Corbã
o que significa corbã na Bíblia
A palavra no original
קָרְבָּן
qorban · Strong H7133
Aquilo que é trazido para perto; oferta, oblação.
Tudo isto ao mesmo tempo
- oferta sacrificial genérica do culto levítico
- fórmula de voto que interdita um bem ao uso comum
- gesto ritual de aproximação a Deus
- categoria legal usada para justificar a evasão de um dever
Resposta curta
Corbã vem do hebraico קָרְבָּן (qorban), da raiz קָרַב (qarab), "aproximar-se". No Levítico é o termo genérico para qualquer oferta trazida ao altar — animal, cereal, vinho ou incenso —, literalmente "o que se traz para perto" de Deus. A palavra aparece dezenas de vezes na Torá como termo guarda-chuva de todo o sistema sacrificial israelita.
No Novo Testamento ganha peso decisivo em , onde o evangelista a transcreve do hebraico para o grego (korban) e a traduz para o leitor. Ali Jesus denuncia uma manobra: declarar bens "corbã", consagrados ao templo, liberava alguém do dever de sustentar os pais, mesmo sem entregar nada de fato ao santuário. O termo revela, assim, tanto um vocabulário sacrificial legítimo quanto seu uso distorcido para escapar de um mandamento mais básico da lei.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
ContrasteO uso distorcido de corbã descrito em ilustra exatamente o tipo de religiosidade que Jesus confronta ao longo de seu ministério: a prioridade da forma ritual sobre a misericórdia devida ao próximo. Ao repreender essa manobra, Jesus não abole o sistema de ofertas, mas reafirma que nenhuma dedicação religiosa substitui a obrigação moral mais básica — nesse caso, honrar pai e mãe. A mesma lógica aparece quando ele cita para justificar sua prática de misericórdia (; 12:7): "misericórdia quero, e não sacrifício". O termo corbã, portanto, funciona como um contraste: a falha que ele expõe é resolvida não pela abolição da oferta, mas pelo realinhamento entre culto e vida, algo que os evangelhos apresentam como cumprido na pessoa e no ensino de Jesus.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
Corbã é uma palavra hebraica que significa, literalmente, "aquilo que se traz para perto" de Deus — o nome geral que a Bíblia usa para qualquer oferta levada ao altar. Jesus cita essa palavra em para criticar um truque religioso da sua época: algumas pessoas declaravam seus bens "corbã" (dedicados ao templo) só para se livrarem, com aparência de piedade, da obrigação de cuidar dos próprios pais idosos.
De onde vem a palavra
O sistema sacrificial descrito em Levítico usa qorban como categoria-mãe: toda oferta trazida ao santuário — seja um animal para o holocausto (), uma oferta de cereal () ou uma oferta pacífica () — é chamada de qorban antes de receber seu nome específico. O sentido literal, "o que é aproximado", descreve o próprio gesto ritual: o adorador aproxima algo seu do altar e, nisso, aproxima-se ele mesmo de Deus. Por ser um termo tão amplo, qorban raramente aparece sozinho no texto hebraico — quase sempre vem seguido do nome do sacrifício específico que está sendo trazido, funcionando como uma espécie de cabeçalho legal para a instrução que se segue.
Com o tempo, sobretudo no judaísmo do Segundo Templo e na literatura rabínica reunida depois no tratado Nedarim da Mishná, "corbã" passou a funcionar também como fórmula de voto: uma pessoa podia declarar um bem, uma casa ou até sua própria capacidade de ajudar alguém como "corbã", tornando esse bem interditado para uso comum, como se já pertencesse ao templo, ainda que nunca fosse entregue. Um achado arqueológico do século I, publicado por Joseph Fitzmyer, mostra a palavra empregada exatamente nesse sentido de interdição votiva em uma inscrição sobre um recipiente de pedra, confirmando que a prática mencionada nos evangelhos não era retórica exagerada, mas um uso jurídico real da época.
É nesse cenário que Jesus, em e no paralelo de , confronta os escribas e fariseus: alguém podia recusar sustento aos pais dizendo que aquele dinheiro já era "corbã", dedicado a Deus, e considerar-se assim desobrigado do quinto mandamento — mesmo continuando, na prática, a usufruir do próprio bem. Jesus chama isso de anular a palavra de Deus por causa da tradição transmitida pelos mestres. O episódio não questiona a validade do sistema de ofertas em si, mas o uso de uma categoria legítima da lei para justificar a evasão de um dever moral mais fundamental.
Aprofundamento
A raiz consonantal ק-ר-ב (q-r-b) é comum a línguas semíticas e significa basicamente "aproximar, chegar perto". Dela nascem tanto o substantivo qorban ("o que é aproximado", isto é, a oferta) quanto o verbo hiqrib, "apresentar/oferecer" algo a Deus, usado com frequência nas fórmulas sacrificiais de Levítico e Números. Léxicos padrão como BDB e HALOT classificam qorban como substantivo hebraico, embora a mesma raiz e formas cognatas apareçam também em aramaico e em outras línguas semíticas do Oriente Próximo antigo, inclusive em inscrições nabateias e palmirenas que usam qrbn para designar ofertas votivas — o que explica por que boa parte da literatura de referência sobre o termo cita tanto o pano de fundo hebraico bíblico quanto o ambiente aramaico falado na Judeia do primeiro século, onde a palavra circulava no dia a dia.
No texto hebraico do Antigo Testamento, qorban (Strong H7133) ocorre repetidas vezes em Levítico, Números e , sempre como termo técnico do culto. No Novo Testamento, o grego não tem uma palavra nativa equivalente com o mesmo peso técnico, então Marcos simplesmente transporta o som hebraico para o grego, κορβᾶν (korban), e acrescenta uma tradução explicativa — "isto é, oferta a Deus" — sinal de que ele escrevia para leitores não familiarizados com o termo. Um substantivo grego aparentado, korbanás, aparece em para designar o "tesouro" ou "cofre" do templo, mostrando como a mesma raiz gerou vocabulário tanto para a oferta em si quanto para o lugar onde ela era guardada.
O campo semântico de qorban, portanto, cobre pelo menos três usos: (1) a oferta sacrificial genérica do culto levítico; (2) a fórmula de voto que interdita um bem ao uso comum, atestada na Mishná e em achados epigráficos; e (3) por extensão no debate de , o símbolo de uma prática religiosa que, tecnicamente correta, é usada para contornar uma obrigação mais elementar. Entender essas três camadas evita tanto o erro de achar que "corbã" é só dinheiro doado ao templo quanto o erro oposto de tratá-la como uma invenção farisaica sem base na lei mosaica — a palavra é genuinamente bíblica; o abuso denunciado por Jesus está no uso que dela se fazia, não na palavra em si.
Comentaristas como Keil e Delitzsch já observavam, ao tratar de Levítico, que qorban funciona no hebraico bíblico quase como um substantivo coletivo para "oferenda", cobrindo tanto sacrifícios cruentos quanto oferendas incruentas. R. T. France, em seu comentário sobre Marcos, nota que a força da acusação de Jesus está justamente em usar um termo técnico e respeitado do culto — não uma gíria popular — para expor uma lacuna legal explorada por escribas bem treinados, o que torna a crítica mais incisiva do que uma simples objeção a uma palavra estranha.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:Corbã é apenas o nome de uma oferta em dinheiro para o templo.
No Levítico, qorban é um termo genérico que cobre qualquer tipo de oferta sacrificial — animal, cereal, vinho ou incenso —, não apenas contribuições financeiras. O sentido econômico restrito é uma simplificação posterior.
Dizem que:A palavra corbã foi criada pelos fariseus como truque legal na época de Jesus.
Qorban já é um termo técnico e frequente na Torá, usado dezenas de vezes séculos antes do Novo Testamento. O que é da época de Jesus é o uso distorcido do termo como fórmula de voto para escapar de obrigações familiares, não a palavra em si.
Dizem que:Declarar algo 'corbã' era uma exigência da Lei de Moisés.
A fórmula de voto que interdita um bem declarando-o corbã é uma prática desenvolvida na tradição oral e depois registrada na Mishná, não um mandamento mosaico — é justamente essa tradição humana que Jesus contrasta com o mandamento bíblico de honrar pai e mãe.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Protestante evangélica
Lê como demonstração de que tradições humanas, quando entram em conflito com o mandamento explícito das Escrituras, devem ceder à autoridade da Palavra de Deus — um argumento frequentemente usado a favor do princípio de que a Escritura julga toda tradição.
Católica
Reconhece na repreensão de Jesus uma condenação de tradições humanas específicas que corrompem a lei divina, mas distingue essas 'tradições dos homens' da Sagrada Tradição apostólica, que a Igreja entende como transmissão fiel, e não distorção, do ensino de Cristo.
Ortodoxa
Enfatiza que o problema no episódio não é a existência de tradição em si, mas o coração que usa qualquer forma religiosa — inclusive uma oferta legítima — para evitar a comunhão viva com Deus e o próximo, um tema central na espiritualidade ortodoxa sobre religiosidade externa sem transformação interior.
O que fazer com isso
O episódio de lembra que uma linguagem religiosa correta não garante, por si só, uma prática íntegra: é possível usar categorias legítimas — ofertas, votos, dedicações — como cobertura para evitar deveres concretos com pessoas próximas, especialmente pais e familiares. O texto convida a examinar se compromissos religiosos declarados estão sendo usados para aprofundar o amor a Deus e ao próximo, ou para dispensar-se dele.
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas7 obras
- Francis Brown, S. R. Driver e Charles Briggs. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (BDB), 1906.
- James Strong. Strong's Exhaustive Concordance of the Bible, 1890.
- W. E. Vine. Vine's Expository Dictionary of Old and New Testament Words, 1940.
- Gerhard Kittel (ed.). Theological Dictionary of the New Testament (TDNT), vol. 3, 1965.
- C. F. Keil e F. Delitzsch. Commentary on the Old Testament: Leviticus, 1866.
- R. T. France. The Gospel of Mark: A Commentary on the Greek Text (NIGTC), 2002.
- Joseph A. Fitzmyer. The Aramaic Qorban Inscription from Jebel Hallet et-Turi and Mark 7:11/Matt 15:5 (Journal of Biblical Literature 78), 1959.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O que significa a palavra corbã na Bíblia?
Corbã (hebraico qorban) significa literalmente "aquilo que se traz para perto" de Deus e é o termo geral usado no Levítico para qualquer oferta trazida ao altar. Em , Jesus usa a palavra para denunciar um uso indevido dela, não a oferta em si.
Corbã e korban são a mesma palavra?
Sim. Korban é a forma como o grego do Novo Testamento transcreve o som da palavra hebraica qorban. Marcos preserva o termo original e logo em seguida o traduz para seus leitores gregos.
Por que Jesus criticou a prática do corbã em Marcos 7?
Porque algumas pessoas declaravam seus bens "corbã", dedicados ao templo, para se livrarem do dever de sustentar os próprios pais, mesmo continuando a usufruir desses bens. Jesus via nisso uma tradição humana anulando um mandamento bíblico mais básico.
Corbã é a mesma coisa que dízimo ou oferta de hoje?
Não exatamente. Corbã era a categoria geral de todo o sistema sacrificial israelita no templo, incluindo animais, cereais e votos de dedicação — um conceito bem mais amplo do que a ideia moderna de dízimo em dinheiro.
Palavras próximas
Temas
- No hebraico
- Obediência e votos
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