Katallage (Reconciliação)
O que significa katallage na Bíblia?
A palavra no original
καταλλαγή
katallage · Strong G2643
Troca de inimizade por paz; restauração de uma relação rompida.
Tudo isto ao mesmo tempo
- troca de inimizade por amizade
- restauração de relações rompidas
- linguagem de diplomacia e embaixada
- iniciativa divina na paz com Deus
- união de judeus e gentios em um só corpo
Resposta curta
Katallage (καταλλαγή) é a palavra grega para reconciliação: a troca de inimizade por paz entre partes que estavam em conflito. Paulo a usa em e em , e é dele quase todo o vocabulário cristão da reconciliação no Novo Testamento. O termo vem do universo das relações humanas e da diplomacia, e a mudança que descreve é de estado, de hostilidade para amizade. O que chama atenção é a direção da iniciativa: em Paulo é Deus quem reconcilia o mundo consigo, e não o ser humano quem aplaca Deus. A palavra "reconciliação", no entanto, pode soar como um acordo entre iguais que cedem de lado e de outro, e o texto grego não descreve nada parecido com isso.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoA paz que o Antigo Testamento promete, inclusive para os 'de longe' e os 'de perto' (), é lida por como realizada em Cristo, que "é a nossa paz", reconciliando judeus e gentios em um só corpo e ambos com Deus pela cruz. Paulo mostra que a iniciativa é divina: "Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo" (), e que isso aconteceu "quando éramos inimigos" (). amplia o alcance, dizendo que por meio dele Deus quis reconciliar consigo todas as coisas. A palavra katallage descreve, assim, a forma que a promessa de paz assume na obra de Cristo.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Em palavras simples
Katallage é a palavra grega para reconciliação, a passagem da inimizade para a paz. Vem do vocabulário das relações entre pessoas e até do mundo da diplomacia. Paulo a usa para dizer que Deus tomou a iniciativa de reconciliar o mundo consigo por meio de Cristo (; ). Ele nunca diz que Deus foi reconciliado conosco, mas que nós fomos reconciliados com Deus. Em português, a palavra pode lembrar um acordo entre duas partes iguais, mas o texto grego mostra uma iniciativa que parte de um lado só.
De onde vem a palavra
O verbo katallasso e o substantivo katallage derivam de allasso, "mudar, trocar", com o prefixo kata- indicando intensidade. Em grego, a família descrevia uma troca de relação: no comércio, a troca de moedas; nas relações pessoais, a passagem da hostilidade à amizade; na política, o fim de guerra entre cidades ou reis. Em Paulo, o uso se concentra no segundo e no terceiro sentidos. A palavra sugere conflito real, de partes que estavam em estado de inimizade, e sua resolução.
A Septuaginta quase não usa a família. Em 2 Macabeus (como 1:5; 7:33; 8:29), que não faz parte do cânon protestante, mas é fonte útil do grego judaico, o verbo aparece para a reconciliação de Deus com o seu povo depois de ter se irado com ele. É um uso real, mas pouco frequente e lateral. O vocabulário que Paulo desenvolve é, em boa medida, original dentro do Novo Testamento.
O texto central é . Paulo afirma que, justificados pela fé, temos paz com Deus; e que, "sendo nós inimigos", fomos reconciliados com Deus pela morte do seu Filho, e que agora, reconciliados, seremos salvos pela sua vida. O versículo 11 acrescenta que nos gloriamos em Deus, "por quem recebemos agora a reconciliação". Em , a mesma palavra aparece em outro registro, quando a rejeição de Israel é descrita como "reconciliação do mundo".
O outro texto decisivo é . Paulo diz que tudo vem de Deus, "que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação"; que, em Cristo, Deus estava reconciliando o mundo consigo, não imputando aos homens as suas transgressões; e que os apóstolos são embaixadores de Cristo, exortando: "reconciliai-vos com Deus". A imagem diplomática é explícita: embaixadores falam em nome de um rei. e desenvolvem o tema em outras direções, falando de judeus e gentios reconciliados em um só corpo e do cosmos reconciliado por Cristo.
Aprofundamento
A forma καταλλαγή (katallage, Strong G2643) ocorre quatro vezes no Novo Testamento: , Coríntios 5:18 e . O verbo καταλλάσσω (katallasso) ocorre seis vezes, em (duas vezes), e . Há ainda o composto ἀποκαταλλάσσω (apokatallasso), exclusivo de e de . Fora desse grupo paulino, o Novo Testamento usa outro verbo para reconciliar, diallassomai, em , onde o ofensor é chamado a se reconciliar com o irmão antes de oferecer a sua oferta. Esse detalhe importa: a reconciliação entre pessoas e a reconciliação com Deus aparecem em vocabulários diferentes.
O estudo mais conhecido sobre a palavra é o de Stanley Porter, Katallassō in Ancient Greek Literature (1994), que investiga o uso do verbo na literatura grega e conclui que, na maioria dos casos, a ideia é de restauração de relações pessoais depois de um rompimento, e não de simples acordo comercial. Ralph Martin, em Reconciliation: A Study of Paul's Theology (1981), e I. Howard Marshall, em um artigo sobre o significado da reconciliação (1978), são referências comuns para o debate sobre o alcance teológico do termo. O estudo desses autores não eliminou as discussões, mas ajudou a mostrar que o vocabulário de Paulo é pessoal, não mecânico.
Uma observação gramatical é decisiva. Em Paulo, Deus é sempre o sujeito que reconcilia, e o ser humano é o objeto. Em nenhum lugar o apóstolo diz que Deus foi reconciliado conosco; diz que fomos reconciliados com Deus, e que Deus reconciliou o mundo consigo (). A hostilidade é descrita, em , como de "inimigos". Contudo, os estudiosos discutem se essa inimizade é apenas da parte humana, de rebeldia e distanciamento, ou se inclui também a ira de Deus contra o pecado, já que e 5:9 falam da ira. Vertentes diferentes dão respostas diferentes, e o texto não encerra o debate.
Isso também afeta a tradução. Em português, "reconciliar" lembra duas partes que se acertam, cada uma cedendo um pouco. O grego descreve algo mais assimétrico: uma parte tem a iniciativa, paga o custo e convida a outra. Em , o apelo "reconciliai-vos com Deus" é dirigido a pessoas que já estão na igreja, o que sugere que a reconciliação é, ao mesmo tempo, algo realizado e algo a ser recebido e vivido. Esse aspecto de realizado e de recebido explica por que o termo aparece tanto em afirmações de fato () quanto em exortações ().
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:Reconciliação significa que Deus e o ser humano cedem um pouco cada um e chegam a um meio-termo.
Em Paulo, Deus é o sujeito que reconcilia e o ser humano é o objeto. A iniciativa e o custo são divinos (; ). O vocabulário não descreve negociação entre iguais.
Dizem que:Paulo diz que Deus foi reconciliado com os homens.
Nenhum texto paulino afirma isso. A formulação é sempre que os seres humanos (ou o mundo) são reconciliados com Deus, ou que Deus reconcilia o mundo consigo. A discussão teológica sobre a ira de Deus existe, mas não se apoia numa frase em que Deus seja o objeto de katallasso.
Dizem que:Katallage é um termo comum no Antigo Testamento grego.
A família quase não aparece na Septuaginta canônica; os usos em 2 Macabeus são pontuais. O desenvolvimento do tema como categoria teológica é, em larga medida, obra de Paulo.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada / evangélica clássica
Lê a reconciliação como resultado da obra expiatória de Cristo, que remove a inimizade causada pelo pecado e satisfaz a justiça de Deus, lendo em continuidade com a ira divina.
Católica
Compreende a reconciliação como restauração da comunhão com Deus, realizada por Cristo e comunicada pelos sacramentos, entre eles o batismo e a penitência, também chamada sacramento da reconciliação.
Ortodoxa
Enfatiza que o obstáculo está na separação do ser humano, e não em uma mudança em Deus, e entende a reconciliação como cura da relação e retorno à comunhão.
Teologias da reconciliação social
Partindo de e , ressaltam o ministério da reconciliação como chamado também a superar divisões étnicas, sociais e políticas, sem reduzir o tema a esse plano.
O que fazer com isso
Katallage lembra que a paz com Deus, na Bíblia, não nasce de negociação entre iguais, mas de uma iniciativa que vem primeiro. Isso pode aliviar quem acha que precisa convencer Deus a aceitá-lo. E também carrega um encargo: Paulo fala de um ministério de reconciliação. Cabe perguntar, com honestidade, que relações próximas estão rompidas e o que seria um passo concreto, sem apressar o que o outro ainda não pode dar.
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas5 obras
- Porter, S. E.. Katallassō in Ancient Greek Literature, with Reference to the Pauline Writings, 1994.
- Martin, R. P.. Reconciliation: A Study of Paul's Theology, 1981.
- Marshall, I. H.. The Meaning of Reconciliation (em Unity and Diversity in New Testament Theology), 1978.
- Bauer, W.; Danker, F. W.. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 2000.
- Kittel, G.; Friedrich, G. (orgs.). Theological Dictionary of the New Testament, 1964.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Katallage e eirene (paz) são a mesma coisa?
Não. Eirene é a paz, o estado de harmonia ou bem-estar; katallage é a mudança de relação que leva a essa paz, de inimizade a amizade. Em e 5:10-11, Paulo relaciona as duas, falando de paz com Deus e de reconciliação.
Quem é o sujeito da reconciliação em Paulo?
Deus. Em , é ele quem reconcilia o mundo consigo por meio de Cristo. O ser humano é o objeto, e o apelo "reconciliai-vos com Deus" convida a receber o que Deus já tomou a iniciativa de oferecer.
Mateus 5:24 usa a mesma palavra?
Não. Mateus usa diallassomai, um verbo da mesma raiz de allasso, para a reconciliação entre irmãos. O vocabulário de katallasso e katallage é predominantemente paulino, e aplicado à relação entre Deus e o ser humano.
A reconciliação é só entre Deus e as pessoas?
Não. Paulo também fala de reconciliação entre judeus e gentios () e de reconciliação de todas as coisas por Cristo (). As tradições variam na ênfase que dão a cada dimensão.