
É preciso jejuar para expulsar certos demônios?
É preciso jejuar para expulsar demônios, segundo Marcos 9:29?
E lhes respondeu: Este tipo não pode sair por coisa alguma, a não ser com oração e jejum.
Resposta curta
Depois que os discípulos não conseguiram expulsar um espírito de um menino, Jesus explicou o motivo: "Este tipo não pode sair por coisa alguma, a não ser com oração e jejum." A frase esconde um dos casos mais conhecidos de variação entre os manuscritos gregos do Novo Testamento: os manuscritos mais antigos que sobreviveram, como o Sinaítico e o Vaticano, trazem apenas "oração", sem a palavra "jejum". A expressão "e jejum" só aparece na maioria dos manuscritos bizantinos posteriores, e por isso chegou ao Textus Receptus, base de traduções como a King James e a Almeida antiga.
Isso não muda o sentido central da fala de Jesus: alguns problemas espirituais exigem mais do que técnica humana, e dependem de confiança sustentada em Deus. A diferença textual afeta um detalhe de prática, não a mensagem sobre fé que o episódio transmite.
Contexto histórico
O episódio começa logo depois da Transfiguração (). Jesus desce do monte com Pedro, Tiago e João e encontra os demais discípulos discutindo com escribas, incapazes de expulsar um espírito que atormentava um menino desde a infância (9:14-27). Depois de Jesus expulsar o espírito com uma palavra de autoridade, os discípulos perguntam em particular por que não conseguiram fazer o mesmo (9:28). A resposta de Jesus, no versículo 29, é o fecho do episódio.
No grego, Jesus usa a expressão touto to genos, este tipo ou esta espécie. O termo genos normalmente designa uma categoria, uma classe de coisas da mesma natureza, aqui provavelmente uma referência ao tipo de caso enfrentado, um espírito particularmente resistente, e não uma classificação formal de hierarquias demoníacas, algo que o Novo Testamento nunca desenvolve em nenhum outro lugar.
O ponto mais delicado do versículo é textual. Os manuscritos gregos mais antigos que sobreviveram do Evangelho de Marcos, os códices Sinaítico e Vaticano, do século 4, trazem apenas em oração, sem a palavra jejum. A expressão e jejum aparece na tradição manuscrita bizantina, majoritária em número mas geralmente mais tardia, e por isso chegou ao Textus Receptus, texto grego usado nas traduções da Reforma, incluindo a base da Almeida. Especialistas em crítica textual, como Bruce Metzger, apontam que é mais fácil explicar por que um copista acrescentaria jejum, prática que ganhou peso crescente na piedade cristã dos primeiros séculos, do que por que alguém a removeria caso já estivesse no texto original. Por isso, a maioria das edições críticas modernas do Novo Testamento grego, e traduções baseadas nelas, como a NVI e a NAA, trazem apenas oração, relegando e jejum a uma nota de rodapé.
Essa mesma variante aparece, de forma ainda mais debatida, em , versículo que muitas traduções modernas omitem do corpo do texto por razões semelhantes.
Aprofundamento
A pergunta dos discípulos em , por que nós não conseguimos expulsá-lo, carrega surpresa genuína: eles já tinham expulsado espíritos antes, com autorização explícita de Jesus (). O relato de Mateus sobre o mesmo episódio dá uma resposta direta: por causa da vossa pouca fé (). Marcos, escrevendo de forma mais concisa, registra uma resposta complementar: dependência de oração. As duas respostas não competem, apontam para a mesma raiz. O problema não era técnica insuficiente, fórmula errada ou palavra mal pronunciada; era uma postura de confiança que faltou aos discípulos naquele momento, ainda que eles já tivessem exercido esse poder antes.
A discussão sobre a presença ou ausência de jejum no versículo não é uma tentativa de esvaziar o texto, nem uma descoberta recente e alarmante. A crítica textual, a disciplina que compara os milhares de manuscritos gregos sobreviventes para reconstruir o texto mais próximo do original, trabalha com esse tipo de variação o tempo todo, e a esmagadora maioria das variantes conhecidas no Novo Testamento são irrelevantes, como erros de ortografia ou ordem de palavras. O caso de é um dos poucos que afeta o sentido de uma frase inteira, o que o torna um bom exemplo didático: mostra que a diferença entre só oração e oração e jejum não muda nenhuma doutrina central da fé cristã, mas ilustra como as traduções da Bíblia refletem decisões eruditas sobre qual manuscrito grego seguir.
Isso explica por que bíblias diferentes trazem esse versículo de formas diferentes. A Almeida tradicional, a King James e outras traduções feitas antes do século 19 seguem o Textus Receptus, texto grego compilado por Erasmo no século 16 a partir de poucos manuscritos bizantinos tardios, e por isso mantêm e jejum. Traduções mais recentes, como a NVI e a NAA, seguem edições críticas que dão peso maior aos manuscritos mais antigos disponíveis hoje, descobertos ou catalogados depois do trabalho de Erasmo, e por isso ou omitem jejum ou o colocam em nota de rodapé. Nenhuma das duas tradições de texto foi produzida com intenção de enganar; refletem, cada uma, o melhor conhecimento manuscrito disponível em sua época. Comentaristas como R. T. France e William Lane, ao analisarem o grego de Marcos, também observam que o estilo mais direto e conciso do evangelho combina melhor com a forma mais curta, só oração, o que reforça a preferência dos críticos textuais pela leitura mais antiga sem descartar o valor espiritual da prática do jejum em si.
Na prática pastoral, o jejum continuou sendo uma disciplina espiritual reconhecida na igreja desde os primeiros séculos, apoiada em outros textos claros do Novo Testamento (; 14:23), independentemente do que se decida sobre esta variante específica em Marcos.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Existem categorias ou níveis hierárquicos de demônios, e o jejum é a técnica espiritual necessária para expulsar os mais fortes.
O termo grego genos ("tipo") provavelmente se refere ao caso específico enfrentado, não a uma escala fixa de poder demoníaco; o Novo Testamento nunca desenvolve esse tipo de classificação em nenhum outro lugar, e mesmo a leitura mais longa do versículo aponta para dependência de Deus, não para uma fórmula técnica que garante resultado.
Dizem que:A ausência da palavra "jejum" em Bíblias modernas como a NVI é uma tentativa de esconder ou enfraquecer um ensino bíblico.
A decisão de tradução é documentada e transparente: reflete o peso dado pelos críticos textuais aos manuscritos gregos mais antigos disponíveis (como os códices Sinaítico e Vaticano), que não trazem essa palavra, e não uma escolha teológica para diminuir a prática do jejum, amplamente atestada em outros textos do Novo Testamento.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Tende a preservar a leitura tradicional "oração e jejum", lendo o versículo à luz de uma longa prática ascética da igreja que une as duas disciplinas como parte do combate espiritual, apoiada também na tradição patrística.
Ortodoxa
Reconhece forte valor litúrgico e comunitário no jejum, e como sua tradição de texto grego é majoritariamente bizantina, naturalmente preserva "e jejum" no versículo, associando-o à disciplina regular de jejuns da igreja.
Reformada
Tende a priorizar as edições críticas baseadas nos manuscritos mais antigos, que trazem apenas "oração", e evita transformar o jejum em requisito ritual, enfatizando a fé e a graça de Deus como base do milagre, não uma disciplina corporal específica.
Pentecostal
Costuma manter "oração e jejum" e lê o versículo como ensino prático sobre níveis de autoridade espiritual conquistados por meio de disciplina redobrada de oração e jejum diante de casos mais difíceis de opressão espiritual.
No original3 termos
γένοςgénosG1085
espécie, tipo, categoria de coisas da mesma natureza; aqui, o tipo de caso espiritual enfrentado pelos discípulos.
προσευχήproseuchḗG4335
oração, o ato de se dirigir a Deus; presente em todos os manuscritos gregos conhecidos do versículo.
νηστείαnēsteíaG3521
jejum, abstenção voluntária de alimento como prática de piedade; presente no Textus Receptus e na maioria dos manuscritos bizantinos, mas ausente dos manuscritos mais antigos sobreviventes (Sinaítico e Vaticano).
O que fazer com isso
Independente da versão que você lê, o versículo não ensina uma fórmula: jejuar não é um botão que libera poder espiritual sob demanda. O que Jesus corrige nos discípulos é a postura, eles tentaram agir por conta própria, sem a dependência que sustenta qualquer oração real. Vale menos perguntar se você jejuou o suficiente e mais perguntar se você tem buscado a Deus com a confiança de quem sabe que precisa dele, antes de tentar resolver algo sozinho.
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas3 obras
- Bruce M. Metzger. A Textual Commentary on the Greek New Testament, 1994.
- R. T. France. The Gospel of Mark: A Commentary on the Greek Text (NIGTC), 2002.
- William L. Lane. The Gospel of Mark (NICNT), 1974.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Minha Bíblia tem "jejum" e a do meu amigo não. Alguma das duas está errada?
Não necessariamente. As duas refletem tradições manuscritas diferentes do texto grego de Marcos: uma segue o Textus Receptus, que inclui "e jejum"; a outra segue edições críticas baseadas em manuscritos mais antigos, que trazem só "oração". É uma diferença de qual manuscrito grego a tradução seguiu, não um erro de tradução.
Isso significa que a Bíblia foi adulterada?
Não. É o processo normal e documentado de transmissão de textos copiados à mão por séculos, antes da impressão. Os especialistas comparam milhares de cópias sobreviventes e sinalizam onde elas divergem, e é justamente essa transparência que aparece aqui, não uma manipulação escondida.
Então eu preciso jejuar para ter mais poder espiritual?
O texto, em qualquer uma das duas versões, aponta para dependência de Deus através da oração, não para uma técnica que gera poder por si só. Jejuar pode ser uma expressão legítima dessa dependência, mas o versículo não o transforma em pré-requisito mecânico para milagres.
Por que os discípulos não conseguiram expulsar esse espírito, se já tinham feito isso antes?
, ao narrar o mesmo episódio, atribui o fracasso à pouca fé deles. Marcos complementa com a ênfase em oração. As duas explicações apontam para o mesmo problema: confiança insuficiente na força de Deus, não uma falha técnica.
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