que Cícero fala. O ditado sílaba por sílaba era mais raro, porque era lento e custoso. Isso significa que um secretário podia ter margem na escolha de palavras, estilo e arranjo das frases.
Essa margem entra no debate sobre o estilo e a autoria das cartas paulinas. As diferenças de vocabulário e de estilo entre cartas como Romanos e Efésios, ou entre as cartas pastorais e as demais, às vezes são explicadas pelo uso de secretários diferentes. A hipótese é aceita por alguns e criticada por outros, que lembram que a hipótese não explica por si só mudanças de conteúdo teológico. De qualquer modo, em Romanos, uma carta de argumentação coesa e estilo consistente com as cartas maiores de Paulo, não há razão para duvidar da autoria paulina. A figura de Tércio mostra que "autoria" na Antiguidade não era sinônimo de "pena na mão".
Por fim, o que não sabemos. Há especulações antigas e modernas sobre quem Tércio teria sido. Uma delas o identifica com Silas (Silvano), mas não há base no texto, onde os nomes são distintos, e o próprio Silas, até onde Atos informa, tinha outras funções. Tradições tardias, de origem incerta, ligam um Tércio a Icônio, como bispo, e o incluem entre os setenta discípulos; não há fonte primária que as sustente. A Bíblia é silenciosa sobre o destino dele.
O que costumam dizer errado2
Dizem que:Tércio escreveu a Carta aos Romanos por conta própria, e Paulo só assinou.
diz que Tércio escreveu a carta (isto é, fez o registro), mas o conteúdo é atribuído a Paulo desde . Nada indica que Tércio compusesse o texto por iniciativa própria. A prática de ditado ao secretário era comum e não retirava a autoria de quem dirigia a carta.
Dizem que:Tércio era outro nome de Silas ou Silvano.
Não há nenhuma passagem que ligue os nomes. Silas e Silvano são nomes usados para o mesmo companheiro de Paulo (; ), mas Tertius é nome distinto, e o texto de o trata como pessoa separada dos outros companheiros. A identificação aparece apenas em especulações tardias.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Protestante evangélica (inspiração plenária)
Entende que o uso de secretário não afeta a inspiração: o Espírito conduziu o conteúdo da carta por meio do autor e dos instrumentos humanos que ele empregou, de modo que a presença de Tércio não ameaça a autoridade do texto.
Católica
Lê a figura do secretário à luz da doutrina de que Deus, ao inspirar as Escrituras, escolheu homens que usaram suas próprias faculdades como verdadeiros autores (Dei Verbum, 11), o que inclui o papel dos que colaboram na redação.
Crítica histórica
Usa a existência de secretários para explicar diferenças de estilo entre as cartas paulinas, e vê em Tércio um dos raros nomes de colaboradores técnicos que a literatura antiga conservou. Parte dos estudiosos aceita a hipótese e parte a considera insuficiente.
O que fazer com isso
Tércio ensina que grandes textos nascem do trabalho de muitas mãos, e que o serviço anônimo faz parte da história. Ele aparece uma única vez, num cumprimento de poucas palavras, e Paulo o deixa falar. O texto convida a valorizar quem executa o trabalho discreto, sem exigir destaque, e lembra que a fé também se expressa em saber escrever bem o que outro precisa dizer.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas5
- E. Randolph Richards. The Secretary in the Letters of Paul, 1991.
- E. Randolph Richards. Paul and First-Century Letter Writing, 2004.
- Douglas J. Moo. The Epistle to the Romans (New International Commentary on the New Testament), 1996.
- Joseph A. Fitzmyer. Romans (Anchor Bible), 1993.
- Marco Túlio Cícero. Cartas a Ático.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O que é um amanuense?
É o secretário que escreve o que outra pessoa dita. No mundo antigo era comum, porque ditar cartas poupava tempo e esforço. Tércio exerceu esse papel em Romanos.
Onde Tércio estava quando escreveu a carta?
Provavelmente em Corinto. menciona Febe, de Cencreia, e Gaio e Erasto, associados a essa cidade em outros textos, o que sugere que a carta foi escrita ali, por volta de 57 d.C., durante a visita de Paulo à Grécia.
Os secretários podiam alterar o texto?
Dependia do grau de liberdade dado. Alguns apenas anotavam o ditado, outros recebiam as ideias e redigiam o texto, que o autor revisava. Não sabemos qual foi o grau de liberdade de Tércio, mas Paulo assumia a carta como sua.