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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Teologia densa

Paulo usa "contra a natureza" em outro lugar — sobre Deus

O que Romanos 1:26-27 diz sobre relações entre pessoas do mesmo sexo?

Por isso, Deus os entregou a paixões infames. Pois até suas mulheres trocaram o hábito sexual natural pelo que era contra a natureza; e também, de semelhante maneira, os machos abandonaram o hábito sexual natural com a mulher, e acenderam sua sensualidade uns com os outros, homens com homens, praticando indecência, e recebendo em si mesmos a devida retribuição pelo seu erro.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

É o texto mais citado do Novo Testamento nesta discussão, e há dois dados sobre ele que quase nunca aparecem quando é citado.

O primeiro é gramatical. A expressão traduzida por "contra a natureza" reaparece dez capítulos adiante, em — e ali quem age contra a natureza é Deus, enxertando o ramo de oliveira brava na oliveira cultivada. A expressão, portanto, não é termo técnico para mal intrínseco.

O segundo é estrutural, e é o mais importante. O trecho faz parte de um catálogo de degradação que começa em 1:18 e que qualquer ouvinte judeu-cristão aplaudiria — e o versículo seguinte ao fim dele, 2:1, vira tudo contra quem estava aplaudindo: portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas.

O texto é uma armadilha montada para quem cita.

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

O trecho é a primeira etapa de um argumento que termina em 3:23-24 — todos pecaram e são justificados gratuitamente pela graça, mediante a redenção que há em Cristo. A degradação descrita no capítulo 1 e o julgamento do capítulo 2 existem para chegar a essa conclusão, e nenhuma das duas partes é o ponto de chegada. Ler 1:26-27 como destino final do argumento é parar no meio da frase.

Respaldo no Novo Testamento: ; ;

Em palavras simples

Esse é o texto mais citado do Novo Testamento nessa discussão, e há dois detalhes pouco conhecidos. Primeiro: a mesma expressão traduzida como "contra a natureza" aparece, dez capítulos depois, para descrever uma ação do próprio Deus — o que mostra que ela, sozinha, não significa "algo essencialmente mau"; o peso negativo aqui vem do contexto ao redor.

Segundo, e mais importante: esse trecho faz parte de um argumento maior que termina virando-se contra quem julga — a frase seguinte diz "portanto, você não tem desculpa, quem quer que seja, quando julga os outros". Usar esse texto isoladamente para condenar alguém é fazer exatamente o que o argumento, logo depois, chama de indesculpável. Sobre o alcance exato do que ele descreve, há discussão séria e sem consenso.

Contexto histórico

Romanos é a carta mais argumentativa de Paulo, escrita a uma igreja que ele ainda não conhecia, e a estrutura dos primeiros capítulos é de construção de um caso.

O caso é que todos precisam do evangelho. Para chegar lá, Paulo constrói em três etapas.

A primeira, de 1:18 a 1:32, descreve a degradação dos gentios a partir da idolatria. A segunda, no capítulo 2, se volta contra quem julgava. A terceira, em 3:9 a 3:20, conclui: não há justo, nem um sequer.

O trecho deste verbete está na primeira etapa, e a lógica dela é encadeada por um verbo repetido três vezes — Deus os entregou. Nos versículos 24, 26 e 28.

O que vem antes desse verbo é sempre a mesma coisa: trocaram a verdade de Deus pela mentira e adoraram a criatura em lugar do Criador.

As condutas descritas depois, portanto, não são apresentadas como a raiz. São apresentadas como consequência de um deslocamento anterior, e o texto as chama de sinal.

A lista continua nos versículos 29 a 31, e inclui inveja, contenda, maledicência, desobediência aos pais e falta de misericórdia — sem hierarquia entre os itens.

Aprofundamento

Convém separar três perguntas que costumam ser respondidas como se fossem uma.

**O que Paulo descreve.** O versículo 26 fala de mulheres que trocaram o uso natural pelo contra a natureza, e o 27 fala de homens que abandonaram o uso natural da mulher e se inflamaram uns com os outros. Este é o único texto da Bíblia que menciona relações entre mulheres — e mesmo isso é disputado, porque o versículo 26 não especifica com quem elas trocaram. Alguns comentaristas antigos leram ali atos não procriativos entre homem e mulher. A leitura majoritária é a de relações entre mulheres, apoiada no paralelo explícito do versículo 27.

**O que Paulo pensa disso.** O vocabulário em torno é inequivocamente negativo: paixões infames, indecência, erro. Quem tenta ler o trecho como descrição neutra está contrariando as palavras.

É aqui que entra o dado de . A expressão grega traduzida por "contra a natureza" é a mesma que Paulo usa para descrever a ação salvadora de Deus com os gentios, dez capítulos adiante. Isso não torna o trecho positivo — o contexto de 1:26 é claramente negativo. O que o dado estabelece é mais modesto e ainda assim relevante: a expressão não carrega, por si, o sentido de violação de uma ordem imutável. Ela significa contra o que se espera, contra o costume, fora do padrão. O peso negativo em 1:26 vem do contexto, não da expressão.

**O que decorre disso hoje.** Esta é a pergunta em que os comentaristas mais divergem, inclusive entre os que concordam nas duas primeiras.

De um lado, sustenta-se que Paulo descreve atos entre pessoas do mesmo sexo em termos gerais — machos com machos, mulheres com mulheres — e que a descrição não depende de circunstância. Este lado observa que o texto não menciona exploração, culto pagão nem pederastia, embora essas fossem as formas mais visíveis no mundo greco-romano.

Do outro, sustenta-se que o que Paulo tinha diante dos olhos eram justamente essas formas, e que aplicar a descrição a relações estáveis e recíprocas é estender o texto a um objeto que ele não conhecia. Este lado se apoia também no vocabulário de excesso — inflamar-se, sensualidade — e na estrutura de idolatria que abre o trecho.

O primeiro explica melhor a generalidade das palavras. O segundo explica melhor o quadro histórico. Nenhum dos dois resolve o outro, e quem apresenta a questão como fechada está omitindo metade da literatura.

O que não se sustenta é uma terceira posição, às vezes apresentada: a de que Paulo estaria descrevendo pessoas agindo contra a própria orientação. O texto não usa nenhuma categoria de disposição individual, e ler orientação aqui é o mesmo anacronismo que se atribui ao lado contrário.

Por fim, o dado estrutural. O catálogo de 1:18-32 termina e o capítulo 2 abre com "portanto". A palavra grega é a de conclusão lógica, e o que ela conclui é que quem julga está sem desculpa. Comentaristas de todas as posições reconhecem que a função retórica do trecho é preparar essa virada.

Usar 1:26-27 isoladamente contra alguém é, portanto, executar exatamente o movimento que 2:1 declara indesculpável.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:"Contra a natureza" é uma expressão técnica para mal intrínseco.

    A mesma expressão grega aparece em descrevendo a ação de Deus ao enxertar o ramo de oliveira brava na cultivada. Ela significa contra o costume ou fora do padrão; o peso negativo em 1:26 vem do contexto, não da expressão.

  • Dizem que:O trecho pode ser lido isoladamente.

    O catálogo termina e o capítulo 2 abre com "portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas". A conjunção é de conclusão lógica, e comentaristas de todas as posições reconhecem que a função retórica do trecho é preparar essa virada.

  • Dizem que:Paulo descreve pessoas agindo contra a própria orientação.

    O texto não usa nenhuma categoria de disposição individual, e a noção de orientação é moderna. Essa leitura comete o mesmo anacronismo que costuma atribuir ao lado contrário.

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Descrição geral dos atos

    Entende que Paulo descreve relações entre pessoas do mesmo sexo em termos gerais, sem depender de circunstância. Observa que o texto não menciona exploração, culto pagão nem pederastia. Explica melhor a generalidade das palavras.

  • Descrição das formas conhecidas no mundo greco-romano

    Entende que o que Paulo tinha diante dos olhos eram pederastia, relações entre senhor e escravo e excesso, e que aplicar o texto a relações estáveis e recíprocas o estende a um objeto desconhecido dele. Explica melhor o quadro histórico.

No original3 termos
  • παρὰ φύσινpara physin

    "Contra a natureza". A mesma expressão descreve, em , a ação de Deus ao enxertar o ramo de oliveira brava. Significa contra o costume, fora do padrão.

  • παρέδωκενparedoken

    "Entregou". Verbo repetido três vezes no capítulo, nos versículos 24, 26 e 28, sempre depois da troca do Criador pela criatura. Estrutura o trecho como consequência, não como raiz.

  • διόdio

    "Portanto", em 2:1. Conjunção de conclusão lógica: o que se conclui do catálogo inteiro é que quem julga está sem desculpa.

O que fazer com isso

A instrução de uso deste texto está dentro dele, e é a coisa mais concreta que ele oferece.

O catálogo do capítulo 1 termina numa conclusão que se volta contra o leitor. Não é uma aplicação piedosa acrescentada por comentaristas: é a frase seguinte, ligada por uma conjunção de consequência.

Isso não anula o que os versículos dizem. Anula um uso específico deles — o de recortar o trecho para apontar terceiros —, e o anula pelo próprio argumento de Paulo.

Há também a companhia dos versículos 29 a 31, que costuma ser ignorada. Na mesma lista, com a mesma gravidade declarada, estão maledicência, inveja, contenda, desobediência aos pais e falta de misericórdia. Paulo não hierarquiza, e qualquer leitura que isole um item da lista está fazendo uma escolha que o texto não faz.

E há o registro histórico. Este texto, junto com Levítico e 1 Coríntios, sustentou legislação penal contra pessoas em vários países, inclusive com pena de morte. Isso é fato documentado, não interpretação, e quem cita o trecho hoje está manejando um texto com essa biografia.

Passagens relacionadas6

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas4 obras
  • Henry Alford. The Greek Testament, 1863.
  • Marvin Vincent. Word Studies in the New Testament, 1887.
  • Joseph Henry Thayer. A Greek-English Lexicon of the New Testament, 1889.
  • Albert Barnes. Notes on the Bible, 1834.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Este é o único texto bíblico sobre relações entre mulheres?

É o único que a menciona, e mesmo isso é disputado: o versículo 26 não especifica com quem elas trocaram, e alguns comentaristas antigos leram ali atos não procriativos entre homem e mulher. A leitura majoritária apoia-se no paralelo explícito do versículo 27.

O trecho é neutro ou negativo?

É negativo. O vocabulário em torno — paixões infames, indecência, erro — não permite lê-lo como descrição neutra, e quem tenta está contrariando as palavras.

Por que a lista dos versículos 29 a 31 quase nunca é citada junto?

Ela inclui maledicência, inveja, contenda, desobediência aos pais e falta de misericórdia, sem hierarquia declarada. Isolar um item da lista é uma escolha do leitor, e não do texto.

Temas

Publicado em 31/08/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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