
"Nele vivemos, nos movemos e existimos": Paulo citou poetas pagãos em Atos 17:28?
Paulo realmente citou poetas gregos na Bíblia, e isso quer dizer que ele aprovava a religião deles?
Porque nele vivemos, e nos movemos, e somos; assim como também alguns de vossos poetas disseram; porque também nós somos descendência dele.
Resposta curta
Em , diante dos filósofos de Atenas, Paulo diz que em Deus "vivemos, nos movemos e existimos" e acrescenta que "alguns dos vossos poetas" disseram que somos "geração dele". A segunda frase vem de um poeta grego conhecido, Arato, e a primeira costuma ser associada a Epimênides de Creta, embora essa ligação seja menos segura. A pergunta real é por que um apóstolo que alerta contra a sabedoria do mundo cita autores pagãos. A resposta está no uso: Paulo aproveita uma verdade parcial que os atenienses já reconheciam, a dependência humana de um Deus criador, e a usa para desmontar os ídolos, anunciar o arrependimento e apontar para a ressurreição de Jesus. Ele não aprova o conjunto da religião grega nem o Zeus dos poemas.
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaCristo não aparece no versículo citado, mas o discurso termina com ele: Deus julgará o mundo por meio de um homem que designou, e deu a todos a prova disso ao ressuscitá-lo dentre os mortos. A pregação a pagãos parte da criação e desemboca em Jesus.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Quando falou aos atenienses, Paulo usou uma frase de poetas gregos que eles conheciam: somos filhos de Deus. Ele não aprovou a religião deles nem o deus Zeus dos poemas. Usou o verso como ponte para dizer que o Deus verdadeiro fez todos nós, que ele não é uma estátua e que Jesus ressuscitou. A citação abre a conversa, mas o centro da mensagem continua sendo o arrependimento e a ressurreição.
Contexto histórico
Paulo chega a Atenas na segunda viagem missionária, depois de deixar Bereia, e espera ali por Silas e Timóteo. Lucas conta que o espírito de Paulo se irritava ao ver a cidade cheia de ídolos. Ele discute na sinagoga e na ágora, a praça pública, e encontra filósofos epicureus e estoicos. Alguns o chamam de tagarela, outros dizem que ele parece pregador de divindades estrangeiras, porque anuncia Jesus e a ressurreição. Conduzem-no então ao Areópago, a colina e o conselho onde se examinavam novas ideias, e pedem que explique a doutrina. O discurso de é o modelo que o Novo Testamento oferece de pregação a uma plateia sem formação bíblica. Paulo começa notando que eles são muito religiosos e cita um altar com a inscrição "Ao deus desconhecido". Declara então que o Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas nem precisa de serviço humano, pois é ele quem dá a todos vida, respiração e todas as coisas. De um só fez toda a raça humana, determinou tempos e limites de moradia e quer que o procurem. É nesse ponto, no versículo 28, que surgem as frases citadas. Em seguida, no versículo 29, ele tira a consequência contra a idolatria: se somos geração de Deus, a divindade não pode ser semelhante a ouro, prata ou pedra esculpida pela arte humana. Os versículos 30 e 31 falam de arrependimento, do juízo por meio de um homem designado e da ressurreição como prova. Parte da plateia zomba, parte quer ouvir de novo, e alguns creem, entre eles Dionísio, membro do Areópago, e uma mulher chamada Dâmaris. Vale lembrar que Atenas era então um centro universitário e religioso, com templos, altares e estátuas por toda parte, e que epicureus e estoicos tinham visões muito diferentes sobre os deuses, o destino e a vida após a morte. Paulo precisava falar com ambos, e o versículo 28 serve a esse propósito.
Aprofundamento
A frase "nele vivemos, e nos movemos, e existimos" soa como teologia cristã pura, e muitos a repetem sem saber que Paulo a apresenta dentro de uma citação. No versículo 28 há duas camadas. A primeira, "nele vivemos, nos movemos e existimos", é introduzida como fala de Paulo, mas a tradição desde a Antiguidade a associa ao poeta cretense Epimênides, por analogia com , onde Paulo cita um "profeta" cretense. Essa atribuição é plausível, mas não é certa, e convém dizê-lo. A segunda camada é explícita: "como alguns dos vossos poetas disseram: porque dele também somos geração". A expressão "somos geração dele" aparece quase idêntica no poema Fenômenos, de Arato, poeta da Cilícia, terra de Paulo, e em fórmula parecida no Hino a Zeus, de Cleantes. Nos dois casos o sujeito original era Zeus. Isso gera a dificuldade aparente: o apóstolo que escreve que a sabedoria do mundo é loucura diante de Deus () e que alerta contra a filosofia vazia () está citando versos pagãos. Há também precedentes: ele cita o poeta Menandro em e Epimênides em . O mais importante é observar o que Paulo faz com a citação. Primeiro, ele a retira de seu contexto de origem. O Deus de quem somos geração não é Zeus, e sim o Criador que acabou de descrever. Segundo, usa-a contra os ídolos: se os seres humanos descendem do Deus vivo, imaginar que ele é de ouro ou pedra é absurdo. Terceiro, a citação ocupa uma função pontual. O discurso não se sustenta nela; sustenta-se nas Escrituras, que Paulo conhece e das quais lança mão sem citá-las literalmente, já que seus ouvintes não as reconheceriam. A expressão "geração" (genos) aponta para o que Paulo diz a todos os seres humanos como criaturas de Deus, e não para filiação por adoção, que é o que o Novo Testamento reserva aos que creem (; ). Convém ainda observar o estilo do discurso: Paulo não começa pelas Escrituras de Israel, que a plateia desconhecia, mas pelo que ela dizia acreditar, e só no fim chega à ressurreição, o ponto que provocou a zombaria. Isso mostra que a ponte cultural nunca substituiu a mensagem, apenas a preparou. Por fim, Paulo não afirma que os poetas conheciam o Deus verdadeiro de modo salvador. Ele ainda precisa chamar ao arrependimento (v. 30), o que mostra que a verdade parcial reconhecida não basta.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Paulo aprovou a poesia e a religião gregas, pois citou poetas pagãos como fonte de verdade.
Paulo cita um verso pontual e o reinterpreta contra a idolatria, logo em seguida (v. 29). Ele chama ao arrependimento (v. 30) e não faz de Zeus ou da filosofia grega uma via de salvação.
Dizem que:A frase "nele vivemos, nos movemos e existimos" ensina que Deus é tudo e tudo é Deus (panteísmo).
O discurso inteiro afirma um Deus distinto da criação, que fez o mundo e dá vida e fôlego a todos. A preposição "nele" expressa dependência das criaturas em relação ao Criador, não identidade entre eles.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Ponto de contato com a cultura (leitura de F. F. Bruce e John Stott)
Paulo reconhece que os gregos tinham alguma percepção da verdade sobre Deus e a usa como ponto de partida, de acordo com a ideia de revelação geral em e 2:14-15. A pregação respeita a cultura sem aceitar sua religião.
Apropriação crítica (leitura de tradição reformada)
Paulo toma versos pagãos e os subordina à revelação bíblica. Os poetas diziam Zeus; Paulo diz o Criador. A citação serve de testemunho contra os próprios atenienses, que não vivem de acordo com o que seus poetas diziam, e não como autoridade.
No original3 termos
γένοςgenosG1085
Raça, descendência, linhagem; aqui, a origem comum do ser humano em Deus como Criador.
κινούμεθαkinoumetha
Nos movemos, somos movidos; do verbo kineo, indica a atividade da vida humana sustentada por Deus.
Ἄρειος ΠάγοςAreios Pagos
Colina de Ares, em Atenas, e também o conselho que ali se reunia para julgar questões de religião e ensino.
O que fazer com isso
Paulo mostra que é possível falar com quem não conhece a Bíblia a partir do que essa pessoa já reconhece, sem concordar com tudo o que ela crê. Citar um verso, um filme ou uma observação comum pode abrir a conversa, desde que no fim a pessoa seja levada a Cristo e ao arrependimento, e não apenas ao elogio de uma frase bonita.
Passagens relacionadas5
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas4 obras
- F. F. Bruce. The Book of the Acts (NICNT), 1988.
- John R. W. Stott. The Message of Acts (Bible Speaks Today), 1990.
- Craig S. Keener. Acts: An Exegetical Commentary, 2014.
- Darrell L. Bock. Acts (Baker Exegetical Commentary on the New Testament), 2007.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
De qual poeta é a frase "somos geração dele"?
A expressão é quase idêntica a um verso do poema Fenômenos, de Arato, e há fórmula semelhante no Hino a Zeus, de Cleantes. Paulo diz "alguns dos vossos poetas", no plural, o que combina com mais de uma fonte.
Quem escreveu "nele vivemos, nos movemos e existimos"?
Paulo apresenta a frase no discurso. Desde a Antiguidade ela é associada ao poeta cretense Epimênides, mas essa ligação é tradicional e não pode ser comprovada com certeza.
Citar autores não cristãos é correto para um cristão?
O exemplo de Paulo mostra que é possível, quando a citação é usada com critério, reconhecida como verdade parcial e subordinada ao evangelho, sem tornar o autor citado uma autoridade espiritual.