Bar
O que significa "Bar" em nomes como Barrabás, Bartolomeu e Barnabé?
A palavra no original
בַּר
bar · Strong H1247
Filho, filho de (forma aramaica de parentesco, cognata do hebraico ben)
Tudo isto ao mesmo tempo
- Filho (relação de parentesco literal)
- Descendência ou pertencimento ('filho de X', usado como patronímico)
- Ser humano, em sentido idiomático mais amplo ('filho do homem' = uma pessoa)
Resposta curta
Bar (בַּר) é a palavra aramaica para "filho", equivalente ao hebraico ben. No Novo Testamento grego ela sobrevive como prefixo em nomes próprios transliterados do aramaico: Barrabás ("filho do pai"), Bartolomeu ("filho de Tolmai"), Barnabé, chamado em de "filho da consolação", Bar-Jesus (), Barsabás e Bartimeu, "filho de Timeu" (). Como palavra isolada, bar também ocorre no Antigo Testamento, em trechos aramaicos de Esdras e Daniel, além de duas passagens hebraicas discutidas: Salmo 2:12 e .
A mesma raiz forma a expressão aramaica "bar enash", "filho do homem", em — pano de fundo do título que Jesus usa repetidamente de si mesmo nos evangelhos. Assim, uma palavra do uso comum, para identificar de quem alguém é filho, carrega em um único texto profético um peso messiânico maior.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoA palavra bar entra na trajetória bíblica de forma discreta, como simples marcador de filiação em nomes próprios, mas ganha peso maior em , onde a expressão aramaica "bar enash" ("um como filho do homem") descreve uma figura celeste que recebe de Deus domínio, glória e um reino eterno. Os evangelhos retomam essa mesma expressão como o título preferido de Jesus para si mesmo — "Filho do Homem" aparece mais de oitenta vezes em sua boca — e, em pelo menos duas ocasiões ( e ), ele a aplica explicitamente à cena de , ao afirmar que será visto "assentado à direita do poder e vindo sobre as nuvens do céu". Assim, uma palavra cotidiana usada para identificar de quem alguém era filho torna-se, num único texto profético, o veículo de uma reivindicação messiânica que o Novo Testamento entende cumprida em Jesus.
Respaldo no Novo Testamento: ; ; cf.
Em palavras simples
Bar é a palavra aramaica para "filho". Ela aparece escondida em vários nomes do Novo Testamento: Barrabás (filho de Abba), Bartolomeu (filho de Tolmai), Barnabé (filho da consolação) e Bar-Jesus. É o equivalente aramaico do hebraico ben, que também forma nomes como Benjamim. A mesma palavra ainda compõe a expressão "filho do homem", usada em Daniel e repetida depois por Jesus para falar de si mesmo.
De onde vem a palavra
No mundo bíblico, sobrenomes como hoje conhecemos não existiam; as pessoas eram identificadas pela filiação. Em hebraico, isso se fazia com ben ("filho de"), como em Ben-Hur ou Benjamim. Em aramaico — a língua franca do Oriente Próximo depois do exílio babilônico e a língua do dia a dia na Palestina do século I — a mesma função era cumprida por bar. Por isso, quando os evangelhos e Atos transliteram nomes semitas para o grego, muitos deles chegam com esse prefixo preso à frente.
É o caso de Barrabás (Βαραββᾶς), o preso libertado no lugar de Jesus (; ; ; ), cujo nome combina bar com abba, "pai", resultando em algo como "filho do pai". É também o caso de Bartolomeu (Βαρθολομαῖος), um dos doze apóstolos (; ; ; ), cujo nome preserva "filho de Tolmai"; de Barnabé (Βαρναβᾶς), companheiro de Paulo, apresentado em como "filho da consolação" (ou exortação); de Bar-Jesus (Βαριησοῦς), o mago confrontado por Paulo em ; de Barsabás (Βαρσαβᾶς), sobrenome de dois discípulos em e 15:22; e de Bartimeu (Βαρτιμαῖος), o cego de Jericó curado por Jesus em .
Fora dessas composições, o próprio substantivo aramaico בַּר aparece isolado em porções aramaicas do Antigo Testamento — e vários versículos de Daniel, entre eles ("semelhante a um filho dos deuses") e ("um como filho do homem"). Já em textos hebraicos, dois versículos usam uma forma idêntica ou muito próxima ao bar aramaico: , onde a mãe do rei Lemuel repete "meu filho" três vezes, e o difícil Salmo 2:12, tradicionalmente traduzido "beijai o Filho", mas que gera discussão entre hebraístas, como se verá adiante.
Vale notar que nenhum desses nomes é, em si, um título religioso: bar funciona apenas como elemento de composição, indicando de quem alguém era filho, discípulo ou seguidor — do mesmo modo que, em português, "filho de fulano" ainda sobrevive em alguns sobrenomes de família.
Aprofundamento
Filologicamente, bar e o hebraico ben (בֵּן) descendem da mesma raiz semítica para "filho" ou "construir/gerar"; são primos linguísticos, não palavras de origens distintas. O aramaico já era a língua predominante entre os judeus da Judeia e da Galileia no século I, o que explica por que tantos nomes no Novo Testamento — texto escrito em grego — preservam essa marca semítica no lugar do equivalente hebraico ben. Léxicos padrão como o BDB e o HALOT classificam בַּר como termo aramaico correspondente a H1121 (ben), listado sob o número H1247 nas concordâncias de Strong.
Vale registrar dois pontos de cautela filológica. Primeiro, a etimologia de "Barnabé" não é unânime: traduz o nome como "filho da consolação" (ou exortação), leitura amplamente aceita, mas alguns comentaristas notam que a forma grega também admitiria "filho de Nabas/Nebo" (associado a um deus ou a "profecia"), de modo que Lucas pode estar oferecendo uma tradução teológica do sentido do apelido, e não uma decomposição estritamente gramatical. Segundo, o Salmo 2:12 é um dos versículos mais discutidos do saltério: a frase costuma ser lida como "beijai o Filho" (tomando בַּר como o aramaico "filho", uma escolha lexical incomum em poesia hebraica), mas parte dos hebraístas prefere ligar essa mesma grafia a um adjetivo hebraico que significa "puro" ou "limpo" (como em Salmo 24:4), traduzindo algo como "prestai homenagem sinceramente" ou "com pureza". Léxicos e comentários seguem divididos; a tradição cristã, desde o Novo Testamento, lê o salmo inteiro como messiânico independente dessa escolha pontual (compare e , que citam o Salmo 2 aplicando-o a Jesus, ainda que não citem especificamente o versículo 12).
Um detalhe textual curioso, registrado no aparato crítico de alguns manuscritos gregos de e mencionado já por Orígenes, é que o preso solto no lugar de Jesus pode ter se chamado, ele também, "Jesus Barrabás" — Ἰησοῦν Βαραββᾶν. Se essa variante refletir o texto original, o povo teria escolhido entre dois homens de mesmo primeiro nome: "Jesus, filho do pai" (segundo o sentido do apelido) e "Jesus, chamado Cristo". A leitura não é unânime nem está presente na maioria dos manuscritos, mas é registrada por comentaristas como um dado relevante para entender a cena.
Por fim, a construção aramaica "bar enash" ("filho do homem"), usada em para descrever a figura que recebe domínio eterno de Deus, é o pano de fundo linguístico do título que os evangelhos atribuem a Jesus mais de oitenta vezes: "Filho do Homem". A palavra bar, portanto, não é apenas um prefixo de sobrenome: em Daniel, ela ajuda a formar uma das expressões mais discutidas e mais citadas da cristologia do Novo Testamento.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:"Barnabé" significa, com certeza filológica, "filho da consolação", como uma tradução literal e definitiva do nome.
apresenta essa tradução, e ela é a leitura mais aceita, mas comentaristas notam que a forma grega Βαρναβᾶς também admitiria derivações como "filho de Nabas" ou "filho de profecia"; é possível que Lucas esteja explicando o sentido do apelido dado ao homem, e não decompondo a palavra letra por letra.
Dizem que:Bar e o hebraico ben são palavras completamente diferentes que, por coincidência, significam a mesma coisa.
São a mesma raiz semítica para "filho", uma em aramaico e outra em hebraico — línguas irmãs. A diferença é dialetal, não de origem: é comparável a duas palavras de línguas latinas próximas que preservam a mesma raiz.
Dizem que:Todo nome com o prefixo "Bar-" no Novo Testamento indica uma relação de sangue com um pai literal e conhecido.
Bar também é usado de forma mais ampla, como em "bar enash" (), onde "filho do homem" é um modo idiomático de dizer "um ser humano" ou "alguém da espécie humana", sem apontar para um pai específico.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Catolicismo e cristianismo patrístico
"Filho do Homem", enraizado no bar enash de , é lido como autodesignação deliberada de Jesus: une a humildade da linguagem idiomática ("um ser humano") à reivindicação velada da figura celeste de Daniel, que recebe domínio eterno do Ancião de Dias.
Protestantismo evangélico clássico
Ênfase semelhante na dupla camada do título — humanidade real de Jesus e autoridade messiânica de — frequentemente destacada como prova de que Jesus reivindicou para si, de modo indireto e progressivo, uma identidade divina que só ficaria plenamente clara após a ressurreição.
Ortodoxia oriental
O título é lido à luz da união das duas naturezas em Cristo: "Filho do Homem" expressa a kenosis, o rebaixamento voluntário do Logos que assume plena humanidade, sem que isso diminua sua glória, manifestada precisamente na cena de que os evangelhos citam.
Correntes histórico-críticas de tradição protestante
Alguns exegetas argumentam que nem toda ocorrência de "Filho do Homem" nos evangelhos aponta necessariamente para ; em vários contextos a expressão aramaica funcionaria apenas como forma indireta de Jesus se referir a si mesmo ("eu"), reservando-se a carga apocalíptica plena a poucas passagens, como .
O que fazer com isso
Reconhecer o prefixo bar ajuda o leitor a perceber que nomes como Barrabás, Bartolomeu e Barnabé não são apenas rótulos: eram, para os primeiros ouvintes, descrições de parentesco ou de caráter, do mesmo modo que hoje um sobrenome de família carrega história. Perceber esse detalhe também prepara o leitor para notar como uma palavra do cotidiano aramaico, "filho", pode aparecer em um texto profético () e ecoar séculos depois na forma como Jesus fala de si mesmo.
Passagens relacionadas13
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Fontes consultadas6 obras
- Brown, Francis; Driver, S.R.; Briggs, Charles A.. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (BDB), 1906.
- Strong, James. Strong's Exhaustive Concordance of the Bible, 1890.
- Vine, W.E.. Vine's Expository Dictionary of Old and New Testament Words, 1940.
- Keil, Carl Friedrich; Delitzsch, Franz. Commentary on the Old Testament (volumes sobre Esdras e Daniel), 1878.
- Bruce, F.F.. The Book of the Acts (New International Commentary on the New Testament), 1988.
- France, R.T.. The Gospel of Matthew (New International Commentary on the New Testament), 2007.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O que significa a palavra "Bar" na Bíblia?
Bar é a palavra aramaica para "filho", equivalente ao hebraico ben. Ela aparece isolada em textos aramaicos do Antigo Testamento e, sobretudo, como prefixo em nomes próprios do Novo Testamento.
Por que tantos nomes do Novo Testamento começam com "Bar-"?
Porque o aramaico era a língua falada no dia a dia na Palestina do século I, e os nomes semitas eram formados indicando de quem a pessoa era filho. Quando esses nomes foram transliterados para o grego dos evangelhos e de Atos, o prefixo bar ficou preservado.
"Bar" e "Ben" significam a mesma coisa?
Sim. Bar é a forma aramaica e ben a forma hebraica da mesma raiz semítica para "filho". É por isso que Barrabás (aramaico) e Benjamim (hebraico) seguem o mesmo padrão de formação de nome.
Qual é a relação entre "Bar" e o título "Filho do Homem" usado por Jesus?
A expressão aramaica "bar enash", "filho do homem", aparece em descrevendo uma figura que recebe domínio eterno de Deus. Jesus usa repetidamente o título "Filho do Homem" nos evangelhos e, em e , aplica explicitamente essa cena de Daniel a si mesmo.
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