Elimas, o mágico
Quem foi Elimas, o mágico de Chipre que se opôs a Paulo?
Ficha do personagem
c. 46-47 d.C., Pafos, Chipre
Aparece em
Relações
- opositor de Paulo
- opositor de Barnabé
- conselheiro do procônsul Sérgio Paulo
Resposta curta
Elimas, também chamado Barjesus, era um judeu dedicado à magia e apresentado por Lucas como falso profeta, que vivia junto ao procônsul romano Sérgio Paulo, em Pafos, na ilha de Chipre. Quando Paulo e Barnabé chegaram à cidade, na primeira viagem missionária, o procônsul pediu para ouvir a palavra de Deus, e Elimas passou a se opor a eles, procurando afastá-lo da fé.
Paulo, cheio do Espírito Santo, o repreendeu com palavras duras e anunciou que a mão do Senhor estava sobre ele: ficaria cego, sem ver o sol por algum tempo. A cegueira veio de imediato, e Elimas procurava quem o guiasse pela mão. O procônsul, vendo o que acontecera, creu, admirado da doutrina do Senhor. O texto não diz o que foi feito de Elimas depois.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaElimas não representa Cristo de nenhuma forma, e o texto não pede uma leitura tipológica. Ainda assim, a cena gira em torno de Jesus: o que está em disputa são os caminhos do Senhor, e o procônsul crê na doutrina do Senhor, não no poder do apóstolo. O jogo de nomes de reforça o ponto, pois Barjesus, filho de Jesus no nome, é chamado filho do diabo por se opor à mensagem de Jesus. A presença de Cristo é, portanto, indireta, como centro da mensagem que Elimas tentava bloquear.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Elimas, também chamado Barjesus, era um judeu que praticava magia e vivia na corte do governador romano de Chipre. Quando Paulo e Barnabé foram ensinar ao governador, Elimas tentou impedir que ele acreditasse. Paulo o repreendeu e disse que ele ficaria cego por algum tempo, e foi o que aconteceu. Vendo isso, o governador, chamado Sérgio Paulo, passou a crer, admirado com o ensino sobre o Senhor. A Bíblia não conta o que aconteceu com Elimas depois.
O mundo dele
Pafos, na costa sudoeste de Chipre, era a capital da província romana da ilha e sede do procônsul. Chipre era a terra de Barnabé (), e foi para lá que ele e Paulo, enviados pela igreja de Antioquia, navegaram a partir de Selêucia, levando João Marcos como auxiliar (). Antes de chegar a Pafos, pregaram nas sinagogas de Salamina, o que indica uma presença judaica relevante na ilha. A data costuma ser fixada por volta de 46-47 d.C., como estimativa dos estudiosos, e não por indicação do texto.
O cenário é o mundo helenístico-romano do século I, em que a magia, a astrologia e a consulta a adivinhos eram comuns, inclusive entre pessoas cultas e autoridades. Não era raro que um governante mantivesse um conselheiro desse tipo por perto. A palavra grega magos designava originalmente os sábios e sacerdotes persas, mas, no tempo de Lucas, já servia para praticantes de artes ocultas em geral, quase sempre com tom negativo. A Lei de Moisés proibia a adivinhação e a feitiçaria (), de modo que um judeu mago contrariava a própria Escritura, e Lucas o chama de pseudoprofeta, alguém que falava em nome de Deus sem ter sido enviado por ele.
O procônsul Sérgio Paulo é descrito como homem inteligente, ou prudente, que chamou Barnabé e Saulo desejando ouvir a palavra de Deus (). Fora dos textos bíblicos, a data exata do governo dele em Chipre não é conhecida com segurança, e as tentativas de ligá-lo a inscrições antigas são discutidas entre os historiadores.
É neste episódio que Lucas passa a chamar Saulo de Paulo (), sem explicar a mudança, e a partir do versículo 13 a narrativa fala de Paulo e seus companheiros. A cena de Pafos funciona, assim, como o primeiro grande encontro da missão com a elite política do mundo romano, e Elimas ocupa nela o papel de obstáculo.
A história
Lucas dá ao personagem dois nomes e deixa claro que não têm o mesmo sentido. Barjesus é aramaico e significa filho de Jesus, isto é, filho de Josué, nome comum entre os judeus do século I, sem relação com Jesus de Nazaré. Elimas é introduzido com uma observação curiosa: assim se traduz o seu nome, e o texto acrescenta o termo grego mágico (). Como Elimas não é uma tradução de Barjesus, a explicação mais simples é que se trata de um segundo nome ou título ligado à atividade dele. A origem da palavra é incerta: há hipóteses que a relacionam com raízes semíticas de sentido próximo a sábio, mas nenhuma é consensual.
O confronto é narrado em poucas linhas. Elimas resistia e procurava desviar o procônsul da fé. Paulo, cheio do Espírito Santo, fixou os olhos nele e disse: ó filho do diabo, cheio de todo engano e de toda malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás de perverter os retos caminhos do Senhor? (). Há um jogo deliberado com o nome: quem se chamava filho de Jesus é chamado filho do diabo. Em seguida vem o anúncio de que a mão do Senhor estava sobre ele. Caiu sobre Elimas névoa e trevas, e ele procurava quem o guiasse pela mão.
Dois detalhes merecem atenção. O primeiro é a expressão por algum tempo: a cegueira é descrita como limitada, o que sugere um sinal de juízo com a porta aberta ao arrependimento, não uma condenação definitiva. O segundo é o eco com o próprio Paulo, que em também ficou cego e foi levado pela mão a Damasco. Os dois relatos usam termos gregos da mesma família para guiar pela mão, e o contraste é nítido: o antigo perseguidor foi conduzido ao evangelho pela cegueira, ao passo que Elimas a recebe enquanto o combate.
O que o texto não diz é tão importante quanto o que diz. Lucas não informa se Elimas se arrependeu, se recuperou a visão ou o que lhe sucedeu. O historiador Flávio Josefo menciona um mago judeu nascido em Chipre, chamado Atomos, que ajudou o governador Félix a conquistar Drusila (Antiguidades 20.142), e alguns estudiosos já propuseram identificá-lo com Elimas, mas os nomes diferem e a hipótese continua especulativa. A reação que Lucas destaca é a do procônsul: vendo o que acontecera, creu, admirado da doutrina do Senhor (). A atenção do relato recai sobre a palavra anunciada, não sobre o castigo.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Elimas e Barjesus eram duas pessoas diferentes, um mágico e um falso profeta.
apresenta um único homem, judeu, mágico e falso profeta, de nome Barjesus, e o versículo 8 diz que Elimas é o nome dele em outra forma: assim se traduz o seu nome. Trata-se de uma só pessoa com dois nomes, ou um nome e um título.
Dizem que:Paulo amaldiçoou Elimas para sempre, e ele ficou cego pelo resto da vida.
O texto diz que ele ficaria sem ver o sol por algum tempo (), expressão que indica duração limitada. A Bíblia não conta se ele recuperou a vista, nem se se arrependeu; qualquer afirmação sobre o fim dele vai além do que está escrito.
Dizem que:Elimas se converteu depois de ficar cego, como aconteceu com Paulo em Damasco.
A comparação é tentadora, mas Lucas não registra conversão de Elimas. Quem crê no episódio é o procônsul Sérgio Paulo (), e a narrativa da cegueira de Paulo em tem outro desfecho, com Ananias e o batismo.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Patrística
Comentaristas antigos, entre eles João Crisóstomo em suas homilias sobre Atos, tendem a ler a cegueira menos como vingança e mais como sinal dado para o bem do procônsul, de modo que a fé dele nasça de um fato visível; a punição de Elimas serve ao propósito de abrir caminho para a palavra.
Reformada
Calvino, no comentário a Atos, entende o juízo como exercício excepcional de autoridade apostólica, guiado pelo Espírito, e não como modelo de conduta comum, pois os cristãos em geral não recebem a missão de invocar castigos sobre os adversários.
Exegese histórico-crítica
Estudiosos como Joseph Fitzmyer e Craig Keener observam que o relato segue um padrão de Lucas, o confronto entre o apóstolo e um mago (compare Simão em ), e que o tema é a superioridade da palavra de Deus sobre as práticas ocultas, sem exigir que se conheça o destino do mago.
O que fazer com isso
O episódio lembra que a oposição ao evangelho nem sempre vem de fora: Elimas era judeu, conhecia a Escritura e falava em nome de Deus. A narrativa convida a examinar com cuidado quem fala de Deus perto de quem busca ouvir, sem transformar a história em licença para chamar de falso qualquer adversário. O texto também mostra que o centro da cena não é o castigo, e sim a fé do procônsul que, admirado da doutrina, creu.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas5
- F. F. Bruce. The Acts of the Apostles: The Greek Text with Introduction and Commentary, 1951.
- Joseph A. Fitzmyer. The Acts of the Apostles (Anchor Bible), 1998.
- Craig S. Keener. Acts: An Exegetical Commentary, vol. 2, 2013.
- João Calvino. Commentary upon the Acts of the Apostles.
- Flávio Josefo. Antiguidades Judaicas.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que Elimas tinha dois nomes?
Lucas o apresenta como Barjesus, nome aramaico que significa filho de Jesus (Josué), e diz que Elimas é o nome dele traduzido como mágico. Como Elimas não traduz Barjesus, o mais provável é que fosse um segundo nome ou título ligado à sua atividade. A origem exata da palavra é incerta.
A cegueira de Elimas foi permanente?
O texto não afirma isso. Paulo anuncia que ele ficaria cego, sem ver o sol por algum tempo (), e Lucas não diz mais nada sobre o assunto. O que se sabe é que o episódio terminou com a fé do procônsul.
Elimas era judeu ou pagão?
Judeu. o descreve expressamente como judeu, falso profeta, o que torna o caso mais grave do ponto de vista bíblico, porque a Lei proibia a adivinhação e a feitiçaria.
Foi nesse episódio que Saulo passou a se chamar Paulo?
diz que Saulo, também chamado Paulo, enfrentou Elimas, e a partir daí Lucas usa só o nome Paulo. O texto não explica a mudança. Muitos estudiosos entendem Saulo como nome judaico e Paulo como nome romano, que ele provavelmente já tinha desde antes.