Pele (Maravilha)
O que significa Pele na Bíblia?
A palavra no original
פֶּלֶא
pele (pele') · Strong H6382
Maravilha, coisa extraordinária que supera a capacidade humana de compreender ou realizar.
Tudo isto ao mesmo tempo
- maravilha e coisa extraordinária
- obra poderosa de Deus na história
- conhecimento grande demais para o ser humano
- conselho ou plano divino
- nome ou identidade inacessível ao entendimento
Resposta curta
Pele (פֶּלֶא) é um substantivo hebraico que significa maravilha, algo extraordinário que ultrapassa a capacidade humana de explicar ou de realizar. Vem da raiz pala, ligada a tudo o que é "separado" do comum pelo seu caráter admirável. O termo aparece no famoso título de , "Maravilhoso Conselheiro" (pele yoetz), e tem parentes muito próximos em Salmo 139:6 e , onde o anjo do Senhor diz que o seu nome é "maravilhoso". Em todos esses textos a palavra descreve aquilo que só pertence à esfera de Deus. Entender o sentido de pele ajuda a perceber que o título messiânico de Isaías não é um elogio genérico, e sim uma afirmação de que o governo prometido supera o entendimento humano.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaanuncia um rei da linhagem de Davi cujo governo não terá fim, e o primeiro título é justamente "Maravilhoso Conselheiro". O Novo Testamento não cita o versículo 6 diretamente, mas ecoa o versículo 7 ao anunciar que o filho de Maria receberá o trono de Davi e reinará para sempre. A tradição cristã lê o título pele yoetz como descrição do Messias, enquanto a tradição judaica o lê de outra forma. Em , parte da tradição cristã vê no anjo do Senhor uma manifestação anterior de Cristo, leitura antiga mas não unânime e não afirmada pelo Novo Testamento.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Pele é a palavra hebraica para "maravilha", algo tão extraordinário que a pessoa não consegue explicar nem imitar. A Bíblia usa essa ideia para falar das obras de Deus, como a libertação do Egito, e do conhecimento de Deus, grande demais para ser medido. Ela aparece em , no título "Maravilhoso Conselheiro", e palavras da mesma família estão em Salmo 139:6 e , quando o anjo do Senhor diz que o seu nome é "maravilhoso". Em todos esses textos, a palavra aponta para o que vai além da compreensão humana.
De onde vem a palavra
O substantivo pele não é muito frequente no hebraico bíblico, mas pertence a uma família de palavras bem espalhada: a raiz verbal pala (פלא) e seus derivados, como o verbo nifal nifla ("ser maravilhoso") e o substantivo plural niflaot ("obras maravilhosas"). Em conjunto, esses termos descrevem o que causa espanto porque excede o curso normal das coisas. O Antigo Testamento usa essa linguagem sobretudo para ações de Deus na história de Israel, em especial o êxodo. No cântico do mar, Moisés pergunta quem é como o Senhor, "fazendo maravilhas" (), e os salmos retomam o tema ao lembrar que Deus é o "Deus que faz maravilhas" (Salmo 77:14) e ao perguntar se ele faria maravilhas pelos mortos (Salmo 88:10).
É importante notar que a ideia não é apenas de poder, mas de incompreensibilidade. A palavra descreve o que o ser humano olha e não consegue explicar, nem imitar, nem prever. Por isso ela aparece tanto em contextos de milagre quanto em contextos de conhecimento. Em , o profeta louva a Deus porque fez "maravilhas", planos antigos executados com fidelidade. Em , o mesmo vocabulário descreve a ação surpreendente de Deus que desfaz a sabedoria dos sábios.
O contexto de também importa. O profeta escreve num tempo de ameaça assíria sobre Judá, e o oráculo promete um filho que governará sobre o trono de Davi. Os títulos do versículo 6 são, em hebraico, uma sequência de expressões curtas e densas. A primeira delas, pele yoetz, une dois conceitos próprios da corte: o conselheiro era figura central na administração de um reino antigo, e a sabedoria de um rei dependia em parte de seus conselheiros. Dizer que este conselheiro é "maravilha" significa que o seu discernimento não se mede pelos padrões humanos de sabedoria política. Esse pano de fundo dá peso ao termo e impede que se leia a expressão como simples elogio ao talento de um governante.
Aprofundamento
O substantivo פֶּלֶא (pele, Strong H6382) vem da raiz פלא (pala, H6381), cujo sentido básico, segundo léxicos como o Brown-Driver-Briggs (BDB) e o Koehler-Baumgartner (HALOT), é "ser extraordinário, ser difícil demais". A etimologia mais remota da raiz é discutida, e não vale apresentar uma derivação específica como fato estabelecido, já que a fonte primária não a explica. O que se pode afirmar com segurança é o uso: a família lexical descreve aquilo que é grande demais, difícil demais ou admirável demais para o ser humano.
Um ponto de precisão filológica: nem todos os textos citados com frequência trazem exatamente a forma pele. Em a forma é pele, em construção com yoetz. Já em Salmo 139:6 aparece a forma aparentada pilʼiyah ("maravilhoso demais para mim é este conhecimento"), e em a forma peliʼi ("é maravilhoso"), quando o anjo do Senhor responde a Manoá que o seu nome é "maravilhoso". Trata-se da mesma raiz e do mesmo campo de sentido, e o leitor faz bem em enxergar a conexão, desde que saiba que são variantes e não a mesma palavra idêntica.
Há também um debate real sobre como ler . A expressão pele yoetz pode ser entendida como dois títulos separados ("Maravilha, Conselheiro") ou como um único título composto ("Maravilhoso Conselheiro", ou "Conselheiro de maravilhas"). A pontuação do texto massorético sugere uma sequência de nomes, mas a tradução varia entre as versões. As traduções em português, como a ARA e a NVI, optam por "Maravilhoso Conselheiro". A Septuaginta, por sua vez, traz uma leitura bem diferente do versículo, falando em "mensageiro do grande conselho", o que mostra que a tradição textual antiga já enfrentava dificuldade para verter o título.
Outra questão é a identidade do sujeito. A tradição rabínica medieval, por exemplo em Rashi, entende que os nomes descrevem Deus, que daria ao menino o nome de "Príncipe da paz", e não o menino. A tradição cristã lê os títulos como designação do rei prometido. O texto hebraico, por si só, não resolve a questão, e honestidade exige reconhecer que ambas as leituras têm base gramatical. Em , porém, o contexto é mais claro: o anjo recusa dar seu nome porque ele é pele, algo inacessível ao entendimento de Manoá, o que reforça a ideia de que a palavra pertence ao mundo divino. Fica registrado, portanto, que o peso do termo depende do contexto de cada passagem, e não de uma definição única.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Em Salmo 139:6 e Juízes 13:18 aparece exatamente a mesma palavra pele de Isaías 9:6.
Os três textos usam palavras da mesma raiz (pala), mas com formas diferentes: pele em , pilʼiyah em Salmo 139:6 e peliʼi em . O campo de sentido é o mesmo, porém não se trata da mesma forma gramatical.
Dizem que:"Maravilhoso" em Isaías 9:6 é só um elogio genérico à inteligência do rei prometido.
No restante do Antigo Testamento a família de pele descreve o que supera o entendimento humano e, na maioria dos casos, a ação própria de Deus. O título não é um elogio comum, e sim uma afirmação sobre o caráter extraordinário do conselho do governante.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica medieval (Rashi e outros)
Entende os nomes de como descrição de Deus, que dá ao menino o nome de "Príncipe da paz". Em muitas leituras, o menino é o rei Ezequias, e os títulos exaltam o Deus que opera maravilhas, não o rei.
Protestante evangélica
Lê pele yoetz como título do Messias vindouro, indicando que a sabedoria de seu governo transcende a medida humana. Costuma ver no versículo uma profecia cumprida em Jesus de Nazaré.
Católica / patrística
Aplica o título a Cristo e o usa na liturgia do Natal. Os pais da Igreja enfatizaram a união entre a sabedoria divina e a humanidade do menino prometido.
O que fazer com isso
Pele convida a aceitar que nem tudo em Deus cabe em explicações completas. A Bíblia não trata esse limite como fracasso do pensamento, e sim como parte do louvor: há coisas "maravilhosas demais" para quem lê. Isso pode ensinar humildade ao estudar o texto, sem abandonar o esforço de entender o que é possível entender. Também lembra que o assombro diante de Deus e o estudo cuidadoso do texto não competem entre si.
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Fontes consultadas5 obras
- Brown, F.; Driver, S.; Briggs, C.. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (BDB), 1907.
- Koehler, L.; Baumgartner, W.. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (HALOT), 1994.
- Strong, J.. Strong's Exhaustive Concordance of the Bible, 1890.
- Oswalt, J. N.. The Book of Isaiah, Chapters 1-39 (NICOT), 1986.
- Keil, C.F.; Delitzsch, F.. Commentary on the Old Testament (Isaías), 1866.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Pele e "maravilhoso" são a mesma coisa em Isaías 9:6?
Sim, a palavra hebraica traduzida por "maravilhoso" no título de é pele. Ela descreve algo extraordinário, que vai além do que a mente humana consegue explicar.
Por que Juízes 13:18 diz que o nome do anjo é "maravilhoso"?
Manoá pergunta o nome do anjo, e a resposta é que o nome é peliʼi, "maravilhoso" ou "incompreensível". Em vez de dar um nome, o anjo indica que sua identidade ultrapassa o entendimento de Manoá.
Maravilhoso Conselheiro é um título ou são dois?
O hebraico permite as duas leituras: dois títulos ("Maravilha, Conselheiro") ou um só ("Maravilhoso Conselheiro"). As traduções em português preferem o título composto, mas a pontuação antiga e as versões divergem.
Palavras próximas
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