“A Palavra era Deus” ou “era um deus”? O que diz João 1:1
A discussão gira em torno de uma palavra sem artigo. No grego, a última frase é *kai theos ēn ho logos* — e "theos", ali, não vem com o artigo "o", enquanto na frase anterior vem.
5 passagens difíceis neste capítulo, explicadas com contexto histórico, línguas originais e as leituras cristãs que disputam o sentido.
A discussão gira em torno de uma palavra sem artigo. No grego, a última frase é *kai theos ēn ho logos* — e "theos", ali, não vem com o artigo "o", enquanto na frase anterior vem.
A palavra grega por trás deste versículo é λόγος, logos, e ela chegava aos ouvidos de um leitor do primeiro século carregada de um peso que nenhuma palavra portuguesa isolada consegue reproduzir sozinha.
João 1:18 fecha o prólogo do quarto evangelho com uma frase que os manuscritos gregos antigos não transmitem da mesma forma. Enquanto a tradição bizantina, seguida pela Almeida e pela King James, registra "o unigênito Filho", os papiros mais antigos conhecidos e os grandes códices Sinaítico e Vaticano trazem "Deus unigênito". A diferença é de uma única palavra grega, mas ela toca diretamente como o texto descreve a relação entre Jesus e o Pai.
Ao ver Jesus se aproximando, João Batista aponta para ele: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo." A frase é curta, mas reúne imagens do Antigo Testamento: o cordeiro pascal sacrificado no Egito, cujo sangue livrou o povo do juízo, e o servo sofredor de Isaías 53, comparado a um cordeiro levado ao matadouro que carrega a culpa alheia. O evangelho não diz qual delas João tinha em mente, e essa ambiguidade é parte do que a torna tão densa.
Quando Filipe conta que encontrou o Messias, "Jesus de Nazaré", Natanael reage com ceticismo: "Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?" A pergunta revela um preconceito regional real entre cidades vizinhas da Galileia, onde Nazaré era um povoado pequeno e sem prestígio, sem menção em textos importantes do Antigo Testamento nem qualquer tradição messiânica associada a ela. O que muda instantaneamente a atitude de Natanael não é um argumento teológico, mas uma frase enigmática de Jesus, "vi-te debaixo da figueira", detalhe que parece carregar significado maior do que a simples observação física, levando Natanael a uma confissão messiânica imediata e surpreendente diante dos demais presentes naquele encontro inicial.