Bema (Tribunal, Estrado)
O que é o bema, o tribunal de Cristo em 2 Coríntios 5:10?
A palavra no original
βῆμα
bêma · Strong G968
Estrado elevado, degrau ou plataforma, e por extensão o tribunal de onde o magistrado julga.
Tudo isto ao mesmo tempo
- estrado e plataforma
- tribunal de julgamento
- autoridade pública
- prestação de contas
- degrau ou passo
Resposta curta
Bema (βῆμα) é, em grego, o estrado elevado ou a plataforma onde se sentava quem presidia um julgamento ou falava em público; por extensão, o próprio tribunal. O Novo Testamento usa a palavra para o lugar de Pilatos (; ), para Paulo diante do procônsul Gálio em Corinto () e para o "tribunal de Cristo" em , ao lado de , onde os manuscritos divergem entre "de Deus" e "de Cristo". Em português, "tribunal" já é a palavra mais próxima. O cenário romano mostra uma imagem de prestação de contas pública, e o debate entre as tradições cristãs diz respeito ao que está em jogo nesse julgamento, e não ao sentido da palavra.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
ContrasteJesus esteve diante do bema de Pilatos como réu (; ), e o Novo Testamento afirma que esse mesmo Jesus é o juiz diante de quem todos comparecerão (; ). A palavra marca a inversão: o julgado de um tribunal humano é quem julgará, e o julgamento de Cristo na cruz é a base da esperança de quem comparece diante dele.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Em palavras simples
Bema é a palavra grega para o estrado elevado de onde um juiz ouvia as causas, e por extensão para o tribunal. Aparece quando Pilatos senta-se para julgar Jesus (), quando Paulo é levado diante de Gálio em Corinto () e quando Paulo escreve sobre o tribunal de Cristo em . O leitor da época conhecia bem a cena: uma plataforma pública, o juiz sentado, as pessoas diante dele. A imagem fala de prestar contas de modo aberto. Os cristãos divergem sobre o que exatamente é avaliado nesse tribunal.
De onde vem a palavra
No mundo grego e romano, o bema era uma estrutura física: uma plataforma elevada, de pedra ou madeira, de onde o magistrado ouvia causas e proferia sentenças, ou de onde um orador falava ao público. Era um elemento visível de autoridade. Em muitas cidades ficava no centro da praça pública, e quem se apresentava diante dele ficava sob os olhos de todos.
O Novo Testamento usa a palavra em vários cenários. Em , Pilatos está sentado "no tribunal" quando recebe o aviso da esposa sobre Jesus; em , ele leva Jesus para fora e senta-se no bema, num lugar chamado Pavimento, em hebraico Gabatá. Em , Herodes Agripa senta-se no bema e discursa ao povo de Tiro e Sidom. Em , Festo julga Paulo "no tribunal" em Cesareia, e Paulo, em , declara estar diante do tribunal de César, onde deve ser julgado.
O caso de Corinto é especialmente instrutivo. conta que os judeus levaram Paulo ao bema de Gálio, procônsul da Acaia, que se recusou a julgar a questão. Em Corinto, escavações arqueológicas identificaram uma grande plataforma na área central do fórum, geralmente tomada como o bema onde ocorreu a cena. Uma inscrição encontrada em Delfos, com uma carta do imperador Cláudio, menciona Gálio como procônsul e serve de âncora para a cronologia da vida de Paulo, em torno dos anos 51 a 52.
Por isso, quando Paulo escreve aos coríntios que "todos devemos comparecer perante o tribunal de Cristo" (), a imagem era imediata para quem lera ou vira a cena em sua própria cidade. usa a mesma palavra, no contexto de uma discussão sobre alimentos e dias, para advertir que ninguém deve julgar o irmão, porque todos serão julgados. Em há ainda um uso não jurídico: Deus não deu a Abraão nem um bema podos, o espaço de um pé, na terra prometida.
Aprofundamento
O substantivo βῆμα (Strong G968) vem de uma raiz ligada ao verbo baino, "andar, dar um passo", e o sentido primitivo é de degrau ou passada, como em , "nem o espaço de um pé". Daí passou a designar o degrau elevado, a plataforma e, por fim, a cadeira ou o tribunal de onde se julga. Os léxicos como o BDAG registram esses sentidos e notam que, no Novo Testamento, o uso predominante é o de "tribunal".
As duas passagens que falam do bema de Cristo ou de Deus pedem atenção filológica. Em o texto diz que todos devemos ser manifestados "diante do tribunal de Cristo", para que cada um receba "conforme o que praticou por meio do corpo, seja bem, seja mal". O verbo "comparecer" (phanerothenai) indica ser tornado visível, aberto, e não apenas apresentar-se. Em , os manuscritos mais antigos e a maioria dos editores críticos trazem "tribunal de Deus" (tou theou), enquanto a tradição bizantina, que está por trás da Almeida Corrigida e da Almeida Revista e Corrigida, traz "tribunal de Cristo" (tou christou). O contexto de fala de todos se curvando diante de Deus e prestando contas a ele, o que combina com a leitura crítica, e Metzger discute a variante em seu comentário textual. Em termos teológicos a diferença é pequena, já que Paulo mostra em outros lugares que o juízo de Deus é exercido por Cristo (; ).
Uma ideia muito difundida em círculos evangélicos diz que o bema de se inspira nos jogos atléticos gregos, em que juízes premiavam os vencedores de um estrado, e que por isso o julgamento de Cristo seria apenas de premiação para os crentes. A associação com o prêmio atlético existe em outros textos de Paulo (), mas os versículos aqui falam de receber conforme o que foi feito, "seja bem, seja mal", e a palavra bema, nos textos bíblicos, designa tribunais de tipo judicial. A fonte primária não menciona o estádio. Quem defende a leitura atlética a faz por analogia, não por indicação textual direta.
O que o bema afirma de maneira firme é a ideia de prestação de contas pública e individual: "cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus" (). O debate teológico se concentra em outro ponto, a relação entre esse julgamento e a justificação pela fé: se a destinação eterna já está resolvida () e se o bema trata das obras e de sua avaliação, ou se envolve algo mais. Paulo, em , fala de obras que resistem ou são queimadas, sem usar a palavra bema, e muitos intérpretes aproximam os dois textos.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:O bema de Cristo só trata de prêmios e nunca de juízo.
diz que cada um receberá conforme o que fez "seja bem, seja mal". Muitas tradições entendem que há avaliação de ambos os tipos de obra, ainda que debatam seu alcance; ver o texto como limitado a prêmios é uma interpretação, e não a única possível.
Dizem que:Em Romanos 14:10 o texto original diz com certeza "tribunal de Cristo".
Os manuscritos divergem. A maioria dos editores críticos segue a leitura "tribunal de Deus"; a tradição bizantina, que está na base da Almeida Corrigida, traz "de Cristo". Em termos de sentido, a diferença é pequena, mas a afirmação de certeza não procede.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Dispensacionalista
Vê o bema de Cristo como um evento distinto, depois do arrebatamento, em que os crentes são avaliados quanto às obras para recompensa, e separa esse momento do juízo dos incrédulos no grande trono branco ().
Reformada
Entende que o crente já foi absolvido em Cristo () e que o bema manifesta publicamente as obras como fruto e evidência, com recompensa graciosa, sem pôr em dúvida a salvação.
Católica
Associa a passagem ao juízo particular e ao juízo final, no qual a pessoa recebe conforme suas obras, em cooperação com a graça, e relaciona com a purificação após a morte.
Luterana
Mantém que o julgamento das obras no último dia não contradiz a justificação pela fé, porque as boas obras são frutos da fé e dão testemunho dela; a salvação não depende do mérito.
O que fazer com isso
A imagem do bema lembra que a vida cristã não acontece sem prestação de contas, mas o contexto de Paulo não é de terror. Em , o tribunal vem ao lado da confiança e do desejo de agradar ao Senhor. Em , serve para frear o hábito de julgar o irmão, porque o julgamento final pertence a Deus.
Passagens relacionadas7
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Fontes consultadas5 obras
- Danker, F.W. (ed.). A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 3ª ed., 2000.
- Harris, M.J.. The Second Epistle to the Corinthians (New International Greek Testament Commentary), 2005.
- Metzger, B.M.. A Textual Commentary on the Greek New Testament, 2ª ed., 1994.
- Murphy-O'Connor, J.. St. Paul's Corinth: Texts and Archaeology, 1983.
- Moo, D.J.. The Epistle to the Romans (New International Commentary on the New Testament), 1996.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O bema de Cristo é o mesmo que o juízo final?
Depende da tradição. Dispensacionalistas separam o bema, para crentes, do trono branco de , para incrédulos. Reformados, católicos e luteranos em geral veem um só juízo final, no qual todos comparecem. Os textos de Paulo falam de "todos" sem detalhar uma divisão em fases.
O bema serve só para dar prêmios?
O texto de fala de receber conforme o que foi feito, "seja bem, seja mal". Algumas tradições entendem o bema como avaliação de obras para recompensa dos crentes, outras como juízo mais amplo. A palavra em si designa o tribunal, não uma cerimônia de premiação.
Onde ficava o bema de Gálio em Corinto?
As escavações identificaram uma grande plataforma no fórum de Corinto, comumente associada ao bema da cena de . A identificação é razoável, mas depende de interpretação arqueológica. Uma inscrição de Delfos sobre Gálio ajuda a situar o episódio por volta dos anos 51 e 52.
Em Romanos 14:10 o tribunal é de Deus ou de Cristo?
Os manuscritos divergem. Os editores críticos geralmente seguem "tribunal de Deus", enquanto a tradição bizantina traz "de Cristo". Como o Novo Testamento atribui o juízo de Deus a Cristo (), a diferença de sentido é pequena.