Eloi, Eloi, Lamá Sabactâni
O que significa 'Eloi, Eloi, lamá sabactâni' que Jesus gritou na cruz?
A palavra no original
אֵלִי אֵלִי לְמָה שְׁבַקְתַּנִי (forma que se aproxima de Mateus 27:46); cf. אֱלָהִי אֱלָהִי (Eloi/Elahi), forma que se aproxima de Marcos 15:34 — reconstrução do aramaico a partir da transliteração grega Ελωι/Ηλι λεμα σαβαχθανι preservada no Novo Testamento
Eloi, Eloi, lemá sabachtháni (Mc 15:34) / Eli, Eli, lemá sabachtháni (Mt 27:46) · Strong G1682 (Eloi, Mc 15:34) / G2241 (Eli, Mt 27:46) / G2982 (lama/lema) / G4518 (sabachthani)
Deus meu, Deus meu, por que me deixaste (ou: por que me abandonaste)?
Tudo isto ao mesmo tempo
- Invocação a Deus ('meu Deus, meu Deus')
- Abandono, desamparo, entrega (shevaq — deixar, largar, liberar)
- Lamento aflito, no gênero literário dos salmos de lamento individual
- Citação/pronúncia de um texto sagrado na língua falada do dia a dia
Resposta curta
Eloi, Eloi, lamá sabactâni é a transliteração grega de um grito em aramaico dito por Jesus na cruz, registrado em e, com grafia diferente, em (Eli, Eli). A frase abre o Salmo 22 — Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste — mas não repete palavra por palavra o hebraico do salmo: o verbo final, sabactâni, vem da raiz aramaica shevaq, deixar, entregar, diferente do hebraico azav do Salmo 22:1. Isso indica Jesus citando o salmo em aramaico, língua falada na Galileia, não recitando de cor o hebraico.
A escolha sonora explica um detalhe da cena: ao ouvir Eli ou Eloi, alguns presentes entenderam que Jesus chamava por Elias. Marcos e Mateus preservaram o som aramaico em vez de traduzir de imediato, sinalizando o peso do instante e a ligação com o lamento do salmista.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoAs próprias palavras de Jesus na cruz são uma citação direta e verbalizada do Salmo 22:1, o que os dois evangelistas registram como parte do relato da paixão, e não como alegoria posterior. A tradição cristã lê o Salmo 22 como um dos textos mais diretamente aplicados a Cristo no Novo Testamento: o salmo de lamento do justo sofredor, que descreve escárnio, sede, mãos e pés perfurados e roupas divididas por sorteio, culmina, depois do grito de desamparo, em confiança e anúncio de vitória para todas as nações. Ao pronunciar a primeira linha do salmo no momento da agonia, Jesus assume publicamente essa identificação com a figura do salmo — não apenas o desamparo do início, mas, segundo a leitura cristã tradicional, também a trajetória de vitória com que o salmo termina.
Respaldo no Novo Testamento: ; (citando ); cf. e o relato da crucificação em todos os quatro evangelhos
Em palavras simples
É a frase que Jesus gritou na cruz, em aramaico, pouco antes de morrer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste. São as primeiras palavras do Salmo 22, um salmo de lamento. Jesus não citou o hebraico do salmo ao pé da letra: usou uma palavra aramaica, do dia a dia dele, para dizer desamparaste. Por isso, quem ouviu de longe achou que ele estava chamando o profeta Elias, já que os nomes soam parecidos em aramaico.
De onde vem a palavra
A frase aparece no relato da crucificação, no momento mais sombrio da narrativa: por volta da hora nona (perto das três da tarde), depois de três horas de trevas sobre a terra, Jesus grita em alta voz. escreve Ελωι Ελωι λεμα σαβαχθανι (transliterado Eloi, Eloi, lema sabachthani); escreve Ηλι Ηλι λεμα σαβαχθανι (Eli, Eli, lema sabachthani). As duas formas remontam ao mesmo grito aramaico, mas com uma variação na palavra para Deus meu: Eli é mais próxima do hebraico do Salmo 22:1 (אֵלִי, eli), enquanto Eloi reflete a forma aramaica mais plena, derivada de elah/elaha, Deus. Ambos os evangelistas traduzem a frase na sequência, deixando claro que ela precisa de tradução para o leitor grego: não era hebraico corrente nem grego, mas a língua do povo na Judeia e na Galileia do primeiro século.
O detalhe mais discutido pelos comentaristas é justamente a semelhança sonora entre Eli/Eloi e Eliyahu (Elias). Segundo os quatro evangelhos, alguns dos que estavam ali pensaram que Jesus chamava o profeta Elias, cuja volta era esperada por certa tradição judaica como sinal do fim dos tempos. Essa confusão só faz sentido se a frase foi de fato pronunciada em aramaico, e não em grego ou num hebraico litúrgico distante do ouvido comum.
O gesto de citar o Salmo 22 não é acidental. É um salmo de lamento que começa em desamparo extremo e termina em confiança e louvor, um padrão comum aos salmos de lamento individual no saltério hebraico. Comentaristas como Keil e Delitzsch observam que abrir um salmo, na prática judaica de recitação, evocava o salmo inteiro, não apenas o versículo citado. Por isso a discussão sobre se Jesus estava apenas lamentando desamparo ou também apontando, com essa única linha, para o desfecho de vitória do salmo inteiro, é central para entender o peso teológico da cena.
Aprofundamento
O ponto filológico central da frase é o verbo final, sabactâni (grego σαβαχθανι, transliterando o aramaico shevaqtani). Ele vem da raiz aramaica שבק (shevaq), que significa deixar, abandonar, largar ou permitir partir — usada também em contextos comerciais e jurídicos aramaicos para descrever a quitação de uma dívida ou a liberação de alguém de uma obrigação. Já o Salmo 22:1 no texto massorético hebraico usa עֲזַבְתָּנִי (azavtani), do verbo עזב (azab), abandonar, desamparar. As duas raízes têm sentido semelhante, mas não são a mesma palavra: Jesus não está citando o hebraico do salmo palavra por palavra, está pronunciando a mesma ideia na língua aramaica corrente, o que sugere uma tradução oral ou um targum aramaico do salmo já em uso na época, e não uma recitação literária do texto hebraico original.
Léxicos padrão como o de Strong (G4518, σαβαχθανι) e o BDAG classificam essas quatro palavras — eloi/eli, lema, sabachthani — como transliterações, não traduções: o grego dos evangelhos simplesmente reproduz os sons aramaicos ouvidos, e só depois oferece a tradução grega (que emprega o verbo εγκαταλειπω, abandonar, o mesmo verbo usado na Septuaginta para traduzir azav no Salmo 22:1). Essa cadeia — hebraico do salmo, pronúncia aramaica de Jesus, transliteração grega dos evangelistas, tradução grega do sentido — é o motivo de existirem pequenas variações manuscritas entre eloi e eli em diferentes cópias antigas de Marcos e Mateus: escribas ora harmonizavam os dois relatos, ora preservavam a forma que tinham diante de si.
Vine's Expository Dictionary e o TDNT (dicionário teológico do Novo Testamento, organizado por Kittel) notam que a preservação deliberada do som original, em vez de uma tradução direta e imediata, é rara nos evangelhos e reservada a momentos de peso extremo — como talitha cumi em ou abba em — sinalizando que os primeiros ouvintes e leitores entendiam essas palavras como registro fiel de um som que precisava ser preservado, não apenas parafraseado. A frase, portanto, não é uma palavra isolada do léxico bíblico, mas uma citação bíblica inteira transportada, com sua própria pronúncia, de uma língua para outra dentro do próprio texto do Novo Testamento.
Vale notar ainda que nenhum dos quatro verbetes gregos (eloi, eli, lema, sabachthani) tem vida própria fora dessas duas passagens: são hápax legômena no Novo Testamento, palavras que ocorrem uma única vez em cada relato e não voltam a aparecer em nenhum outro livro bíblico grego. Isso reforça que estamos diante de um registro pontual de fala real, e não de um termo técnico do vocabulário teológico corrente da igreja primitiva, o que exige cautela redobrada de qualquer léxico ao atribuir sentido a essas formas fora do contexto exato da cruz.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:Jesus estava citando o hebraico do Salmo 22:1 exatamente como está escrito no Antigo Testamento.
O verbo final da frase de Jesus (sabactâni, do aramaico shevaq) é diferente do verbo hebraico do salmo (azavtani, de azab). Jesus expressa a mesma ideia de desamparo, mas na língua aramaica falada por ele, não repetindo o hebraico palavra por palavra.
Dizem que:Todos ao redor da cruz entenderam perfeitamente o que Jesus disse.
Os próprios evangelhos registram que parte dos presentes não reconheceu a citação do salmo e achou que Jesus chamava o profeta Elias, justamente por causa da semelhança sonora entre Eli/Eloi e Eliyahu.
Dizem que:Eloi e Eli são a mesma palavra, só com grafias diferentes por acaso.
Léxicos e comentaristas apontam que Eli reflete mais de perto a forma hebraica de meu Deus usada no Salmo 22:1, enquanto Eloi reflete uma forma aramaica plena derivada de elah/elaha; a diferença provavelmente carrega peso linguístico, não é uma variação aleatória de transcrição.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Evangélica/Reforma (leitura penal-substitutiva)
Entende o grito como expressão de um abandono real e temporário: na cruz, Cristo carrega o peso do pecado da humanidade e experimenta, na sua natureza humana, a separação da comunhão com o Pai como parte da obra de expiação.
Catolicismo/tradição patrística
Lê a frase à luz do salmo inteiro: Jesus, como cabeça da humanidade, ora com as palavras do justo sofredor, dando voz ao clamor de todos os que sofrem, sem que isso implique ruptura real dentro da Trindade — a comunhão entre Pai e Filho permanece intacta mesmo no auge da dor.
Ortodoxia Oriental
Enfatiza que é a natureza humana de Cristo que sente o abandono e o peso da morte, enquanto a natureza divina permanece unida ao Pai; o grito expressa a solidariedade real de Cristo com a condição humana mortal, não uma cisão na divindade.
Luteranismo clássico
Sublinha a comunicação de atributos (communicatio idiomatum): o Deus-homem verdadeiramente sofre esse desamparo em sua carne, tomando sobre si a ira divina contra o pecado de modo real e não apenas simbólico.
O que fazer com isso
A frase lembra que o lamento também tem lugar legítimo na fé: o Salmo 22 começa em desamparo e só depois chega à confiança. Reconhecer que a Escritura registra, sem suavizar, um grito de angústia extrema ajuda a entender que expressar dor diante de Deus não é falta de fé. A cena também mostra como um detalhe de língua e som carrega peso histórico: a confusão dos presentes com o nome de Elias só faz sentido porque a frase foi dita em aramaico real, não em fórmula solene.
Passagens relacionadas8
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas5 obras
- James Strong. Strong's Exhaustive Concordance / Strong's Greek and Hebrew Dictionaries, 1890.
- Walter Bauer, Frederick W. Danker, William F. Arndt, F. Wilbur Gingrich. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 2000.
- W. E. Vine. Vine's Expository Dictionary of Old and New Testament Words, 1940.
- Gerhard Kittel (org.). Theological Dictionary of the New Testament (TDNT), 1964.
- Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament: Psalms, 1866.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Eloi, Eloi, lamá sabactâni é hebraico ou aramaico?
É aramaico, a língua falada no dia a dia por Jesus e por boa parte da população judaica no primeiro século. O Salmo 22, que a frase cita, foi escrito em hebraico, mas Jesus pronuncia a mesma ideia usando uma palavra aramaica (sabactâni, de shevaq) em vez da palavra hebraica original do salmo (azavtani).
Por que Marcos escreve Eloi e Mateus escreve Eli?
Provavelmente refletem duas formas próximas de dizer meu Deus em aramaico e hebraico: Eli é mais próxima do hebraico do Salmo 22:1, enquanto Eloi reflete uma forma aramaica mais plena. Também existem pequenas variações entre manuscritos antigos dos dois evangelhos nesse ponto.
Por que acharam que Jesus estava chamando Elias?
Porque Eli/Eloi, meu Deus, soa muito parecido com o início do nome do profeta Elias (Eliyahu) em aramaico e hebraico. Alguns dos presentes, ouvindo de longe, associaram o grito ao nome do profeta, cuja volta era aguardada por parte da tradição judaica.
Jesus estava dizendo que Deus o abandonou de verdade?
As tradições cristãs leem esse ponto de formas diferentes: algumas entendem um abandono real, no sentido de Cristo carregando o peso do pecado; outras entendem que Jesus cita o salmo inteiro, que termina em confiança, e não apenas o desamparo do primeiro versículo. Não há consenso único entre as tradições sobre a extensão exata desse desamparo.
Palavras próximas
Temas
- #eloi-eloi-lama-sabactani
- #salmo-22
- #crucificacao-de-jesus
- #aramaico
- #grito-na-cruz
- #desamparo