Agague, rei dos amalequitas
Quem foi Agague, o rei amalequita que Saul poupou?
Ficha do personagem
Cerca de 1030 a.C.; deserto do Neguebe
Resposta curta
Agague foi o rei dos amalequitas na campanha ordenada por Deus a Saul, por meio de Samuel, para destruir esse povo por causa do ataque a Israel no deserto. Saul venceu, mas capturou Agague vivo e poupou o melhor do gado, contrariando a ordem recebida (). Samuel o repreendeu, anunciou que Deus rejeitara Saul como rei e, em Gilgal, matou Agague com a espada, dizendo que, assim como ele deixara mulheres sem filhos, sua mãe ficaria sem filho (15:32-33). Séculos depois, Hamã, o vilão do livro de Ester, é chamado de agagita, e a tradição o liga a Agague, ligação que o texto sugere, mas não afirma.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
ContrasteA narrativa opõe a obediência parcial de Saul à obediência plena que o Novo Testamento atribui a Cristo. Saul poupou o que lhe pareceu valioso e se justificou pelo temor do povo (). Já Jesus é descrito como aquele que se fez obediente até a morte () e que aprendeu a obediência pelo que sofreu (). O contraste é de conduta diante da vontade de Deus, e não há identificação do rei amalequita com qualquer figura do Novo Testamento.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Agague foi o rei dos amalequitas, povo que tinha atacado Israel no deserto. Deus mandou, por meio do profeta Samuel, que o rei Saul destruísse os amalequitas. Saul venceu a batalha, mas poupou o rei Agague e o melhor do gado, desobedecendo à ordem. Samuel o repreendeu, disse que Deus rejeitaria Saul como rei e ele mesmo matou Agague em Gilgal. Muito depois, o livro de Ester chama Hamã de agagita, e a tradição o liga a Agague, mas o texto bíblico não deixa isso totalmente claro.
O mundo dele
O episódio de Agague acontece por volta de 1030 a.C., no início da monarquia israelita, quando Saul já era rei havia alguns anos. O capítulo 15 de 1 Samuel começa com uma ordem de Samuel em nome de Deus: castigar Amaleque pelo que fez a Israel quando saiu do Egito, e destruir tudo o que tinham (15:2-3). A referência é à emboscada no deserto, narrada em , em que os amalequitas atacaram os mais fracos que vinham na retaguarda do povo (). Os amalequitas eram um povo nômade do Neguebe e da península do Sinai, frequentemente em conflito com Israel (; ), e a ordem de destruir é um exemplo de herem, a devoção total à destruição, tema difícil que aparece em outros textos de conquista.
Saul reuniu um exército de duzentos mil soldados de infantaria e dez mil de Judá, derrotou os amalequitas desde Havilá até Sur, perto do Egito, e poupou os queneus, que haviam tratado Israel com bondade (15:4-7). Agague, o rei, foi capturado vivo, e Saul e o povo pouparam também o melhor das ovelhas, dos bois e dos cordeiros, destruindo só o que era desprezível e inútil (15:8-9). O nome Agague pode ser um nome pessoal ou um título dos reis amalequitas, como Faraó, no Egito. Balaão já fala de um rei maior que Agague em , bem antes de Saul, o que reforça a hipótese de título, embora o texto nunca diga isso. O Pentateuco Samaritano e a Septuaginta trazem Gogue nessa passagem, de modo que a leitura é incerta.
A época de Saul é de transição, com ameaças vindas de filisteus, amonitas, moabitas e amalequitas. O capítulo 15 representa o ponto de ruptura entre Saul e Samuel, depois de outro conflito semelhante em . Em ambos, a questão central é a obediência à palavra recebida por meio do profeta. O texto também observa que, ao longo do capítulo, Saul se justifica, diz que o povo poupou os animais para sacrificar a Deus (15:15) e confessa o pecado, mas Samuel mantém a sentença.
A história
A narrativa trata de um conflito de obediência, mais do que de um mero ato de guerra. Quando Samuel chega a Gilgal, Saul afirma ter cumprido a ordem (15:13). Samuel pergunta pelo balido das ovelhas que ouve (15:14), e Saul responde que o povo as poupou para oferecê-las em sacrifício. A resposta de Samuel é uma das frases mais conhecidas do Antigo Testamento: o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender melhor do que a gordura dos carneiros (15:22). Saul então admite que pecou por temer o povo (15:24), mas a sentença permanece: Deus rejeitou a sua realeza (15:23, 26). Há aqui um detalhe curioso: Samuel diz que Deus se arrependeu de ter feito Saul rei (15:11, 35), mas também afirma que Deus não se arrepende como o homem (15:29). Os comentaristas explicam a tensão pelo vocabulário hebraico: o verbo usado para o arrependimento pode indicar mudança de rumo diante de uma conduta, não mudança de caráter.
O destino de Agague é narrado de forma breve. Samuel manda trazê-lo. Agague chega com ânimo, dizendo que a amargura da morte passou (15:32). A expressão pode significar confiança de que será poupado ou, na leitura oposta, uma frase de resignação, e as traduções divergem. Samuel responde que a espada dele privou mulheres de filhos e que o mesmo se dará com a mãe dele, e o despedaça diante do Senhor em Gilgal (15:33). O texto não diz que Saul participou, e a execução é feita pelo profeta, o que reforça que a decisão final era divina. O episódio é narrado sem justificar cada detalhe da violência, e por isso é um dos mais debatidos do Antigo Testamento.
A conexão com Hamã é um tema à parte. O livro de Ester chama Hamã de agagita (3:1; 3:10; 8:3; 9:24), e Mardoqueu é descrito como benjamita cuja genealogia inclui um Quis, nome que também era o do pai de Saul (2:5). A tradição judaica e o historiador Josefo entenderam Hamã como descendente de Agague, e a leitura de no sábado que precede Purim, conhecido como Zakhor, reforça a ligação. O texto, porém, não explica a genealogia, e alguns estudiosos sugerem que agagita possa indicar uma região, ou uma origem não amalequita, ou um título político. Convém tratar a ligação como possível e antiga, mas sem afirmar que o texto a demonstre. De qualquer forma, a narrativa de Ester parece dialogar com a de Saul: o que Saul não terminou, Mardoqueu e Ester enfrentam.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Saul matou Agague.
Saul o capturou vivo e o poupou (). Quem executou Agague foi o profeta Samuel, em Gilgal (15:33).
Dizem que:Hamã, o inimigo de Ester, era com certeza descendente direto de Agague.
O livro de Ester chama Hamã de agagita, mas não explica a origem do termo. A ligação com Agague é antiga na tradição judaica e em Josefo, porém é uma inferência, e alguns estudiosos propõem outras explicações, como origem geográfica ou título.
Dizem que:Saul poupou Agague por compaixão.
O texto não apresenta compaixão. Saul atribui a decisão ao temor do povo e à intenção de sacrificar os animais (), e o relato nada diz sobre os motivos de manter Agague vivo.
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica
A tradição rabínica liga Amaleque ao inimigo constante de Israel e lê o texto de na leitura de Zakhor, antes de Purim, para associar Agague ao agagita Hamã. A ordem de apagar a memória de Amaleque () é lida como mandamento vinculado àquele povo e àquele contexto.
Protestante
Muitos comentaristas veem em o juízo divino sobre um povo que atacou o frágil Israel e, sobretudo, o fracasso de Saul na obediência. O foco recai sobre a frase obedecer é melhor que sacrificar, e o herem é entendido como parte do contexto histórico, sem ser aplicado hoje.
Católica e ortodoxa
Os Padres da Igreja trataram a destruição dos amalequitas como difícil, e muitos recorreram à leitura espiritual, que vê em Amaleque os vícios a combater. Ao lado disso, a tradição vê em Saul um exemplo de falha da obediência.
Crítica histórica
Muitos estudiosos observam que a linguagem de destruição total era convenção de textos de guerra do antigo Oriente Próximo, que combinava exagero retórico com ação limitada. A própria Bíblia mostra amalequitas sobrevivendo e atacando depois (; 30:1), o que pesa na leitura do capítulo.
O que fazer com isso
O capítulo 15 de 1 Samuel mostra que obediência parcial pode parecer religiosa e continuar sendo desobediência, e que justificativas piedosas não substituem o que foi pedido. Também convida a ler com cuidado textos de guerra consagrada, sem esquecer que eles são narrativas de um tempo específico, com leituras diversas nas tradições judaica e cristã, e sem aplicá-los diretamente à vida de hoje.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- Robert P. Gordon. 1 & 2 Samuel: A Commentary, 1986.
- P. Kyle McCarter Jr.. I Samuel (Anchor Bible), 1980.
- Flávio Josefo. Antiguidades Judaicas, 94.
- Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament (1 e 2 Samuel), 1878.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que Deus mandou destruir os amalequitas?
O texto liga a ordem ao ataque de Amaleque a Israel no deserto, depois do êxodo (; ; ). É um dos casos mais difíceis do Antigo Testamento, e as tradições o leem de maneiras diferentes.
Quem matou Agague?
Samuel. Agague foi trazido a ele em Gilgal, e o profeta o matou com a espada diante do Senhor ().
Hamã, o agagita, era descendente de Agague?
A tradição judaica e Josefo assim entendem, e o contraste entre Mardoqueu, ligado à família de Saul, e Hamã sugere essa leitura. Mas o texto de Ester não explica o termo agagita, e há outras hipóteses.
Os amalequitas foram exterminados por Saul?
Não totalmente. O relato fala em destruição, mas amalequitas voltam a aparecer depois, atacando Ziclague no tempo de Davi (), e há uma menção a sobreviventes no tempo de Ezequias ().