Sérgio Paulo
Quem foi Sérgio Paulo, o procônsul de Chipre?
Ficha do personagem
Chipre, c. 46-48 d.C. (primeira viagem missionária)
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Resposta curta
Sérgio Paulo foi o procônsul romano de Chipre quando Barnabé e Saulo chegaram a Pafos, na primeira viagem missionária, por volta de 46-48 d.C. o descreve como homem prudente, que mandou chamar os dois missionários porque desejava ouvir a palavra de Deus. Um mago judeu chamado Elimas, que estava junto dele, tentou desviá-lo da fé, e Saulo o repreendeu; Elimas ficou cego por algum tempo. Ao ver o que aconteceu, o procônsul creu, admirado com o ensino do Senhor.
É também a partir deste episódio que Lucas passa a chamar Saulo de Paulo. Muitos já ligaram os dois fatos, supondo que o apóstolo tomou o nome do procônsul, mas o texto não afirma isso. A história é curta e não diz se Sérgio Paulo foi batizado, nem o que aconteceu com ele depois.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO relato não mostra Jesus diretamente, mas mostra o resultado de sua ordem aos discípulos: levar o testemunho "até os confins da terra" (). Um representante do poder romano, que não tinha ligação com a história de Israel, ouve "o ensino do Senhor" e responde com fé. O texto de Lucas fala em ensino do Senhor, o que indica que o centro da mensagem é o próprio Jesus, e o episódio indica que o evangelho alcançaria também autoridades civis do império.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Sérgio Paulo era o governador romano da ilha de Chipre quando Barnabé e Saulo chegaram lá para pregar. Ele os chamou porque queria ouvir a palavra de Deus. Um mago judeu chamado Elimas, que trabalhava com ele, tentou impedi-lo de crer, e Saulo o repreendeu; Elimas ficou cego por um tempo. Vendo isso, Sérgio Paulo creu. A partir desse momento, o texto passa a chamar Saulo de Paulo. Não se sabe se foi por causa do governador; a Bíblia não explica.
O mundo dele
situa a cena em Pafos, cidade do lado ocidental de Chipre, no começo da primeira viagem missionária de Barnabé e Saulo, enviados pela igreja de Antioquia da Síria com João Marcos como auxiliar (). A data se situa por volta de 46-48 d.C., no reinado do imperador Cláudio. Chipre era a terra natal de Barnabé (), e os missionários já haviam pregado nas sinagogas de Salamina, na costa leste, antes de cruzar a ilha até Pafos, onde ficava a sede do governo romano.
Lucas chama Sérgio Paulo de "procônsul" (anthypatos). O título é exato para a época. Em 22 a.C., Augusto devolveu Chipre ao Senado, e a partir daí a ilha passou a ser província senatorial, governada por um procônsul, não por um prefeito ou legado imperial, como ocorria em outras regiões. Esse tipo de precisão é um dos pontos que os historiadores costumam citar ao avaliar o cuidado de Lucas com os cargos romanos.
O procônsul é chamado de "homem prudente" ou inteligente (synetos), e Lucas acrescenta que tinha ao seu lado um judeu chamado Barjesus, "mago" e "falso profeta", que o texto também chama de Elimas, interpretado como "mago". Era comum nessa época que governantes romanos mantivessem consultores religiosos ou astrólogos em sua corte, e os judeus que praticavam magia e adivinhação eram numerosos no Mediterrâneo. Isso ajuda a entender por que o procônsul tinha um judeu como conselheiro e, ao mesmo tempo, procurou ouvir os visitantes. A passagem, no entanto, não descreve o que Elimas aconselhava, e é preciso tomar cuidado para não preencher o silêncio com suposições. O texto de Lucas é silencioso sobre os motivos exatos: diz apenas que Sérgio Paulo "desejava ouvir a palavra de Deus". Não se sabe, pelo texto, se ele já havia tido contato com o judaísmo, se foi atraído pela fama dos missionários ou se buscava respostas por conta própria.
A história
A cena tem duas partes. Na primeira, o procônsul manda chamar Barnabé e Saulo. Elimas se opõe, tentando afastá-lo da fé. Na segunda, Saulo, "também chamado Paulo, cheio do Espírito Santo", fixa os olhos nele e o chama de filho do diabo e inimigo de toda justiça, por torcer os caminhos retos do Senhor. A punição é uma cegueira temporária, "por algum tempo", e a reação do procônsul é de fé: ele creu, "maravilhado com o ensino do Senhor" (). Lucas diz que ele se maravilhou com o ensino, não só com o milagre. Também é relevante que Paulo, que até ali era mencionado em segundo lugar depois de Barnabé, passa a ser o protagonista da narrativa. O próprio Lucas não explica a mudança, e o leitor precisa inferi-la a partir da ordem em que os nomes aparecem nos versículos seguintes.
Uma pergunta frequente é se o nome Paulo vem de Sérgio Paulo. Jerônimo, no fim do século IV, sugeriu que Saulo teria adotado o nome como troféu da conversão do procônsul. Estudiosos modernos costumam ser cautelosos. Como cidadão romano (), Saulo provavelmente tinha desde o nascimento um nome latino (cognomen), e era comum que judeus da diáspora tivessem um nome hebraico e outro greco-romano, com som parecido. Nessa leitura, Lucas apenas passa a usar o nome romano porque a narrativa agora entra em território gentio e Paulo assume a liderança do grupo, que a partir de então é chamado "Paulo e seus companheiros" (). O texto não resolve a questão, e a ligação entre os dois fatos permanece uma hipótese, não um dado.
Há também discussão histórica sobre a identificação do homem. O nome Sérgio Paulo (Sergius Paullus) pertence a uma família romana conhecida. Uma inscrição de Roma menciona um Lúcio Sérgio Paulo como curador das margens do Tibre durante o reinado de Cláudio, e inscrições de Chipre e da Ásia Menor trazem os nomes Sérgio e Paulo, algumas delas ligadas à região de Antioquia da Pisídia, onde Paulo pregaria logo depois. Colin Hemer e outros comentaristas apontam essas peças como possíveis confirmações, mas elas são debatidas: nenhuma inscrição conhecida traz inequivocamente o procônsul de com o título de Chipre, e os estudiosos divergem sobre qual membro da família seria ele. Fora de Atos, também não há fonte cristã primitiva que confirme sua conversão ou batismo, e Lucas, que costuma indicar quando alguém foi batizado, não o faz aqui. Segundo alguns estudiosos, Plínio, o Velho, relaciona um Sérgio Paulo entre as fontes de sua obra, mas é incerto se se trata do mesmo homem, e nada nessas referências toca na fé dele. Ele afirma apenas que o procônsul creu.
O que costumam dizer errado2
Dizem que:Paulo recebeu esse nome por causa de Sérgio Paulo, quando o converteu.
diz apenas que Saulo era "também chamado Paulo". O texto não afirma que ele tomou o nome do procônsul. A hipótese existe desde Jerônimo, mas muitos estudiosos entendem que Saulo já possuía o nome romano Paulo antes da viagem, como cidadão romano de nascimento.
Dizem que:Sérgio Paulo foi batizado e se tornou líder da igreja em Chipre.
diz somente que ele creu. O livro não menciona batismo, nem que ele tenha deixado o cargo, nem que tenha exercido qualquer função na igreja. Qualquer informação sobre sua vida posterior vem de tradição tardia e não de fonte bíblica.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Patrística
Jerônimo viu na conversão do procônsul um fruto notável da missão de Paulo entre os gentios e sugeriu que o apóstolo adotou o nome Paulo como lembrança dessa vitória. É uma leitura antiga, mas apenas uma sugestão, sem apoio direto no texto.
Reformada
A leitura reformada, a exemplo de Calvino, costuma enfatizar que a palavra de Deus tem poder sobre os poderosos e que a fé de Sérgio Paulo nasceu do ensino, e não só do milagre. A cegueira de Elimas aparece como juízo contra quem tenta impedir a pregação, sem anular a liberdade do procônsul para ouvir.
Histórico-crítica
Comentaristas como Fitzmyer e Keener destacam a exatidão do título romano usado por Lucas e tratam como questões em aberto a identificação exata do procônsul, a razão pela qual Saulo passa a ser chamado Paulo neste ponto e a data precisa da viagem.
O que fazer com isso
O encontro com Sérgio Paulo mostra um homem de poder que não se contentou com os conselheiros que já tinha e quis ouvir diretamente. O texto não o apresenta como alguém perfeito, mas como alguém que pesou o que ouviu e respondeu. A cena também mostra que a fé pode surgir fora dos espaços esperados, e que quem busca com sinceridade pode se encontrar com a mensagem em lugares inesperados.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- Joseph A. Fitzmyer. The Acts of the Apostles (Anchor Bible), 1998.
- Colin J. Hemer. The Book of Acts in the Setting of Hellenistic History, 1989.
- Craig S. Keener. Acts: An Exegetical Commentary, vol. 2, 2013.
- Jerônimo. Comentário à Epístola a Filemom.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O que era um procônsul romano?
Era o governador de uma província senatorial, nomeada pelo Senado. Chipre passou a ser província senatorial a partir de 22 a.C., por isso Lucas usa corretamente o termo procônsul para Sérgio Paulo.
Quem era Elimas, o mago?
Lucas o apresenta como um judeu chamado Barjesus, que tinha fama de mago e falso profeta e vivia junto ao procônsul. O nome Elimas aparece como outro nome ou título e é explicado no texto como "mago". Ele tentou impedir que Sérgio Paulo cresse e ficou cego por algum tempo.
Sérgio Paulo realmente existiu fora da Bíblia?
Há inscrições com o nome Sergius Paulus em Roma e em regiões ligadas à viagem de Paulo, mas nenhuma delas é aceita por todos como a prova definitiva de que se trata do procônsul de . A identificação é provável para alguns estudiosos, discutida por outros.
Paulo mudou de nome por causa dele?
Não há como afirmar. diz que Saulo era também chamado Paulo, sem explicar a razão. A hipótese de que o nome veio do procônsul é antiga, mas muitos estudiosos preferem ver aí um segundo nome que Saulo já tinha.