O endemoninhado de Gerasa
Quem foi o homem de Gerasa, chamado Legião, libertado por Jesus?
Ficha do personagem
Cerca de 28-29 d.C.; região de Gerasa/Gadara, margem leste do mar da Galileia
Relações
- libertado por Jesus
- caso paralelo (um em Marcos, dois em Mateus) ao de Bartimeu
- enviado a anunciar na Decápolis
Resposta curta
O endemoninhado de Gerasa é um homem sem nome que vivia entre os sepulcros, na margem leste do mar da Galileia, e que ninguém conseguia prender. Quando Jesus chegou, perguntou o seu nome, e a resposta foi “Legião, porque somos muitos”. Os espíritos pediram para entrar numa manada de porcos que pastava ali perto, Jesus permitiu, e os animais se lançaram ao mar. O povo da região pediu a Jesus que se retirasse. O homem, agora vestido e em perfeito juízo, quis ir com ele; Jesus o mandou para casa e ele proclamou por toda a Decápolis o que Jesus fizera. Marcos e Lucas falam de um homem, Mateus de dois, e os nomes Gerasa e Gadara variam nos manuscritos, o que o verbete explica.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO episódio mostra Jesus com autoridade sobre os espíritos imundos, que o reconhecem como Filho do Deus Altíssimo (), logo depois de ele acalmar a tempestade no lago. O homem é enviado a anunciar o que o “Senhor” fez por ele, e Marcos mostra que ele proclamou o que Jesus fizera (5:19-20). O texto não oferece uma tipologia explícita; o alcance cristológico está na autoridade de Jesus e no testemunho do homem entre os gentios.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
O endemoninhado de Gerasa era um homem sem nome que vivia entre túmulos, perto do mar da Galileia, e que ninguém conseguia amarrar. Quando Jesus o encontrou, os espíritos que o dominavam disseram se chamar Legião, porque eram muitos, e pediram para entrar em porcos que estavam por perto. Jesus deixou, e os porcos se jogaram no mar. O povo, com medo, pediu que Jesus fosse embora, mas o homem curado foi mandado para casa e contou na Decápolis o que Jesus fizera. Mateus fala de dois homens, Marcos e Lucas de um.
O mundo dele
O episódio ocorre do lado oriental do mar da Galileia, em território não judeu, depois que Jesus e os discípulos atravessaram o lago e escaparam de uma tempestade (). A região pertencia à Decápolis, um grupo de cidades de cultura grega. Que houvesse ali uma manada grande de porcos é sinal de ambiente gentio, já que o porco era animal impuro para os judeus (). Marcos fala em cerca de dois mil animais (5:13).
O local exato varia nos manuscritos e entre os evangelhos. e trazem “gerasenos” em boa parte da tradição, com variantes “gadarenos” e “gergesenos”; traz “gadarenos” em boa parte da tradição. Gerasa (a atual Jerash) ficava a cerca de cinquenta quilômetros do lago, longe demais para a cena. Gadara, a cerca de dez quilômetros ao sul do lago, estava mais perto, e seu território podia chegar à margem. Orígenes, no século III, defendeu a leitura “gergesenos” e a identificação com uma localidade chamada Gérgesa, junto ao lago; o sítio de Kursi, com encosta íngreme até a água, é frequentemente associado a ela. A explicação mais comum é que “região dos gerasenos” designe a área maior, sem que o evangelista tenha em mente a cidade distante.
O homem vivia entre os sepulcros, lugares impuros, e era mantido preso por correntes e grilhões que partia; gritava e se ferira com pedras (). O texto é uma descrição de sofrimento extremo e de isolamento: o homem estava excluído da convivência, vivia entre os mortos e era temido pelos vizinhos, que tentaram contê-lo muitas vezes sem sucesso. A palavra “Legião” (do latim legio) era o nome da maior unidade do exército romano, com milhares de soldados; o texto diz apenas que eram “muitos” e não fixa o número. Em acrescenta-se que havia muito tempo ele não vestia roupa nem morava em casa, o que reforça a imagem de alguém afastado da vida comum.
A história
A estrutura mais completa é a de . O homem corre ao encontro de Jesus, prostra-se diante dele e grita: “Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo?”. Jesus ordena ao espírito imundo que saia, e pergunta o seu nome. “Legião é o meu nome, porque somos muitos” (5:9). Os espíritos pedem que não os mandem sair da região e que os deixem entrar na manada de porcos que pastava na encosta. Jesus permite; a manada, cerca de dois mil animais, se precipita no mar e se afoga (5:13).
A reação do povo é de medo. Os que cuidavam dos porcos contam o que aconteceu, e os moradores veem o homem sentado, vestido e em juízo, “e tiveram medo” (5:15). Pedem a Jesus que se retire do território. O homem, curado, pede para ficar com ele, mas Jesus não o permite e diz: “Vai para casa, para os teus, e anuncia-lhes quanto o Senhor te fez e como teve misericórdia de ti” (5:19). Marcos conclui que ele foi anunciar na Decápolis o que Jesus fizera por ele, e todos se admiravam (5:20).
Há três diferenças entre os relatos. A primeira é o número de homens. menciona dois endemoninhados; Marcos e Lucas falam de um, e só ele dialoga com Jesus. Mateus também fala em dois em outros relatos, como os cegos de Jericó (, em que fala apenas de Bartimeu). Os comentaristas costumam explicar que Marcos e Lucas se concentram no mais proeminente, e Mateus registra os dois; outros veem um traço editorial de Mateus. A segunda diferença é o nome do lugar, já tratada. A terceira é o final: em o homem proclama “por toda a cidade”, e em Marcos, na Decápolis; Mateus não menciona essa proclamação.
O nome “Legião” levanta interpretações. A leitura tradicional entende apenas que o homem estava dominado por muitos espíritos. Algumas leituras sociopolíticas modernas veem na imagem uma alusão à ocupação romana, seja pela escolha do termo militar, seja pelo afogamento da manada no mar; outros estudiosos consideram essa leitura mais sugestiva do que demonstrada. O texto não relaciona Legião com Roma de forma explícita.
Convém notar também que os espíritos reconhecem Jesus antes de todos: chamam-no de Filho do Deus Altíssimo e pedem que não os atormente (). Esse reconhecimento é comum em Marcos, mas não é apresentado como fé; o que o texto mostra é o contraste entre o saber dos espíritos e a resposta do homem curado, que anuncia o que recebeu.
Um último ponto: o pedido do povo para que Jesus se vá é uma resposta humana compreensível a um prejuízo econômico e a um poder desconcertante. Jesus atende e se retira, deixando o homem curado como testemunha.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Gerasa, a atual Jerash, ficava à beira do lago, onde os porcos se afogaram.
Gerasa ficava a cerca de cinquenta quilômetros do mar da Galileia. O nome nos evangelhos provavelmente designa uma região mais ampla, e outras tradições manuscritas trazem Gadara ou Gergesa. A cena, junto à encosta do lago, pede um lugar mais próximo da água.
Dizem que:Legião significa que o homem tinha exatamente seis mil demônios.
Marcos explica o nome com “porque somos muitos” (5:9), sem fixar um número. Uma legião romana tinha milhares de soldados, mas o texto não faz essa conta, e a cifra de seis mil não está nos evangelhos. A única quantia citada é a da manada, de cerca de dois mil porcos.
Dizem que:Mateus erra ao dizer que eram dois homens, pois Marcos e Lucas dizem que era um.
Marcos e Lucas não afirmam que havia só um, mas concentram a narrativa em um homem que fala. A diferença pode refletir ênfases diferentes, e Mateus faz o mesmo em outras passagens, como os dois cegos de .
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Patrística e católica
Os Padres leram o episódio como vitória de Cristo sobre os poderes do mal e como sinal da abertura do evangelho aos gentios, com o homem curado tornando-se o primeiro missionário entre eles. A discussão sobre o nome do lugar é feita em Orígenes, que propôs Gérgesa.
Reformada
Destaca a soberania de Cristo, a quem os demônios pedem licença, e o contraste entre o povo que o rejeita por medo e o homem que passa a segui-lo à sua maneira. Muitos comentaristas protestantes também ressaltam que o homem recebe uma vocação missionária em vez de entrar no grupo dos discípulos.
Leitura sociopolítica contemporânea
Autores como Ched Myers e Richard Horsley propõem que “Legião” alude ao domínio romano e que o afogamento da manada no mar evoca a derrubada do poder imperial. Críticos dizem que o texto não faz a ligação de modo explícito e que a leitura excede o que o relato afirma.
O que fazer com isso
O homem de Gerasa passou de uma vida que ninguém conseguia conter para uma vida em juízo, com um novo encargo: contar o que lhe foi feito. A cena sugere que o testemunho nasce do que a pessoa recebeu, e não de um papel de destaque. Também chama atenção a reação dos moradores, que preferem manter a ordem conhecida a conviver com a mudança. Quem lê hoje pode se perguntar o que custa, e a quem custa, uma transformação que os outros preferiam não ver.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- Joel Marcus. Mark 1–8 (Anchor Bible 27), 2000.
- Ched Myers. Binding the Strong Man: A Political Reading of Mark's Story of Jesus, 1988.
- Richard A. Horsley. Hearing the Whole Story: The Politics of Plot in Mark's Gospel, 2001.
- Orígenes. Comentário ao Evangelho de João.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Qual era o nome do endemoninhado de Gerasa?
O texto não dá o nome do homem. O que se chama de Legião é o nome dado pelos espíritos que o dominavam ().
Por que Mateus fala em dois homens e Marcos em um?
Os textos não explicam. Costuma-se dizer que Marcos e Lucas contam só o que fala com Jesus, e Mateus menciona os dois, como também faz com os cegos de Jericó.
Gerasa ou Gadara: onde foi o episódio?
Os manuscritos variam entre Gerasa, Gadara e Gergesa. Gerasa ficava longe do lago, e Gadara e Gérgesa são mais próximas. O local exato é debatido.
O que o homem fez depois de ser curado?
Jesus o mandou para casa, e ele proclamou na Decápolis o que Jesus fizera por ele (). Em , a proclamação foi por toda a cidade.