Charis (Graça)
O que significa charis na Bíblia?
A palavra no original
χάρις
charis (cháris) · Strong G5485
Favor, benefício dado livremente, e a gratidão que ele desperta.
Tudo isto ao mesmo tempo
- favor imerecido
- dádiva e benefício
- gratidão
- encanto e beleza
- poder de Deus que sustenta
Resposta curta
Charis (χάρις, Strong G5485) é a palavra grega traduzida por "graça", em geral entendida como favor imerecido. No mundo grego clássico, designava um benefício concedido livremente, o encanto que provoca alegria e a gratidão que o gesto desperta. Nas cartas de Paulo, torna-se um termo central para falar da ação de Deus em favor de pessoas que não a merecem, como em e .
A palavra está ligada a charisma ("dom") e eucharistia ("ação de graças"), e no Novo Testamento ocupa o lugar de termos hebraicos como chen (favor). Em português, "graça" pode ser lida como charme ou beleza; no uso paulino, porém, o acento está na dádiva. Entender isso não elimina discussões teológicas sobre o alcance da graça, que continuam entre as tradições cristãs.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoCharis é palavra grega de uso neotestamentário, mas o tema da graça de Deus já aparece no Antigo Testamento com o hebraico chen e com chesed, a fidelidade de aliança. O Novo Testamento apresenta Cristo como o ponto em que essa graça se torna visível: diz que o Verbo se fez carne "cheio de graça e de verdade", e afirma que "a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo". fala da graça de Deus que "se manifestou". Paulo, por sua vez, liga a justificação gratuita à redenção em Cristo Jesus (). Não se afirma que o Antigo Testamento ignorasse a graça, e sim que o Novo a vê plenamente revelada em Jesus.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Em palavras simples
Charis é a palavra grega que a Bíblia traduz por "graça". No grego antigo, indicava um favor dado de graça, sem cobrar nada em troca, e também a gratidão de quem recebia. Nas cartas de Paulo, a palavra é usada para falar do que Deus faz pelas pessoas sem que elas o mereçam, como em e . Está ligada a charisma, que quer dizer "dom", e a eucharistia, que quer dizer "ação de graças". Em português, "graça" pode soar como simpatia ou beleza, mas aqui o sentido central é o de uma dádiva.
De onde vem a palavra
Charis pertence a uma família de palavras gregas ligadas à alegria e ao favor, entre elas chara ("alegria"), charisma ("dom") e eucharistia ("ação de graças"). Na literatura grega, a palavra podia significar três coisas intimamente relacionadas: o encanto de uma pessoa ou de uma obra, o favor ou benefício concedido a alguém, e a gratidão devida a quem concedeu o favor. Aristóteles, na Retórica (II.7), define charis como a ajuda dada a alguém em necessidade, sem esperar algo em troca, e que beneficia o outro por ele mesmo.
No mundo romano e helenístico, a charis operava dentro de uma lógica de reciprocidade. Quem recebia um benefício ficava em dívida de gratidão e de retribuição pública; a vida social era sustentada por essas trocas de favores entre iguais, e entre patronos e clientes. Sêneca dedica um tratado inteiro, De Beneficiis, às regras do dar e receber benefícios. É nesse ambiente que Paulo usa a palavra, e o que ele diz sobre a graça de Deus ressoa com essa linguagem e a ultrapassa.
A Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento, traduz com charis principalmente o hebraico chen (חֵן), "favor, graça": Noé "achou graça" aos olhos do Senhor (). Já o hebraico chesed ("amor leal, fidelidade de aliança") é traduzido na maioria das vezes por eleos ("misericórdia"), não por charis. Por isso é preciso cuidado ao dizer que charis "verte chen e chesed": o termo cobre bem o primeiro, e o conteúdo do segundo é assimilado no Novo Testamento pelo conjunto das ideias de graça, misericórdia e fidelidade.
No Novo Testamento, charis aparece mais de 150 vezes, a maioria nas cartas de Paulo, em saudações ("graça e paz"), em exposições doutrinárias (; 5:20-21), em exortações () e em temas pessoais (, "a minha graça te basta"). Em Lucas e em Atos, a palavra também designa favor e bênção, como em e . Em , a graça é associada à vinda de Jesus.
Aprofundamento
O estudo mais influente recente sobre a graça em Paulo é Paul and the Gift (2015), de John Barclay. Ele observa que, no mundo antigo, uma dádiva podia ser "perfeita" em seis sentidos distintos, que ele chama de perfecções da dádiva: superabundância, singularidade, prioridade, incongruência, eficácia e não circularidade. Barclay argumenta que Paulo enfatiza a incongruência da graça, ou seja, o fato de que ela é dada sem considerar mérito, mas sem negar que a graça gera uma resposta transformadora. É uma proposta de leitura, e não consenso, mas ajuda a ver que "graça" não é uma palavra única, e que a controvérsia sobre ela vem de ênfases diferentes.
Do ponto de vista linguístico, charis combina três faces que a tradução portuguesa nem sempre preserva. A primeira é objetiva: o favor ou benefício concedido. A segunda é subjetiva: a disposição generosa de quem concede. A terceira é de resposta: a gratidão de quem recebe, como em , "graças (charis) a Deus que nos dá a vitória". O léxico BDAG distingue sentidos como "graça, favor", "dádiva, benefício" e "gratidão". Por isso a mesma palavra aparece em , onde significa "graças", e em , onde significa o favor divino que justifica.
O uso paulino mais característico é o contraste entre graça e obra, ou entre graça e dívida. diz que ao que trabalha o salário não se conta "por graça", mas por dívida; afirma que, se é por graça, já não é por obras. Esses versículos mostram que charis, em Paulo, exclui a ideia de retribuição devida, em contraste com a lógica de reciprocidade da cultura em redor. Em , a salvação é "pela graça", "mediante a fé" e "dom de Deus", e o texto liga a graça à palavra "dom" (doron), reforçando o caráter de dádiva.
A riqueza do campo semântico gera a possibilidade de duas leituras opostas: reduzir charis a um "encanto" vago, ou transformá-la em substância ou força quase material. O texto bíblico não apoia nenhuma das duas sozinhas: a palavra é usada para o ato de Deus, para a posição em que o crente se encontra () e para o poder que sustenta no sofrimento (). Esse alcance explica por que as grandes tradições cristãs concordam que a graça é central, mas discordam sobre como ela opera, e por que o estudo atento do vocabulário grego não substitui, mas informa, essa discussão teológica.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A graça só existe no Novo Testamento; o Antigo Testamento é lei sem graça.
O Antigo Testamento fala de favor imerecido com chen (; ) e de amor leal com chesed (). O Novo Testamento usa charis para falar da mesma realidade, vista agora em Cristo, e não como ideia nova.
Dizem que:Charis sempre significa um favor sem nenhuma expectativa de resposta.
Charis também significa gratidão, como em , e os textos de Paulo ligam a graça a uma vida transformada (; ). O consenso é que ela exclui o mérito, mas a pesquisa discute até que ponto exclui a expectativa de resposta.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada / agostiniana
Enfatiza a graça soberana e eficaz de Deus, que opera na conversão sem depender do mérito ou da cooperação prévia do pecador, a partir da leitura que Agostinho e Calvino fazem de Romanos e Efésios.
Católica
Entende a graça como dom de Deus que também transforma o ser humano por dentro (graça santificante), e que coopera com a liberdade humana, conforme o Catecismo da Igreja Católica e o Concílio de Trento.
Arminiana / metodista
Fala de graça preveniente: Deus age primeiro em todas as pessoas, tornando possível a resposta livre, que pode ser aceita ou resistida, e a salvação permanece inteiramente obra da graça.
Ortodoxa
Vê a graça como energia divina não criada, pela qual o ser humano participa da vida de Deus, no horizonte da theosis, e não apenas como favor jurídico.
O que fazer com isso
Charis lembra que, no vocabulário do Novo Testamento, graça é primeiro um gesto de Deus e só depois um sentimento ou um traço de caráter. Isso não encerra a discussão sobre como a graça se relaciona com a obediência, que as tradições cristãs tratam de formas diferentes. Mas ajuda a ler textos como com atenção ao que dizem: a salvação é dada, e a gratidão (a outra face de charis) é a resposta natural a esse dom.
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Fontes consultadas5 obras
- Bauer, W.; Danker, F. W.; Arndt, W.; Gingrich, F.. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 2000.
- Barclay, J. M. G.. Paul and the Gift, 2015.
- Moo, D. J.. The Epistle to the Romans (NICNT), 1996.
- Aristóteles. Retórica (livro II).
- Louw, J. P.; Nida, E. A.. Greek-English Lexicon of the New Testament Based on Semantic Domains, 1988.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre charis e charisma?
Têm a mesma raiz. Charis é a graça, o favor; charisma é o dom concreto que resulta dessa graça, como em e .
Charis aparece no Antigo Testamento?
Na Septuaginta, sim: ela traduz principalmente o hebraico chen, como em . No texto hebraico original, a palavra grega naturalmente não existe, mas o tema do favor divino é central.
Graça e misericórdia são a mesma coisa?
São vizinhas, mas distintas. Misericórdia (eleos) é compaixão diante do sofrimento ou da culpa; graça (charis) é o favor concedido sem mérito. Os textos bíblicos costumam combiná-las, como em .
Por que Paulo abre suas cartas com graça e paz?
Unia a saudação grega (chairein, da mesma família de charis) à hebraica (shalom). A fórmula combina favor e bem-estar, dando a uma saudação comum um sentido teológico.