Naás, rei dos amonitas
Quem foi Naás, o rei amonita que ameaçou Jabes-Gileade?
Ficha do personagem
Cerca de 1050 a.C.; Amom e Jabes-Gileade
Resposta curta
Naás foi rei dos amonitas, povo vizinho de Israel a leste do Jordão, e é lembrado pelo cerco que fez a Jabes-Gileade. Quando os habitantes propuseram um tratado, ele exigiu furar o olho direito de cada um, como humilhação para todo Israel. Os anciãos pediram sete dias, enviaram mensageiros às tribos, e a notícia chegou a Gibeá, onde Saul, tomado pelo Espírito de Deus, convocou o povo e derrotou os amonitas. A vitória confirmou Saul como rei diante de todos. Anos depois, já no reinado de Davi, Naás morreu, e Davi quis retribuir a bondade que dele recebera, mas o filho e sucessor, Hanum, humilhou os enviados davídicos, o que levou a uma guerra longa.
Onde ele aparece
Em palavras simples
Naás era o rei dos amonitas, um povo vizinho de Israel. Ele cercou a cidade de Jabes-Gileade e disse que só faria paz se furasse o olho direito de todos os moradores. Os anciãos pediram sete dias e mandaram avisar as tribos. Quando Saul soube, reuniu o exército e derrotou os amonitas, e o povo o reconheceu como rei. Muito tempo depois, quando Naás morreu, Davi quis consolar o filho dele, Hanum, mas Hanum humilhou os mensageiros, e isso levou a uma guerra.
O mundo dele
Os amonitas habitavam a região de Rabá (a atual Amã), no planalto da Transjordânia, e a tradição bíblica os liga a Ló (). Eram vizinhos e rivais de Israel, em especial das tribos a leste do Jordão, e o livro de Juízes registra conflitos anteriores, como o de Jefté (). Jabes-Gileade, cidade de Gileade, também aparece em e, depois, por gratidão a Saul, seus homens recuperam seu corpo após Gilboa ().
O ataque descrito em ocorre logo depois de Saul ser escolhido rei, mas antes de ser reconhecido por todos, pois alguns o haviam desprezado (). Quando os habitantes de Jabes oferecem servir a Naás em troca de uma aliança, ele propõe furar o olho direito de cada um, "para pôr essa afronta sobre todo Israel" (11:2). Comentaristas costumam observar que a mutilação incapacitaria o guerreiro, que cobria o olho esquerdo com o escudo, e serviria como humilhação pública.
Há uma complicação textual. O manuscrito hebraico de Qumran 4QSamuel-a e o historiador Flávio Josefo, nas Antiguidades Judaicas, trazem uma passagem a mais, antes do cap. 11, em que Naás já havia mutilado os homens de Gade e Rúben, e sete mil deles escaparam e se refugiaram em Jabes. Essa passagem não consta nas Bíblias baseadas no texto massorético, e os estudiosos divergem sobre se é original ou uma explicação posterior.
O nome Naás, em hebraico Nahash, significa "serpente", e é possível que fosse título ou nome comum entre os amonitas. O texto não explica o significado nem a origem.
A data também merece cautela. A cronologia tradicional situa Saul por volta de 1050 a.C., mas as datas dos primeiros reis de Israel são aproximadas e variam entre os estudiosos. O texto de apenas diz que o episódio ocorreu pouco depois da escolha de Saul, sem indicar ano, e por isso a data do cerco é uma estimativa, e não um dado do relato.
Por fim, a posição de Jabes-Gileade entre o Jordão e as colinas de Gileade a deixava exposta ao avanço amonita, e a oferta de servir a Naás mostra que seus habitantes não esperavam socorro imediato.
A história
A cena é narrada com economia. Cercados, os homens de Jabes pedem uma aliança, e a resposta é o ultimato do olho direito. Os anciãos pedem sete dias para procurar ajuda em Israel e, se ninguém vier, se entregarão (). Naás aceita, talvez por confiança excessiva, e o texto não indica o motivo. Os mensageiros chegam a Gibeá de Saul, e o povo chora. Saul volta do campo com seus bois, ouve a notícia e o Espírito de Deus "se apossa" dele; corta os bois em pedaços e os envia pelo território de Israel com a ameaça de que o mesmo se faria com os bois de quem não seguisse Saul e Samuel (11:7). O medo do Senhor cai sobre o povo, e os israelitas se reúnem em Bezeque (11:8).
Os números, trezentos mil de Israel e trinta mil de Judá, são tema de discussão: o termo hebraico para "mil" pode ter sentido diferente de números exatos, e alguns estudiosos propõem leitura em unidades de clã. Seja como for, Saul divide o exército em três grupos e ataca o acampamento na vigília da manhã, derrotando os amonitas "até que o dia se aqueceu". Os sobreviventes fogem dispersos, "não ficaram dois juntos" (11:11). A vitória leva o povo a proclamar Saul rei em Gilgal, e Saul poupa os que o haviam desprezado, dizendo que "hoje o Senhor trouxe livramento a Israel" (11:13).
O episódio dialoga com , onde Samuel lembra que o povo pediu rei ao ver Naás vir contra eles. Em , porém, o pedido já ocorrera antes, e Samuel parece reler a motivação do povo à luz do que aconteceu. Os comentaristas explicam isso de maneiras diferentes: como pressão anterior à decisão, ou como releitura posterior.
O fim de Naás é contado em . Davi diz que mostrará bondade a Hanum, filho de Naás, "como seu pai teve bondade comigo". O texto não diz em que consistiu essa bondade. É possível que Naás, inimigo de Saul, tenha acolhido Davi ou o apoiado, mas isso é dedução, e não consta. O episódio termina mal: Hanum entende os enviados como espiões e os humilha, e começa a guerra ().
Há também referências ligadas a Naás em (Abigail, irmã de Zeruia, é chamada "filha de Naás") e 17:27 (Sobi, filho de Naás, de Rabá, ajuda Davi). Se esse Naás é o rei amonita, é incerto.
O que costumam dizer errado2
Dizem que:Naás ameaçou furar os dois olhos dos habitantes de Jabes-Gileade.
O texto diz que a exigência era furar o olho direito de cada um (), o que inutilizaria o guerreiro sem matá-lo e serviria de humilhação a todo Israel. Não fala em cegar por completo.
Dizem que:O episódio de Gade e Rúben mutilados por Naás faz parte de todas as Bíblias em português.
Esse parágrafo, que antecede em um manuscrito de Qumran (4QSamuel-a) e em Josefo, não consta no texto massorético que serve de base à maioria das traduções tradicionais. Algumas traduções modernas o incluem ou o mencionam em nota, e os estudiosos divergem sobre sua originalidade.
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Protestante (comentário clássico)
Comentaristas como Matthew Henry leem a vitória como confirmação divina de Saul, em um momento em que ele ainda é humilde, não se vinga dos adversários e atribui o livramento ao Senhor. A figura de Naás serve de contraste com o rei escolhido por Deus.
Católica
Costuma destacar o Espírito do Senhor que desce sobre Saul como a fonte de sua força e liderança, e o gesto de poupar os adversários como sinal de misericórdia. A tradição lê a passagem como parte da história da instituição da realeza em Israel, sem a idealizar.
Ortodoxa
A tradição que lê o Antigo Testamento no texto grego da Septuaginta reconhece que Samuel apresenta ali variações em relação ao hebraico massorético. Lê o relato como história sagrada em que Deus livra seu povo de uma ameaça por meio do rei que escolheu, e vê no Espírito que vem sobre Saul a origem da vitória.
Crítica histórica
Muitos estudiosos, como P. Kyle McCarter Jr., defendem que a passagem extra de Qumran e de Josefo é original e que sua queda no texto massorético foi acidental. Veem em uma tradição antiga sobre a origem da realeza de Saul como líder militar na Transjordânia.
O que fazer com isso
Naás representa a ameaça que usa a humilhação como instrumento, e o texto mostra que ela mobilizou um povo disperso. A reação de Saul, que poupa os adversários internos no dia da vitória, contrasta com a crueldade do cerco. Para o leitor atual, o episódio lembra que a violência que busca desmoralizar costuma unir quem seria dividido, e que há liderança que se prova menos na vingança do que na contenção depois do triunfo.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament (1 e 2 Samuel), 1878.
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1706.
- P. Kyle McCarter Jr.. I Samuel: A New Translation with Introduction and Commentary (Anchor Bible), 1980.
- Flávio Josefo. Antiguidades Judaicas.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que Naás queria furar o olho direito?
O texto diz que era para lançar uma afronta sobre todo Israel (). Comentaristas observam que o olho direito era o que o guerreiro usava ao combater com o escudo no braço esquerdo, de modo que a perda o tornaria inútil como soldado.
Que ligação Naás tem com Davi?
Em Davi diz que mostraria bondade a Hanum, filho de Naás, como o pai lhe mostrara. O texto não diz em que consistiu essa bondade. Depois, a humilhação dos enviados de Davi por Hanum levou a uma guerra contra os amonitas.
Naás foi derrotado pessoalmente por Saul?
O texto diz que Saul derrotou os amonitas, que se dispersaram (), mas não diz o que aconteceu com Naás. Sua morte só é mencionada em , sem detalhes, de modo que não se sabe se morreu em batalha ou de outra forma.
O que o nome Naás significa?
Em hebraico, Nahash é a palavra para "serpente". Não se sabe se era um nome pessoal comum entre os amonitas ou um título, e o texto bíblico não comenta o significado.