
Por que a genealogia de Jesus em Mateus inclui mulheres como Tamar e Raabe?
Por que a árvore genealógica de Jesus menciona mulheres, e por que justo essas mulheres?
Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. Abraão gerou a Isaque; e Isaque gerou a Jacó; e Jacó gerou a Judá e a seus irmãos. E Judá gerou de Tamar a Perez e a Zerá; e Perez gerou a Esrom, e Esrom gerou a Arão. E Arão gerou a Aminadabe; e Aminadabe gerou a Naassom; e Naassom gerou a Salmom. E Salmom gerou de Raabe a Boaz; e Boaz gerou de Rute a Obede; e Obede gerou a Jessé. E Jessé gerou ao rei Davi; e o rei Davi gerou Salomão da que fora mulher de Urias.
Resposta curta
Listas genealógicas judaicas do primeiro século normalmente citavam só homens, seguindo a linha legal de pai para filho sem necessidade de mencionar mães. Mateus rompe esse padrão de propósito, inserindo quatro mulheres na genealogia de Jesus, e nenhuma delas é uma matriarca óbvia como Sara ou Rebeca. Tamar se disfarçou de prostituta para forçar Judá a cumprir sua obrigação legal; Raabe era uma prostituta cananeia de Jericó; Rute era moabita, de um povo hostil a Israel; e a esposa de Urias, Bate-Seba, é mencionada por meio do próprio pecado de Davi. Mateus escolhe justamente essas histórias moralmente complicadas e estrangeiras para abrir seu evangelho, sinalizando desde a primeira linha que a linhagem do Messias nunca foi limpa, e que ele vem resgatar exatamente esse tipo de história.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoA inclusão dessas quatro mulheres na própria genealogia de Jesus antecipa, já na primeira página do evangelho, o padrão de ministério que Jesus vai seguir: aproximar-se de estrangeiros, pecadores e pessoas socialmente marginalizadas. A linhagem do Messias já carregava esse acolhimento antes mesmo de ele nascer, mostrando que a graça que Jesus oferece publicamente não é uma novidade improvisada, mas coerente com a própria história de sua família.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
Normalmente, listas de família na Bíblia só citavam homens. Mateus decide incluir quatro mulheres na genealogia de Jesus, e nenhuma delas tem uma história simples: Tamar se disfarçou para conseguir justiça, Raabe era prostituta numa cidade inimiga, Rute era de um povo mal visto por Israel, e a esposa de Urias remete ao maior pecado do rei Davi. Mateus faz essa escolha de propósito, para mostrar desde a primeira página que Jesus vem de uma linhagem real, cheia de gente comum e de histórias difíceis, não de heróis perfeitos.
Contexto histórico
O evangelho de Mateus abre com uma genealogia estruturada em três blocos de catorze gerações, de Abraão a Davi, de Davi ao exílio babilônico, e do exílio a Jesus. Genealogias eram instrumento jurídico e social de peso no judaísmo do primeiro século, usadas para comprovar linhagem sacerdotal, direito à terra e, no caso de Jesus, legitimidade messiânica como descendente de Davi. O padrão esperado era estritamente patrilinear: 'Abraão gerou Isaque, Isaque gerou Jacó', repetindo a fórmula sem qualquer menção a mães, porque a linha legal de descendência passava pelos pais.
É esse padrão que Mateus rompe, e de forma calculada. Ele insere Tamar em 1:3, ao registrar que Judá gerou Farés e Zará 'de Tamar', Raabe em 1:5, ao dizer que Salmom gerou Boaz 'de Raabe', Rute no mesmo versículo, como mãe de Obede, e finalmente, em 1:6, a esposa de Urias, sem nomeá-la diretamente como Bate-Seba, ao mencionar que Davi a gerou Salomão 'da mulher de Urias'. Essa última formulação é particularmente pontuda: Mateus evita simplesmente escrever o nome dela e escolhe, em vez disso, lembrar ao leitor de quem ela era esposa, recuperando deliberadamente a sombra do adultério e do assassinato encobertos por Davi.
Nenhuma dessas quatro mulheres é israelita de nascimento incontestável e reputação limpa, segundo os padrões sociais da época. Tamar era provavelmente cananeia, e usa disfarce sexual para obter justiça de um sogro que a abandonara. Raabe era cananeia e trabalhava numa casa de prostituição em Jericó antes de proteger os espiões israelitas. Rute era moabita, de um povo que a lei em trata com desconfiança explícita. E a menção a Bate-Seba recorda o episódio mais vergonhoso do reinado de Davi. Mateus tinha liberdade editorial total para omitir esses nomes, como fariam a maioria das genealogias judaicas do período; a escolha de incluí-los é, portanto, teológica, não um acidente de fonte.
Aprofundamento
A leitura tradicional identifica um padrão comum às quatro mulheres: todas, de um jeito ou de outro, cruzam a fronteira entre Israel e as nações, ou entre pureza social esperada e reputação manchada, e ainda assim se tornam elos indispensáveis na linha que produz o Messias. Tamar age fora das convenções sexuais aceitas para obrigar Judá a reconhecer sua responsabilidade, e o próprio texto de declara que ela 'foi mais justa' do que ele. Raabe, cananeia e prostituta, aparece de novo em e como exemplo de fé genuína, reconhecida pelo Novo Testamento como digna de imitação, não de vergonha retrospectiva. Rute, moabita, é elogiada por Boaz como mulher de virtude excepcional em , apesar da desconfiança legal contra seu povo de origem. E Bate-Seba, ainda que vítima do abuso de poder de Davi, tem seu nome substituído por uma referência que lembra o leitor da culpa masculina envolvida, não da mulher.
Esse padrão sinaliza algo específico sobre a genealogia como um todo: ela não existe para provar pureza étnica ou moral ininterrupta na linhagem de Jesus, mas para mostrar que o plano de Deus sempre incluiu estrangeiros, pecadores encobertos e situações socialmente constrangedoras, sem que isso comprometesse a promessa messiânica. É um contraponto direto à expectativa de pureza racial e moral que outras tradições genealógicas judaicas do período, preservadas por exemplo em Jubileus, tentavam impor retroativamente às figuras do Antigo Testamento, suavizando ou removendo detalhes constrangedores.
Mateus, ao contrário, escreve para uma audiência que precisa entender por que Jesus recebe publicanos, prostitutas e gentios ao longo de todo o evangelho, e a genealogia planta essa lógica na primeira página: se o próprio ancestral do Messias inclui uma cananeia disfarçada de prostituta, uma prostituta de Jericó e uma moabita, então a mensagem de que o Reino de Deus acolhe os de fora e os moralmente comprometidos não é uma reviravolta tardia no ministério de Jesus, mas algo já embutido na própria genealogia que legitima sua identidade como filho de Davi e filho de Abraão, título com que o evangelho abre, em 1:1, unindo intencionalmente promessa davídica e promessa universal feita a Abraão para todas as nações. Vale notar também que Mateus escreve provavelmente para uma comunidade de cristãos judeus enfrentando tensão sobre até que ponto gentios convertidos pertenciam legitimamente ao povo de Deus, e uma genealogia que já normaliza a presença de estrangeiras na linhagem davídica funciona como argumento silencioso a favor da inclusão desses novos crentes, sem precisar de um discurso doutrinário explícito para sustentar o ponto.
O que costumam dizer errado1 afirmação
Dizem que:Mateus incluiu essas mulheres por acidente, apenas porque suas fontes genealógicas as mencionavam.
Genealogias judaicas do período normalmente omitiam mães, e Mateus tinha liberdade editorial para fazer o mesmo; a escolha de nomear justamente mulheres estrangeiras e de reputação socialmente complicada é deliberada, coerente com o tema de acolhimento aos de fora que percorre todo o evangelho.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura de inclusão messiânica
As quatro mulheres representam a extensão da promessa a Abraão para além de Israel étnico, preparando o leitor para a Grande Comissão final do evangelho, que envia discípulos a todas as nações.
Leitura de redenção da vergonha
Cada uma dessas mulheres carrega um episódio que poderia ser lido como vergonhoso, e o Novo Testamento, em outros textos, redime explicitamente a reputação de Raabe e implicitamente a de Tamar, mostrando que Deus trabalha através de histórias humanas imperfeitas.
No original2 termos
ἐγέννησενegennesenG1080
'Gerou'; verbo repetido ao longo de toda a genealogia, e que Mateus rompe estilisticamente ao acrescentar 'de Tamar', 'de Raabe' e as demais menções femininas, quebrando a fórmula padrão só com o nome do pai.
πόρνηporne
'Prostituta'; termo grego usado na tradição para descrever a ocupação de Raabe antes de sua conversão à fé em Israel, retomado explicitamente em sem tentativa de suavizar o fato.
O que fazer com isso
A genealogia lembra que ninguém precisa esconder um passado complicado, ou uma origem que os padrões sociais consideram vergonhosa, para fazer parte da história que Deus está escrevendo. Tamar, Raabe, Rute e a mulher de Urias fazem parte da linhagem do Messias não a despeito de suas histórias difíceis, mas com elas plenamente presentes no relato, sem retoque nem apagamento, o que diz bastante sobre como Deus trabalha através de vidas reais e não de biografias idealizadas.
Passagens relacionadas5
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas2 obras
- Raymond E. Brown. The Birth of the Messiah, 1993.
- Craig S. Keener. The Gospel of Matthew: A Socio-Rhetorical Commentary, 2009.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Bate-Seba é chamada pelo nome na genealogia de Mateus?
Não. Mateus a chama de 'a mulher de Urias', uma escolha deliberada que recorda o leitor do adultério e do assassinato cometidos por Davi, deslocando parte da atenção da conduta dela para a culpa dele.
Todas as mulheres da genealogia de Jesus eram estrangeiras?
Tamar, Raabe e Rute têm origem cananeia ou moabita segundo a tradição; Bate-Seba parece ser israelita, mas seu caso entra na lista por outro motivo, o pecado que envolveu sua união com Davi, não por origem estrangeira.
Temas
- Messias
- Genealogias e datas
- #mateus
- #tamar
- #raabe
- #mulheres-na-biblia
- #novo-testamento