
O que significa “não te indignes por causa dos malfeitores” no Salmo 37?
Por que o Salmo 37 manda não se irritar com os malfeitores, e o que quer dizer confiar, fazer o bem e habitar na terra?
Não te irrites com os malfeitores, nem tenhas inveja dos que praticam perversidade. Porque assim como a erva, eles logo serão cortados; e como a verdura eles cairão. Confia no SENHOR, e faze o bem; habita a terra, e te alimentarás em segurança.
Resposta curta
A abertura do Salmo 37 diz: “Não te indignes por causa dos malfeitores”. O verbo hebraico por trás de “indignar-se” descreve algo que arde, uma irritação que esquenta por dentro quando se olha para a prosperidade de quem age mal. O salmo, atribuído a Davi e montado como acróstico, não nega que isso aconteça e também não pede que o leitor finja não ver. Ele oferece uma sequência de ordens curtas: confiar no Senhor, fazer o bem, habitar na terra e cultivar a fidelidade. A razão apresentada é que o sucesso dos ímpios é breve, como a erva que murcha. O texto é um convite à calma de quem espera em Deus, e não uma promessa de que o mal será pequeno ou de que a justiça chegará logo.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoO salmo não é uma profecia direta sobre Cristo, mas a esperança dos mansos que herdam a terra (v. 11) é retomada por Jesus no Sermão do Monte, que a afirma e amplia na bem-aventurança dos mansos.
Respaldo no Novo Testamento: Mt 5:5
Em palavras simples
O Salmo 37 fala a quem fica irritado ao ver gente má se dar bem. A palavra hebraica usada significa “arder”: é aquela raiva que esquenta por dentro. O salmo diz para não deixar esse fogo tomar conta, mas confiar em Deus, continuar fazendo o bem e viver com fidelidade onde se está. A razão é que o sucesso dos maus dura pouco, como grama que seca. Não é negar a injustiça, e sim aprender a esperar com calma.
Contexto histórico
O Salmo 37 é um dos salmos de sabedoria do Saltério e traz no título a atribuição a Davi. Sua forma é a de um acróstico alfabético: em geral, a cada dois versículos começa a letra seguinte do alfabeto hebraico, o que dá ao poema um ar de instrução feita para ser memorizada. Não há um pedido urgente nem um lamento dirigido a Deus, como em tantos outros salmos. A voz é a de alguém mais velho que fala a quem está começando a se perturbar. No v. 25 ele diz: “Fui moço e já sou velho; mas nunca vi desamparado o justo, nem a sua descendência a mendigar o pão”. É a observação de uma longa experiência, e não uma lei sem exceções.
O problema que o salmo enfrenta é antigo e reaparece em Jó, em , em e no Salmo 73: por que os que fazem o mal prosperam? Nos vv. 1-3, o salmista usa uma série de imperativos. Primeiro, o que não fazer: não se indignar e não ter inveja. Depois, o que fazer: confiar no Senhor, fazer o bem, habitar na terra e cultivar a fidelidade. A razão vem logo no v. 2: os malfeitores serão ceifados depressa, como a erva que seca.
“A terra” é um tema central do poema e volta várias vezes (vv. 3, 9, 11, 22, 29, 34). Para o israelita, remetia à herança prometida a Abraão e distribuída entre as tribos; viver nela com segurança era sinal da bênção da aliança. O salmo promete essa herança aos que esperam no Senhor e a nega aos que confiam na violência. O v. 11, “os mansos herdarão a terra”, é retomado por Jesus no Sermão do Monte. Ler a abertura do salmo exige, portanto, lembrar que o ponto de partida é uma comunidade agrária, com a terra como base da vida, na qual a prosperidade dos violentos ameaçava diretamente a sobrevivência dos justos.
Aprofundamento
O verbo traduzido como “indignar-se” é charah, que na raiz significa arder, queimar. Em outros textos ele descreve a ira de Deus e a raiva de Caim (). No Salmo 37 aparece numa forma reflexiva, e daí as traduções literais “não te esquentes”, “não te inflames” ou “não te irrites”. A mesma construção volta nos vv. 7 e 8, e o v. 8 acrescenta que isso só leva a fazer o mal. O sentido é o de uma raiva que consome quem a sente e que, se alimentada, termina em ações erradas. O salmo não proíbe ver a injustiça; proíbe deixar que ela se torne o centro da vida emocional.
Vale notar que o v. 1 une duas coisas: a irritação e a inveja. Quem se queima com o sucesso do mau costuma querer também o que ele tem. O salmo identifica esse movimento e o interrompe.
Os imperativos do v. 3 merecem atenção. “Confia” traduz batach, que sugere apoiar-se com segurança, descarregar o peso em alguém. “Faze o bem” indica que a confiança não é passividade: o justo continua agindo com integridade enquanto espera. “Habita na terra” é, literalmente, “fixa-te na terra” ou “reside nela”. A última expressão, “e verdadeiramente serás alimentado”, é o ponto mais difícil do verso. O hebraico re‘eh emunah pode ser lido como “apascenta-te em fidelidade” (o verbo é o do pastoreio), “cultiva a fidelidade” ou “alimenta-te de segurança”. A Almeida Revista e Atualizada entende como promessa de sustento; outras versões entendem como mais uma ordem, a de pastar tranquilo na fidelidade de Deus. As leituras se tocam, porque a imagem é a de um rebanho em segurança.
O v. 4, “deleita-te no Senhor”, completa o quadro, porque mostra o que ocupa o lugar do ardor: o prazer em Deus. O restante do poema reforça que a espera é ativa e demorada. Os vv. 7 e 9 usam verbos de esperar (yachal, qavah), e o v. 11 promete a herança aos mansos. Ao mesmo tempo, o salmo não esconde que o justo pode passar necessidade (v. 16, “o pouco do justo é melhor”) e que o desfecho é prometido, não imediato. Por isso o texto convive com Jó e com o Salmo 73: não oferece uma fórmula para quem sofre agora, e sim uma disciplina para esperar sem se corroer. O v. 39 conclui que a salvação dos justos vem do Senhor, sua fortaleza no tempo da angústia.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:O Salmo 37 promete que Deus dará ao crente tudo o que ele desejar, bastando confiar.
O v. 4 liga o desejo do coração ao deleite no Senhor, e o próprio salmo admite que o justo pode ter pouco (v. 16) e passar por angústia (v. 39). A promessa é de herança e de justiça no tempo de Deus, não de realização de qualquer vontade.
Dizem que:Não se indignar significa aceitar a injustiça em silêncio.
O verbo trata da irritação interior que consome e leva ao mal (v. 8). Os profetas e outros salmos denunciam a injustiça com veemência, e o próprio salmista descreve os atos dos ímpios sem rodeios.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura sapiencial
O poema é um conselho de sábio a quem se escandaliza com a prosperidade dos maus. A espera é uma disciplina diária, e a herança da terra é entendida em sentido concreto, ligada à aliança com Israel.
Leitura escatológica cristã
A herança da terra aponta, em última instância, para a restauração do mundo prometida aos mansos, como Jesus sugere em . A justiça plena é então esperada para além da história presente.
Variação na tradução do v. 3
A frase final pode ser lida como promessa (“serás alimentado”) ou como ordem (“pastoreia a fidelidade”). A primeira destaca o sustento de Deus; a segunda, o hábito de viver com lealdade.
No original3 termos
חָרָהcharahH2734
Arder, inflamar-se de raiva. Na forma reflexiva do Salmo 37:1, descreve a irritação que se acende por dentro diante da prosperidade dos maus.
בָּטַחbatachH982
Confiar, apoiar-se com segurança em alguém. Traduz o ato de descarregar o peso sobre o Senhor.
אֱמוּנָהemunahH530
Fidelidade, firmeza, segurança. No v. 3 pode ser o pasto onde se descansa ou a virtude que se cultiva.
O que fazer com isso
Quando a prosperidade de quem age mal passa a ocupar a cabeça e o coração, o salmo sugere três atitudes práticas: reconhecer a irritação sem alimentá-la, continuar a fazer o bem no lugar onde se está e entregar o resultado a Deus. Isso não impede de denunciar uma injustiça nem de buscar corrigi-la por meios legítimos. Apenas evita que a raiva se torne o motor da vida. Quem espera assim ganha tempo para enxergar o quadro completo.
Passagens relacionadas4
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Fontes consultadas3 obras
- Derek Kidner. Salmos 1–72: Introdução e comentário (Tyndale Old Testament Commentaries), 1973.
- Franz Delitzsch. Biblischer Commentar über die Psalmen, 1859.
- Allen P. Ross. A Commentary on the Psalms, vol. 1, 2011.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O Salmo 37 é de Davi?
O título o atribui a Davi, e o v. 25 reflete a voz de alguém idoso. Estudiosos discutem a data exata, mas a leitura tradicional aceita a autoria davídica.
Quer dizer que o crente nunca deve sentir raiva da injustiça?
Não. O salmo trata da irritação que corrói e leva a agir mal. Sentir indignação moral e buscar corrigir o erro por meios justos é diferente de se deixar consumir por ela.
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