Jasão de Tessalônica
Quem foi Jasão de Tessalônica, o anfitrião de Paulo e Silas?
Ficha do personagem
Tessalônica, c. 50 d.C.
Resposta curta
Jasão foi o cristão de Tessalônica, na Macedônia, em cuja casa Paulo e Silas aparentemente se hospedaram durante a missão de c. 50 d.C. Quando judeus ciumentos, ajudados por homens da praça, provocaram um tumulto, a multidão foi à casa de Jasão atrás dos missionários. Não os encontrando, arrastou Jasão e alguns irmãos diante dos politarcas, as autoridades da cidade.
A acusação foi grave: eles teriam "alvoroçado o mundo", agiam contra os decretos de César e diziam haver "outro rei, Jesus". Jasão e os demais pagaram uma fiança e foram soltos. Paulo e Silas partiram de noite para Bereia. Um Jasão aparece também em como parente de Paulo, mas Atos e Romanos não permitem afirmar que seja a mesma pessoa.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaA acusação feita contra os discípulos em Tessalônica, "há outro rei, Jesus", repete a que levou Jesus a Pilatos: "dizendo ser ele mesmo Cristo, rei" (). Em , os adversários advertem Pilatos de que quem se faz rei opõe-se a César. Em , os discípulos são acusados do mesmo crime político. O texto não faz tipologia, e Jasão não é figura de Cristo. A relação é de proclamação e consequência: os que anunciam o senhorio de Jesus passam a receber a mesma acusação que o Mestre recebeu, e a hospitalidade que prestam torna-os partícipes do risco.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Jasão era um morador de Tessalônica que recebeu Paulo e Silas em sua casa. Quando uma multidão furiosa foi procurar os dois missionários e não os achou, levou Jasão e outros irmãos diante dos magistrados da cidade. Acusaram-nos de agir contra as ordens do imperador e de dizer que existia outro rei, Jesus. Jasão pagou uma fiança e foi solto. Paulo e Silas partiram de noite para outra cidade. Paulo menciona um Jasão em , mas não é certo que seja o mesmo.
O mundo dele
Tessalônica, atual Salônica, era a capital da província romana da Macedônia e um porto importante da Via Egnácia, estrada que ligava o Adriático ao Egeu. Era cidade livre, com assembleia própria, e governada por magistrados chamados politarcas. O título aparece em e 17:8 e por muito tempo foi considerado suspeito, já que não se encontrava em autores clássicos. Hoje o termo é bem atestado em inscrições da Macedônia, e uma delas, da própria Tessalônica (a chamada inscrição do Vardar, hoje no Museu Britânico), registra uma lista de politarcas. O dado reforça a precisão do autor de Atos quanto à terminologia local.
Paulo chegou à cidade vindo de Filipos, depois de ser preso e libertado ali (). Pregou na sinagoga durante três sábados, expondo as Escrituras para mostrar que o Messias devia sofrer e ressuscitar (17:1-3). Convenceu alguns judeus, grande número de gregos tementes a Deus e não poucas mulheres de posição social (17:4). O próprio Paulo, na Primeira Carta aos Tessalonicenses, escrita pouco depois, lembra que trabalhou com as próprias mãos para não ser pesado a ninguém () e recorda o sofrimento da igreja nascente (2:14-16; 3:3-4). Ele não nomeia Jasão nessa carta.
O nome Jasão (Iason) era comum no mundo grego. Os judeus de fala grega o usavam por vezes como forma helenizada de Josué ou Jesus (hebraico Yeshua), de modo que o nome, por si só, não diz se Jasão era judeu ou gentio. O texto de Atos também não informa. A casa de Jasão deve ter sido, como em outras cidades, o espaço onde um pequeno grupo se reunia e hospedava os pregadores, mas Atos não descreve nem a casa nem a ocupação do anfitrião. Importa notar que, nesse ambiente, a hospitalidade a um pregador sob suspeita era também um risco legal e social.
A história
conta o episódio com economia de palavras. Os judeus que não creram, "tomados de inveja", reúnem "alguns homens maus dentre os vadios da praça" (17:5), formam um ajuntamento e alvoroçam a cidade. Vão à casa de Jasão para levar Paulo e Silas "ao povo". Como não os acham, arrastam Jasão e alguns irmãos diante dos politarcas. O texto não explica por que os missionários não estavam em casa, e esse é um dos silêncios da narrativa.
A acusação (17:6-7) tem duas partes. A primeira: "Esses que alvoroçaram o mundo chegaram também aqui", frase que mostra que a reputação de Paulo e Silas, como causadores de tumultos, os precedia. A segunda: Jasão os recebeu em casa, e "todos eles procedem contra os decretos de César, dizendo haver outro rei, Jesus". A frase é política, não religiosa. Em um império que desconfiava de qualquer culto ou grupo que parecesse ameaçar a ordem, a ideia de "outro rei" soava como sedição. Os estudiosos discutem a que "decretos" se refere. O historiador E. A. Judge sugeriu, em 1971, que poderiam ser editos contra a predição do fim de um imperador e contra a proclamação de novos reis sem autorização de Roma. Já Karl Donfried, em 1985, relacionou o episódio ao culto imperial e ao clima político da cidade. São hipóteses plausíveis, mas o texto não especifica os decretos.
A acusação ecoa a que fora feita contra Jesus diante de Pilatos (; ). Em , Paulo resume a pregação na cidade como uma conversão dos ídolos para "servir o Deus vivo e verdadeiro e esperar dos céus seu Filho". Pode ser que a linguagem de realeza e de "vinda" (parousia) de Cristo, em , usasse termos próximos aos da visita oficial de um imperador, o que dava aos acusadores um fundamento aparente. Essa leitura é discutida e não pode ser provada.
O desfecho é breve: os politarcas "tomaram satisfação de Jasão e dos demais" (17:9) e os soltaram. A expressão (em grego, to hikanon) refere-se a uma garantia ou fiança, e o texto não diz quanto foi, nem o que Jasão se comprometeu a fazer. Muitos leitores deduzem que a garantia incluía a promessa de que Paulo e Silas não voltariam a causar problemas, o que explicaria por que Paulo, em , diz que quis voltar muitas vezes, mas "Satanás nos barrou o caminho". Isso é uma inferência, não um dado do texto.
Quanto a , Paulo, escrevendo de Corinto, envia saudações de Timóteo, Lúcio, Jasão e Sosípatro, que chama de "meus parentes" (em grego, syngeneis, que pode significar parentes de sangue ou, em sentido amplo, compatriotas judeus). A identificação com o Jasão de Tessalônica é possível, porque Sosípatro de Bereia aparece em entre os companheiros de Paulo na Macedônia. Mas Jasão era nome comum, e nenhum texto liga os dois.
O que costumam dizer errado2
Dizem que:Jasão de Tessalônica é, com certeza, o mesmo Jasão parente de Paulo em Romanos 16:21.
Os textos não fazem essa ligação. Jasão era um nome comum, e não diz de onde era o Jasão ali citado. A identificação é possível e defendida por vários comentaristas, mas permanece hipótese.
Dizem que:Atos diz que Paulo e Silas se hospedaram na casa de Jasão durante toda a estadia em Tessalônica.
diz que a multidão procurou os missionários na casa de Jasão e que ele os havia "recebido". O texto não afirma quanto tempo ficaram lá nem se esse era o único lugar de hospedagem; indica ainda que Paulo recebeu ajuda repetida dos filipenses enquanto estava em Tessalônica.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura histórico-crítica
Vê na acusação o reflexo do ambiente político de Tessalônica, cidade que honrava Roma e o imperador, e entende que Lucas descreve com acerto o risco de uma pregação que proclamava um "rei" diferente do imperador, ainda que Paulo falasse de um reino não político.
Protestante evangélica
Destaca o contraste entre a fidelidade da igreja nascente e a hostilidade externa, e lê a atitude de Jasão como exemplo de hospitalidade cristã custosa, em sintonia com a exortação de .
Católica
Trata o episódio como parte do avanço da missão paulina na Europa, que Lucas apresenta sob a condução do Espírito (). A hospitalidade de Jasão é lida como uma das formas concretas de colaboração dos fiéis na evangelização.
O que fazer com isso
A hospitalidade de Jasão não foi um gesto abstrato: custou-lhe a casa invadida, a prisão momentânea e uma fiança. O texto não o apresenta como herói nem diz o que pensou. Registra apenas que acolheu os pregadores e carregou o ônus. A história lembra que a fé tem custos concretos para quem a abriga, e que o gesto simples de abrir a porta pode ter consequências públicas, sem que isso seja dito como regra para todos.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas5
- E. A. Judge. The Decrees of Caesar at Thessalonica (Reformed Theological Review 30), 1971.
- Karl P. Donfried. The Cults of Thessalonica and the Thessalonian Correspondence (New Testament Studies 31), 1985.
- F. F. Bruce. The Book of the Acts (New International Commentary on the New Testament), 1954.
- Joseph A. Fitzmyer. The Acts of the Apostles (Anchor Bible), 1998.
- Colin J. Hemer. The Book of Acts in the Setting of Hellenistic History, 1989.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O que eram os politarcas citados em Atos 17?
Eram os magistrados da cidade de Tessalônica. O termo aparece em e 17:8 e é confirmado por inscrições macedônicas, entre elas uma achada na própria Tessalônica.
Por que Jasão pagou fiança?
Os politarcas pediram uma garantia (em grego, to hikanon) a Jasão e aos demais antes de soltá-los (). O texto não explica o valor nem as condições. Ficou a ideia de que respondiam pela paz da cidade, mas isso é inferência.
Jasão de Tessalônica é o mesmo de Romanos 16:21?
Não se pode afirmar. Em , Paulo chama Jasão de "parente", mas Jasão era nome comum, e nenhum texto liga as duas passagens. A hipótese é possível, mas é apenas hipótese.