Ego Eimi (Eu Sou)
O que significa Ego Eimi na Bíblia?
A palavra no original
ἐγώ εἰμι
egō eimi
Eu sou, formado pelo pronome de primeira pessoa e pelo verbo ser, usado como identificação ou, em João, como autodeclaração.
Tudo isto ao mesmo tempo
- identificação pessoal (sou eu)
- autodeclaração de Jesus em João
- eco do nome divino
- uso com predicado e uso absoluto
- Septuaginta de Êxodo e Isaías
Resposta curta
Ego eimi (ἐγώ εἰμι) é a expressão grega que significa "Eu sou", formada pelo pronome "eu" e pelo verbo "ser". É característica do Evangelho de João, em que aparece em dois tipos de frase. Com predicado, Jesus completa a frase com uma imagem: "Eu sou o pão da vida", "a luz do mundo", "o bom pastor". Sem predicado, ele diz apenas "Eu sou", como em e 18:5-6.
O uso absoluto lembra o "Eu Sou" de e as declarações de Deus em Isaías na Septuaginta (por exemplo, ), e por isso muitos leitores veem nele uma declaração de identidade divina. Nem todo "ego eimi" tem esse peso, já que a expressão também é uma forma comum de dizer "sou eu"; o contexto de cada passagem é que decide o seu alcance.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoAs declarações de Jesus em João percorrem uma trajetória que parte do "Eu sou" dito por Deus a Moisés () e repetido nas declarações de Isaías na Septuaginta, e chega às falas do Evangelho de João. Em , a afirmação de existência anterior a Abraão e a reação dos ouvintes indicam que Jesus assume para si a linguagem da identidade divina. As declarações com predicado, como o pastor e a videira, retomam imagens que o Antigo Testamento usa para o Senhor e para Israel, e as aplicam a Jesus.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Em palavras simples
Ego eimi é a expressão grega para "Eu sou". No Evangelho de João, aparece de dois modos. Num, Jesus completa a frase com uma imagem, como "Eu sou o pão da vida" ou "Eu sou o bom pastor". No outro, diz apenas "Eu sou", como em , e isso lembra a resposta de Deus a Moisés em . Nem todo "ego eimi" tem esse peso, pois a expressão também pode significar apenas "sou eu". O contexto mostra qual é o caso.
De onde vem a palavra
Em grego, o pronome ἐγώ ("eu") não precisa aparecer com o verbo εἰμί ("sou"), porque a forma verbal já indica a pessoa. Quando aparece, costuma haver ênfase. Na fala cotidiana, ἐγώ εἰμι podia ser simplesmente "sou eu", a resposta a quem pergunta quem é. É assim em , em que o homem curado da cegueira, questionado sobre sua identidade, responde "sou eu", e em , em que Jesus tranquiliza os discípulos no barco: "Sou eu; não temais".
No Evangelho de João, o uso é muito mais frequente e carregado de significado. Há as declarações com predicado, tradicionalmente contadas em sete: o pão da vida (6:35, 48), a luz do mundo (8:12; 9:5), a porta (10:7, 9), o bom pastor (10:11, 14), a ressurreição e a vida (11:25), o caminho, a verdade e a vida (14:6) e a videira verdadeira (15:1, 5). Cada uma une a pessoa de Jesus a uma imagem do Antigo Testamento, como o maná, a luz, o pastor de Israel e a vinha de Israel, que ele reivindica em si mesmo.
Há também as declarações absolutas, sem predicado. Em , Jesus diz que, se não crerem que "eu sou", morrerão nos seus pecados. Em 8:28, "quando levantardes o Filho do Homem, então conhecereis que eu sou". Em 8:58, ele afirma: "Antes que Abraão existisse, eu sou", e em seguida os ouvintes pegam pedras para apedrejá-lo (8:59). Em 13:19, ele diz que conta as coisas antes que aconteçam, para que creiam que "eu sou". Em 18:5-6, ao ser preso, ele responde "Eu sou" aos que procuravam Jesus de Nazaré, e eles recuam e caem por terra.
O pano de fundo é o Antigo Testamento. Em , a Septuaginta traduz a resposta de Deus a Moisés por ἐγώ εἰμι ὁ ὤν, "Eu sou o que é". Em :4 e 52:6, a Septuaginta usa ἐγώ εἰμι para o hebraico ani hu, "eu sou ele", nas declarações em que o Senhor afirma ser o único Deus. Esse eco é o argumento principal para ver nas falas de João uma referência ao nome divino.
Aprofundamento
O primeiro ponto é gramatical. Em , o contraste é entre "Abraão existisse" (genesthai, aoristo, que indica vir a ser) e "eu sou" (eimi, presente, que indica existência). A construção sugere uma existência que não teve começo, em contraste com a de Abraão, que veio a existir. Alguns gramáticos descrevem o presente como "presente de extensão a partir do passado", comparável a "estou aqui há três horas", o que apoia traduzir como "eu tenho sido". A resposta de quem ouve, a tentativa de apedrejamento, indica que os ouvintes entenderam uma pretensão extraordinária, ainda que o texto não explique qual. Mesmo nessa leitura gramatical, o contraste com genesthai e a reação imediata dos ouvintes mantêm aberta a interpretação de uma existência sem começo, defendida por muitos comentaristas, enquanto outros preferem ver apenas uma pré-existência superior à de Abraão.
O segundo ponto é a diversidade de usos absolutos. Nem todos têm o mesmo peso. Em , é natural ler "sou eu" como identificação, mas a reação em 18:6 (recuar e cair) sugere que João quer que o leitor ouça algo mais. Raymond Brown, em seu comentário, separa os usos com predicado, os usos absolutos em que um predicado pode ser subentendido (8:24, 28; 13:19) e o de 8:58, em que a alusão ao nome divino é mais clara. Outros, como D. A. Carson, enfatizam que o evangelista constrói as declarações para que se leia mais do que a mera identificação, sem que seja necessário que cada ocorrência seja um nome divino.
O terceiro ponto é o pano de fundo hebraico. A expressão hebraica ani hu, "eu sou ele", aparece em e ; 43:10, 13; 46:4; 48:12, e a Septuaginta a traduz muitas vezes por ἐγώ εἰμι. Isso significa que, mesmo sem recorrer a , os leitores gregos do Antigo Testamento encontravam a fórmula como autodeclaração do Senhor. Richard Bauckham defendeu que João usa essa fórmula para incluir Jesus na identidade única de Deus.
O quarto ponto é a variedade de traduções. Algumas versões vertem como "antes que Abraão existisse, eu sou", outras, em linguagem mais interpretativa, como "eu já existia", e a Tradução do Novo Mundo, das Testemunhas de Jeová, como "eu tenho existido". O texto grego, com a sua ambiguidade controlada, não se reduz a uma única fórmula, e a escolha de tradução já é uma interpretação. Para o leitor de português, o mais prudente é comparar versões e notar, em cada passagem, se há predicado, se há eco do Antigo Testamento e como os personagens reagem.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Toda ocorrência de "ego eimi" no Novo Testamento é o nome divino de Êxodo 3:14.
A expressão também é a forma comum de dizer "sou eu", como em , na boca do cego curado, e em . O peso teológico depende do contexto e, nas passagens absolutas de João, do eco do Antigo Testamento.
Dizem que:Êxodo 3:14 na Septuaginta diz apenas "ego eimi", que é igual ao que Jesus diz em João.
A Septuaginta traz ἐγώ εἰμι ὁ ὤν, "Eu sou o que é", uma expressão mais longa. O hebraico é ehyeh asher ehyeh. O vínculo com João se apoia no eco da fórmula, e também nas falas de Isaías, e não em uma identidade literal de texto.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Nicena (católica, ortodoxa e protestante histórica)
Lê e os usos absolutos como reivindicação de identidade divina, em continuidade com e Isaías, em apoio à doutrina de que o Filho é Deus com o Pai.
Testemunhas de Jeová
Traduz como "eu tenho existido" e entende que Jesus afirma existência anterior a Abraão, sem identificá-lo com o nome divino de , nem com o próprio Deus.
Histórico-crítica
Reconhece o eco de Isaías e Êxodo, mas observa que os usos variam e que o peso de cada ocorrência deve ser julgado pelo contexto, com João construindo uma cristologia progressiva ao longo do evangelho.
O que fazer com isso
Ao ler as declarações "Eu sou" em João, vale notar se há predicado, qual imagem do Antigo Testamento está por trás e o que as pessoas ao redor entendem. Distinguir os usos evita duas simplificações: tratar todo "Eu sou" como nome divino, ou ignorar o eco de nas passagens em que ele é mais evidente. A leitura atenta dá mais peso a cada frase.
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Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas5 obras
- Brown, R. E.. The Gospel according to John I-XII (Anchor Bible), 1966.
- Carson, D. A.. The Gospel according to John (Pillar New Testament Commentary), 1991.
- Bauckham, R.. Jesus and the God of Israel, 2008.
- Köstenberger, A. J.. John (Baker Exegetical Commentary on the New Testament), 2004.
- Wallace, D. B.. Greek Grammar Beyond the Basics, 1996.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Quantas declarações "Eu sou" com predicado há em João?
A tradição conta sete: pão da vida, luz do mundo, porta, bom pastor, ressurreição e vida, caminho, verdade e vida, e videira verdadeira. A contagem é convencional e pode variar conforme se agrupem as frases.
Por que os judeus quiseram apedrejar Jesus em João 8:59?
O texto liga a reação à afirmação "antes que Abraão existisse, eu sou". O evangelista não explica em detalhes, mas a leitura mais comum entende que os ouvintes viram uma pretensão a algo que só a Deus cabia, o que a lei punia como blasfêmia.
Os outros evangelhos usam ego eimi?
Sim, mas de forma menos marcada. Em é o 'sou eu' dito aos discípulos, e em é a resposta de Jesus ao sumo sacerdote, cujo peso é debatido. Em , a resposta é indireta.
Ego eimi sempre se traduz por "Eu sou"?
Nem sempre. Em contextos de identificação, 'sou eu' é mais natural. Em , algumas versões usam 'eu sou' e outras 'eu já existia', e cada escolha reflete uma leitura.
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