Pular para o conteúdo
Significado Bíblico
Dicionário bíblicogregointermediária

Eleos (Misericórdia)

O que significa eleos na Bíblia?

A palavra no original

ἔλεος

eleos · Strong G1656

Compaixão ativa diante do sofrimento ou da necessidade de alguém, traduzida em socorro concreto.

Tudo isto ao mesmo tempo

  • compaixão que se move diante do sofrimento
  • socorro concreto ao necessitado
  • fidelidade de aliança (herança do hebraico chesed)
  • clemência de Deus para com o pecador
  • súplica por piedade (kyrie eleison)

Resposta curta

Eleos (ἔλεος) é a palavra grega para misericórdia: a compaixão que se move diante do sofrimento alheio e age para aliviá-lo. No Novo Testamento ocorre pouco menos de trinta vezes, em passagens como , e . Boa parte do seu peso vem da Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento, na qual eleos é a escolha mais frequente para verter o hebraico chesed, a lealdade amorosa de Deus à sua aliança. Por isso o termo grego carrega mais do que um sentimento de pena: descreve uma atitude concreta, que desce até a necessidade de alguém. É assim que Jesus o usa na parábola do bom samaritano, em que misericórdia é aquilo que se faz, e não apenas aquilo que se sente diante de uma pessoa caída à beira do caminho.

Onde a palavra aparece

Como isso aponta para Jesus

Cumprimento direto

Lucas abre o seu evangelho mostrando a misericórdia de Deus como promessa em vias de cumprimento. O cântico de Maria () diz que Deus socorreu Israel "lembrando-se da sua misericórdia", segundo o que prometeu a Abraão, e o de Zacarias () fala de usar de misericórdia com os pais e lembrar a santa aliança. Os dois textos apresentam o nascimento de Jesus e de João como o momento em que o eleos, prometido de geração em geração, ganha forma histórica. completa o quadro ao convidar a aproximar-se do trono da graça para alcançar misericórdia, tendo em Cristo um sumo sacerdote capaz de se compadecer das fraquezas.

Respaldo no Novo Testamento:

Em palavras simples

Eleos é a palavra grega para misericórdia. No Novo Testamento ela não significa apenas sentir pena de alguém, mas agir para ajudar quem está sofrendo. Os tradutores judeus do Antigo Testamento para o grego usaram eleos para traduzir chesed, a bondade fiel de Deus com o seu povo, e por isso a palavra ganhou o sentido de compaixão que se mostra em atitudes. Jesus a usa na parábola do bom samaritano e a coloca entre as coisas mais importantes da lei. Quando alguém grita 'tem misericórdia de mim', é essa palavra que está por trás.

De onde vem a palavra

No grego anterior ao Novo Testamento, eleos designava a compaixão despertada pela desgraça de alguém que não a merecia. Aristóteles, na Retórica, trata do eleos como emoção ligada ao sofrimento imerecido do outro, e esse uso explica por que a palavra podia soar, para ouvidos gregos, como fraqueza de caráter, um sentimento a ser controlado. A Bíblia grega muda o horizonte. Quando os tradutores judeus da Septuaginta precisaram verter chesed, a palavra hebraica para a bondade leal que Deus mantém com o seu povo, escolheram eleos na grande maioria das ocorrências. Com isso, um termo de emoção passou a nomear um traço da conduta de Deus: ele não apenas sente pena, ele socorre e permanece fiel.

É essa herança que os autores do Novo Testamento recebem. Zacarias, em , louva a Deus por "usar de misericórdia" com os pais de Israel, lembrando-se da santa aliança. Maria, em , diz que a misericórdia de Deus chega "de geração em geração" aos que o temem. Nos dois casos, eleos aparece dentro de uma história de promessa, não como um afeto passageiro.

Nos evangelhos, Jesus faz do eleos um critério de vida em comum. Em e 12:7, ele cita , "misericórdia quero, e não sacrifício", para responder a quem cuidava mais do rito do que das pessoas. Em coloca a misericórdia entre os pesos maiores da lei, ao lado da justiça e da fidelidade. E na parábola do bom samaritano (), a pergunta final, quem foi o próximo do homem ferido, recebe a resposta "aquele que usou de misericórdia para com ele". Misericórdia, ali, tem mãos: atar feridas, transportar, pagar a hospedagem.

Há também o uso litúrgico e de súplica. Cegos e leprosos clamam a Jesus "tem misericórdia de nós" (; ), e dessa fórmula grega, kyrie eleison, vem o antigo "Senhor, tem piedade" da liturgia cristã. Em e , por fim, eleos nomeia o motivo da salvação: Deus é "rico em misericórdia".

Aprofundamento

A palavra ἔλεος (eleos, Strong G1656) é um substantivo neutro da segunda declinação, com o verbo correspondente ἐλεέω (eleeo, "ter misericórdia") e o adjetivo ἐλεήμων (eleemon, "misericordioso"). A etimologia é incerta. Circula a ideia de que eleos teria ligação com elaion, o óleo de oliva, como se a misericórdia fosse um bálsamo derramado sobre a ferida, mas os léxicos tratam essa associação com cautela, e ela deve ser lida como imagem edificante, não como origem comprovada da palavra. Quem quiser trabalhar com solidez deve se apoiar no uso, não na raiz.

O ponto decisivo é a relação com chesed (חֶסֶד). Chesed expressa lealdade e favor dentro de uma relação de aliança; eleos, no grego clássico, expressava piedade diante da miséria alheia. A Septuaginta aproxima os dois campos, e o resultado é que eleos ganha o componente de fidelidade, enquanto chesed, para o leitor grego, ganha o componente de compaixão. Isso não significa equivalência perfeita: a Septuaginta também usa outras palavras para chesed em passagens específicas, e eleos às vezes traduz outros termos hebraicos, como rachamim. Os dois vocábulos se sobrepõem, mas não se confundem.

Outra distinção relevante é entre eleos e charis, graça. Muitos autores da tradição de estudos lexicais, entre eles Trench em seus Synonyms of the New Testament, observam que a misericórdia olha para a miséria de quem recebe, ao passo que a graça olha para a culpa e a gratuidade do favor. Paulo costuma juntar as duas nas saudações das cartas pastorais, "graça, misericórdia e paz" (; ), sem tratar a união como redundância.

Também merece atenção a reciprocidade das bem-aventuranças. Em , os misericordiosos (eleemones) "alcançarão misericórdia" (eleethesontai), e afirma que o juízo é sem misericórdia para quem não a praticou, acrescentando que a misericórdia "triunfa sobre o juízo". Em nenhum dos dois textos a misericórdia humana aparece como moeda que compra a de Deus; o contexto é o de um povo que já vive da misericórdia recebida, como na parábola do servo implacável (), e é chamado a reproduzi-la.

Por fim, e 11:30-32 mostram o termo em uso teológico mais denso. Paulo cita , "terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia", e conclui que a escolha não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que usa de misericórdia. A mesma carta fecha a seção dizendo que Deus encerrou todos na desobediência "para usar de misericórdia para com todos". As tradições cristãs discordam sobre o alcance dessa frase, e o texto sozinho não resolve o debate.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:Misericórdia, na Bíblia, é apenas um sentimento de pena ou compaixão interior.

    No uso bíblico, eleos costuma vir acompanhado de ação. Na parábola do bom samaritano, a misericórdia é descrita por atos (), e critica quem deseja bem a alguém necessitado sem lhe dar o necessário.

  • Dizem que:Eleos vem de elaion (óleo), de modo que a palavra significa literalmente 'óleo derramado sobre a ferida'.

    A associação circula em sermões e devocionais, mas a etimologia de eleos é incerta, e os léxicos não confirmam essa derivação. A imagem do óleo sobre a ferida é bela (), mas não é a origem comprovada da palavra.

  • Dizem que:Misericórdia e graça são sinônimos exatos.

    São termos próximos, mas distintos. A graça (charis) enfatiza o favor gratuito, imerecido, ao passo que a misericórdia (eleos) enfatiza a compaixão diante da miséria. Paulo as junta em saudações como justamente por não serem a mesma coisa.

Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Católica

    Organiza a misericórdia nas chamadas obras de misericórdia corporais e espirituais, vistas como expressão prática do eleos recebido de Deus, e lê como critério para o juízo final.

  • Reformada

    Enfatiza a misericórdia como atributo de Deus que fundamenta a salvação gratuita (; ), e entende as obras de misericórdia dos fiéis como fruto, não causa, do favor já recebido.

  • Ortodoxa

    Destaca o Kyrie eleison como oração central da liturgia e da Oração de Jesus, entendendo o eleos como a ação de Deus que cura e restaura o ser humano, mais do que como indulgência jurídica.

  • Judaico-messiânica

    Faz a ponte direta entre eleos e chesed, lendo a misericórdia do Novo Testamento como continuação da fidelidade de aliança do Antigo e destacando a citação de feita por Jesus.

O que fazer com isso

A leitura de eleos corrige uma tentação comum: tratar misericórdia como sentimento privado, que se esgota em lamentar. O uso bíblico pede o gesto concreto, como no samaritano que cuidou do ferido. Vale perguntar, sem fórmulas, quem está hoje no caminho e o que estaria ao alcance fazer por essa pessoa, sabendo que a própria Escritura apresenta quem socorre como alguém que antes foi socorrido.

Passagens relacionadas6

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas5 obras
  • Bauer, W.; Danker, F. W.. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 2000.
  • Trench, R. C.. Synonyms of the New Testament, 1854.
  • Kittel, G.; Friedrich, G. (orgs.). Theological Dictionary of the New Testament, 1964.
  • Aristóteles. Retórica.
  • Strong, J.. Strong's Exhaustive Concordance of the Bible, 1890.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Eleos é a mesma coisa que chesed?

Não são idênticas, mas estão ligadas. Os tradutores da Septuaginta usaram eleos para verter chesed na maioria das ocorrências, e por isso o termo grego passou a carregar a ideia de lealdade de aliança, além de compaixão. A Septuaginta, porém, também emprega outras palavras para chesed em alguns trechos.

O que quer dizer Kyrie eleison?

É a expressão grega "Senhor, tem misericórdia" ou "Senhor, tem piedade". Vem de pedidos feitos a Jesus nos evangelhos, como em e , e entrou cedo na liturgia cristã, onde permanece em várias tradições.

Em quais textos eleos aparece com mais destaque?

Entre os mais lembrados estão (as bem-aventuranças), e 1:72 (os cânticos de Maria e Zacarias), (o bom samaritano), e , onde a misericórdia é apresentada como motivo da salvação.

Misericórdia humana pode 'merecer' a de Deus?

e ligam a misericórdia que se recebe à que se pratica, mas o contexto geral do Novo Testamento a apresenta como resposta ao que já foi recebido (), e não como pagamento. As tradições cristãs divergem sobre como equilibrar esses textos.

Palavras próximas

Temas

  • No grego
  • #eleos
  • #misericordia
  • #septuaginta
  • #chesed
  • #compaixao
  • #bom-samaritano

Publicado em 07/11/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • ἔλεος (eleos) em grego, Strong G1656
  • 5 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

Uma explicação nova por semana

Sem devocional, sem corrente e sem promoção. Só o verbete da semana, com o contexto que normalmente fica de fora. Todo e-mail leva um link para sair, e sair é imediato.

Esta palavra nas passagens explicadas

Tito 3:5 e a salvação que não vem das obras

Em Tito 3:5, Paulo resume sua doutrina da salvação numa frase só: Deus "não pelas obras de justiça que nós tivéssemos feito, mas sim segundo sua misericórdia, ele nos salvou". Paulo não diz que as obras não têm valor, mas que elas não são o fundamento pelo qual Deus decide agir a favor de alguém. Esse contraste entre esforço humano e iniciativa divina aparece também em Romanos e Efésios, núcleo da doutrina paulina da graça.

Ler explicação →
Teologia densaOseias 11:8-9

'Como te abandonarei, Efraim?': o conflito interno atribuído a Deus

Oseias 11:8-9 apresenta uma das cenas mais intensas emocionalmente de toda a literatura profética: Deus pergunta, quase em angústia, "como te abandonarei, Efraim? como te entregarei, Israel?", comparando a decisão de destruir totalmente o povo à destruição já ocorrida de Admá e Zeboim, cidades associadas a Sodoma e Gomorra. No versículo seguinte, Deus declara que seu coração se comove e que não executará o furor completo de sua ira, justificando essa decisão com a afirmação "porque sou Deus, e não homem". O texto usa linguagem intensamente humana, quase parental, para descrever um debate interno divino entre justiça retributiva e compaixão paternal, sem resolver essa tensão de forma simplista ou mecânica.

Ler explicação →
Teologia densaÊxodo 34:6-7

“Compassivo e misericordioso”: a definição que Deus dá de si mesmo em Êxodo 34

Em Êxodo 34:6-7, o SENHOR passa diante de Moisés e proclama o próprio nome e caráter: compassivo, misericordioso, tardio em irar-se, grande em bondade e fidelidade, perdoador, mas que não declara inocente o culpado e que visita a iniquidade dos pais nos filhos. Essa fórmula é retomada em Números, Neemias, Salmos, Joel, Jonas e Naum, o que a torna uma das descrições mais citadas de Deus no Antigo Testamento. O verbete examina o gancho central da passagem: a convivência entre misericórdia e justiça na mesma proclamação, a diferença de escala entre “mil gerações” de bondade e “três ou quatro” de consequências, e como a frase sobre os filhos deve ser lida junto a Ezequiel 18 e Deuteronômio 24:16.

Ler explicação →

"Lavrai o campo novo": o que Oseias 10:12 pede a Israel?

Em Oseias 10:12, o profeta usa a linguagem do campo para chamar Israel ao arrependimento: "Semeai para vós em justiça, ceifai segundo a misericórdia; lavrai o campo novo, pois é tempo de buscar ao Senhor, até que ele venha e chova justiça sobre vós". A metáfora é agrícola e tem lógica clara: quem semeia justiça colhe fruto de lealdade, e o solo duro do coração precisa ser arado antes da semente. A expressão "campo novo" (nir, em hebraico) designa terra deixada sem cultivo, que exige trabalho pesado para voltar a produzir. O versículo contrasta com o contexto, em que Israel semeou impiedade e colheu iniquidade (v. 13). O chamado é urgente, e a chuva da justiça é dom de Deus, e não resultado automático do esforço humano.

Ler explicação →