Estéfanas
Quem foi Estéfanas, as primícias da Acaia?
Ficha do personagem
Corinto e Éfeso, c. 54-56 d.C.
Aparece em
Relações
- batizado por Paulo
- companheiro de visita de Fortunato
- companheiro de visita de Acaico
Resposta curta
Estéfanas foi um dos primeiros cristãos de Corinto, na província romana da Acaia. Paulo diz ter batizado pessoalmente a sua casa (), e, no final da carta, descreve essa família como as "primícias da Acaia", que se dedicaram ao serviço dos santos (16:15).
Estéfanas esteve com Paulo em Éfeso, acompanhado de Fortunato e Acaico, cuja vinda alegrou o apóstolo porque supriu a ausência da igreja. Paulo pede que os coríntios se sujeitem a eles e reconheçam pessoas assim. O texto não diz que cargo Estéfanas tinha, e a expressão "casa" (oikos) alimenta um debate antigo sobre se os batismos de famílias inteiras incluíam crianças. Sobre a idade dos membros da casa, a fonte é silenciosa.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaA palavra "primícias" (aparche), usada para a casa de Estéfanas em , é a mesma que Paulo aplica a Cristo ressuscitado em 15:20 e 15:23: "primícias dos que dormem". Nas ofertas agrícolas, os primeiros frutos antecipavam a colheita completa. Assim, os primeiros convertidos da Acaia apontam para um fruto futuro maior, enquanto Cristo é o primeiro fruto da ressurreição, de que os demais participarão. O texto não identifica Estéfanas com Cristo nem faz tipologia. O elo é de linguagem e de lógica: tanto o primeiro convertido quanto o ressuscitado são sinais de uma colheita que ainda vem.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Estéfanas foi um dos primeiros cristãos de Corinto. Paulo lembra que batizou a casa dele e diz que sua família foi a primeira da região da Acaia a crer em Cristo. Eles se dedicaram a ajudar os outros cristãos. Estéfanas visitou Paulo em Éfeso junto com Fortunato e Acaico, e a visita animou o apóstolo. Paulo pede que a igreja de Corinto reconheça e respeite pessoas assim. O texto não diz se havia crianças em sua casa, e por isso a passagem é usada em debates sobre o batismo.
O mundo dele
Corinto era uma colônia romana refundada por Júlio César em 44 a.C., capital da província da Acaia e porto movimentado de comércio entre o Egeu e o Adriático. Paulo fundou ali a igreja por volta de 50-51 d.C., durante uma estadia de cerca de um ano e meio (). A Primeira Carta aos Coríntios foi escrita alguns anos depois, de Éfeso, provavelmente em 54-55, e responde a uma situação de divisões internas, conflitos jurídicos, abusos na ceia e dúvidas sobre ressurreição.
O mundo greco-romano via a casa (em grego, oikos; em latim, familia) como a unidade social básica. Ela incluía o chefe de família, esposa, filhos, parentes e também escravos, libertos e dependentes. Quando o chefe aceitava uma religião, muitas vezes a casa o seguia. O Novo Testamento registra outros casos de batismo de casas: Lídia (), o carcereiro de Filipos (16:33), Crispo (18:8) e Cornélio (10:44-48). Em Corinto, as igrejas se reuniam em casas de pessoas com recursos suficientes para recebê-las, como Gaio (), o que dá a Estéfanas e à sua casa um peso social relevante.
A menção de Estéfanas aparece em dois lugares. Em , Paulo diz que agradece a Deus por ter batizado poucas pessoas em Corinto, lembra Crispo e Gaio e, "também", a casa de Estéfanas, e acrescenta que "não sei se batizei algum outro". O contexto é a divisão entre partidos (de Paulo, de Apolo, de Cefas, de Cristo), e Paulo quer mostrar que não batizou para ganhar adeptos para si. Em 16:15-18, no fecho da carta, volta a Estéfanas para dizer que sua casa foi a primeira a se converter na Acaia e que ela se consagrou ao serviço aos santos. Acrescenta o pedido de que a igreja reconheça esse tipo de colaborador. O verbo traduzido por "consagraram-se" (etaxan heautous) indica uma decisão deliberada da própria casa, o que será importante para o debate sobre o batismo.
A história
Paulo escreve que a casa de Estéfanas é "as primícias da Acaia" (). A palavra grega aparche, "primícias", vem do vocabulário das ofertas agrícolas: os primeiros frutos de uma colheita, consagrados a Deus, com a expectativa de que viria o resto. Aplicada a pessoas, indica os primeiros convertidos de uma região. Há uma tensão aparente com , em que Dionísio, o areopagita, e uma mulher chamada Dâmaris, de Atenas (também na Acaia), creram antes da chegada de Paulo a Corinto. Os comentaristas propõem soluções: Atenas pode ter tido só convertidos isolados, sem formar um grupo organizado; ou "primícias" pode significar a primeira casa que se tornou igreja estável; ou pode ser que Paulo escreva de modo geral. O texto não resolve a questão, e é prudente deixar a dificuldade em aberto.
O mesmo trecho informa o que Estéfanas fez. Sua casa "se consagrou ao serviço (diakonia) dos santos". A palavra diakonia é a mesma usada para a coleta aos pobres de Jerusalém em 16:1-4, e talvez tenha esse sentido, ou pode se referir a um serviço geral de hospitalidade e ajuda. Paulo pede que os coríntios "se sujeitem" (hypotassesthe) a eles e "a todo aquele que coopera e trabalha". A chamada não é à submissão a um cargo formal, mas ao reconhecimento de um serviço que se tornou autoridade moral. Em 16:17-18, Paulo diz que se alegra com a "vinda" de Estéfanas, Fortunato e Acaico, porque eles "suprimiram a falta" dos coríntios e "reconfortaram" o seu espírito. A ideia comum entre comentaristas, como Gordon Fee e Anthony Thiselton, é que os três levaram a Paulo a carta dos coríntios mencionada em 7:1, ou um relatório, mas Paulo não afirma isso, e a ligação é plausível, não certa.
Fortunato (nome latino) e Acaico (de Acaia) são conhecidos apenas por essa passagem. O texto não diz se pertenciam à casa de Estéfanas, nem se eram livres ou escravos. Alguns manuscritos tardios acrescentam, na subscrição da carta, que ela foi levada por eles, mas essa nota não é parte do texto original.
O batismo da casa é o ponto de maior controvérsia. Os que defendem o batismo de crianças, como Joachim Jeremias, argumentam que "casa" incluía normalmente filhos pequenos e que a prática se estendia a todos. Os que defendem o batismo apenas de quem crê, como Kurt Aland, sustentam que o texto não menciona crianças e que a ação de Estéfanas em 16:15 aponta para decisão consciente. O próprio Novo Testamento é silencioso sobre a composição da casa. Ambas as posições são tradições vivas de leitura, e a exegese isolada de 1:16 não decide entre elas.
O que costumam dizer errado2
Dizem que:A Bíblia prova que a casa de Estéfanas incluía bebês, portanto o batismo de crianças é bíblico.
não diz quem fazia parte da casa nem a idade deles. O texto é silencioso. Além disso, em 16:15 a casa "se consagrou" ao serviço, o que indica decisão de pessoas adultas, ao menos em parte. A questão do batismo infantil precisa ser decidida por outros argumentos, e não por esta passagem.
Dizem que:Estéfanas foi o primeiro cristão da Grécia, antes de qualquer outro.
Paulo chama a casa de Estéfanas "as primícias da Acaia", mas registra convertidos em Atenas, na mesma província, como Dionísio e Dâmaris. A tensão é reconhecida pelos comentaristas, e a expressão não deve ser lida como prova de prioridade absoluta.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica e ortodoxa
Entendem o batismo de casas como indício de que a prática batismal incluía toda a família, e leem em continuidade com a tradição antiga do batismo de crianças, sem tratar o texto como prova isolada.
Batista e anabatista
Observam que mostra a casa agindo por escolha própria ao se dedicar ao serviço, e que o Novo Testamento nunca descreve explicitamente o batismo de uma criança. Concluem que o batismo é reservado a quem professa a fé.
Reformada
Vê no batismo de casas uma expressão do caráter familiar da aliança, em que os filhos dos fiéis são incluídos na comunidade, embora reconheça que o texto de Estéfanas, por si só, não afirma isso.
O que fazer com isso
Paulo reconhece em Estéfanas alguém cujo valor não vem de cargo nem de dons espetaculares, mas de serviço contínuo, e pede à igreja que aprenda a valorizar esse tipo de pessoa. O texto convida a perceber quem sustenta a vida de uma comunidade com trabalho discreto e a dar a esses colaboradores o reconhecimento devido, sem transformá-los em figuras de poder.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas5
- Gordon D. Fee. The First Epistle to the Corinthians (New International Commentary on the New Testament), 1987.
- Anthony C. Thiselton. The First Epistle to the Corinthians (New International Greek Testament Commentary), 2000.
- Joachim Jeremias. Infant Baptism in the First Four Centuries, 1960.
- Kurt Aland. Did the Early Church Baptize Infants?, 1963.
- Everett Ferguson. Baptism in the Early Church, 2009.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O que significa "primícias da Acaia"?
Primícias são os primeiros frutos de uma colheita, oferecidos a Deus. Aplicado a Estéfanas, o termo indica que a casa dele foi a primeira a se converter na província da Acaia, da qual Corinto era capital ().
Quem eram Fortunato e Acaico?
Eram companheiros de Estéfanas que visitaram Paulo em Éfeso (). Só aparecem aí. Fortunato tem nome latino, Acaico remete à Acaia. O texto não diz mais nada sobre eles.
Estéfanas foi batizado por Paulo?
Paulo diz que batizou a "casa de Estéfanas" (). O texto não nomeia Estéfanas à parte, mas é natural entender que ele estava incluído, como chefe da casa.