
O exorcista que não seguia Jesus
por que os discípulos tentaram impedir um homem de expulsar demônios em nome de Jesus
E respondeu-lhe João, dizendo: Mestre, vimos um que em teu nome expulsava os demônios, e ele não nos segue. Então o proibimos, porque não nos segue. Porém Jesus disse: Não o proibais; porque ninguém há que faça milagre em meu nome, e logo possa falar mal de mim.
Resposta curta
Logo após os discípulos falharem ao libertar um menino endemoninhado e Jesus corrigi-los sobre quem é "o maior", João chega com uma queixa: viram um homem expulsando demônios em nome de Jesus e tentaram impedi-lo, "porque não nos segue" (). O problema não era o que esse homem fazia, mas o fato de ele não pertencer ao grupo que acompanhava Jesus pelas estradas da Galileia.
Jesus recusa esse critério. Ele responde que ninguém faz um milagre invocando seu nome e, logo em seguida, fala mal dele — o próprio ato já revela de que lado a pessoa está (). A lealdade a Jesus, não a filiação a um grupo de seguidores, é o que define pertencimento. O episódio expõe um instinto humano recorrente: transformar proximidade institucional em posse exclusiva sobre a obra de Deus.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoO critério que Jesus estabelece aqui — pertencer não é seguir fisicamente um grupo, mas não se opor a ele e agir em seu nome — antecipa um movimento que atravessa todo o Novo Testamento: a comunidade reunida em torno de Jesus deixa de ser um círculo fechado de seguidores itinerantes e se torna, após a ressurreição, um corpo que ultrapassa fronteiras étnicas, sociais e institucionais. O mesmo padrão já aparecia em , quando Eldade e Medade profetizam fora da tenda reunida e Moisés recusa o ciúme de Josué, desejando que "todo o povo do Senhor" tivesse o mesmo dom. Em , Jesus repete esse gesto de abertura. Mais tarde, esse mesmo princípio orienta a igreja primitiva quando Pedro reconhece, diante da casa de Cornélio, que Deus "não faz acepção de pessoas" e aceita quem o teme e pratica a justiça em qualquer nação (). A trajetória vai do exorcista anônimo de até a igreja gentia de Atos: o pertencimento ao povo de Deus, revelado plenamente em Cristo, nunca dependeu de proximidade geográfica ou institucional com o grupo original, mas da lealdade real ao próprio Jesus.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Os discípulos de Jesus veem um homem expulsando demônios usando o nome de Jesus, mas ele não andava com o grupo dos doze. Eles tentam impedi-lo só por isso. Jesus discorda: o que importa não é pertencer ao grupo certo, mas não estar contra ele. Quem age em nome de Jesus de boa-fé não vira, um instante depois, inimigo dele. O texto ensina a não confundir "fazer parte do meu círculo" com "estar do lado certo".
Contexto histórico
O episódio de está encaixado numa sequência de cenas sobre autoridade e status entre os discípulos. Pouco antes, eles próprios tinham fracassado ao tentar libertar um menino de um espírito imundo (9:14-29) e, na volta a Cafarnaum, discutiram entre si "qual deles seria o maior" (9:33-34) — Jesus responde tomando uma criança nos braços e ensinando que receber os pequenos e insignificantes é receber a ele mesmo (9:35-37). É exatamente nesse ponto que João interrompe com sua queixa sobre o exorcista desconhecido, mostrando que a lição sobre humildade ainda não tinha sido assimilada: o instinto de proteger o próprio grupo continuava mais forte que a disposição de reconhecer o bem feito por quem está fora dele.
Do ponto de vista histórico e cultural, invocar nomes de figuras religiosas de prestígio para realizar exorcismos era uma prática conhecida na Palestina do primeiro século. Josefo menciona técnicas de exorcismo atribuídas a Salomão, e o livro de Atos registra exorcistas judeus itinerantes tentando usar "o nome de Jesus, a quem Paulo prega" () — episódio que terminou mal para eles, mostrando que nem todo uso do nome tinha o mesmo peso espiritual. O homem de não é necessariamente alguém desse tipo oportunista; o texto não o acusa de má-fé, apenas registra que ele agia fora do grupo itinerante que seguia Jesus fisicamente pelas estradas da Galileia.
O verbo usado por João, "proibimos" (do grego kōlyō, no tempo imperfeito), sugere uma ação insistente, repetida, não um gesto isolado. Isso indica que os discípulos não apenas presenciaram o fato e reagiram uma vez, mas fizeram esforço para impedir a atividade do homem continuamente. A palavra grega para "seguir" (akoloutheō), usada tanto para "ele não nos segue" quanto ao longo dos evangelhos para descrever o discipulado, é o centro da tensão: João usa o termo técnico do discipulado formal para medir a legitimidade de alguém, e Jesus desloca o critério para a lealdade de fato demonstrada pela ação.
Aprofundamento
O episódio () vem logo após dois momentos reveladores: os discípulos tinham acabado de fracassar ao tentar expulsar um demônio (9:14-29) e Jesus tinha acabado de repreendê-los por discutirem quem era "o maior" (9:33-37). É nesse clima de insegurança sobre a própria autoridade que João relata o caso do exorcista independente. O verbo grego por trás de "proibimos" (ekōlyomen) está no imperfeito, o que sugere uma tentativa continuada ou repetida, não um ato único — os discípulos insistiram em barrar o homem.
A justificativa de João é reveladora: "ele não nos segue" (v. 38). Ele não diz que o homem ensinava erro ou usava o nome de Jesus com má-fé; o problema é puramente de pertencimento ao grupo itinerante. João equipara "seguir os Doze" a "seguir Jesus", uma equivalência que Jesus não aceita. A resposta dele em 9:39 é um argumento de plausibilidade, não uma doutrina geral sobre religião: alguém que acabou de realizar um milagre invocando o nome de Jesus dificilmente, no minuto seguinte, vai falar mal dele — o próprio ato demonstra alguma lealdade real.
Comentaristas como William Lane e R. T. France notam o paralelo com um episódio de : Eldade e Medade profetizam no acampamento sem terem sido reunidos formalmente na tenda com os setenta anciãos, e Josué pede a Moisés que os impeça. Moisés responde: "Tivesse todo o povo do Senhor o dom de profetizar!" Em ambos os casos, um assistente próximo do líder tenta policiar o acesso ao poder espiritual, e o próprio líder recusa esse controle, mostrando uma generosidade maior que a de seus auxiliares.
Vale notar o pano de fundo cultural: invocar o nome de uma figura religiosa reconhecida para realizar exorcismos era prática documentada no judaísmo do primeiro século — registra exorcistas itinerantes tentando usar "o nome de Jesus, a quem Paulo prega" sem vínculo com a comunidade cristã, com resultado desastroso. Isso ajuda a entender por que a cena em não era incomum: havia pessoas fora do círculo apostólico que se apropriavam de nomes de poder.
Esse texto não resolve sozinho a questão de como discernir ensino falso — outras passagens do Novo Testamento (como e ) continuam exigindo exame de doutrina e fruto. responde a uma pergunta mais estreita e concreta: o que fazer com alguém que age a favor de Jesus, embora fora do grupo. A resposta de Jesus é: não tratar como inimigo quem não se opõe.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:O homem era um discípulo secreto, um dos setenta enviados por Jesus, apenas não mencionado pelo nome.
O texto diz explicitamente que ele "não nos segue" (9:38), ou seja, não fazia parte do grupo itinerante. Nada na passagem sugere que ele tivesse sido comissionado por Jesus; ele agia por conta própria, invocando o nome de Jesus.
Dizem que:Jesus ensinou aqui que basta usar o nome dele para ter poder garantido, e que doutrina não importa.
O texto não trata de conteúdo doutrinário, apenas da atitude de oposição ou não oposição a Jesus. Outras passagens, como , mostram que fazer milagres invocando o nome de Jesus não garante, por si só, reconhecimento final por ele — a questão do fruto e da fidelidade doutrinária continua exigida em outros textos do Novo Testamento.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
católica
O episódio é lido como um chamado à caridade diante do bem feito fora dos limites visíveis da comunidade dos discípulos, sem que isso dispense a Igreja de zelar, em outros momentos e por outros critérios, pela comunhão e pela autoridade legítima no exercício do ministério.
reformada
O texto é entendido como evidência de que o critério para reconhecer uma obra genuína de Deus é a fidelidade ao nome e à causa de Cristo, e não a filiação formal a uma instituição ou grupo específico de seguidores.
pentecostal
A passagem é vista como um alerta contra desqualificar manifestações reais do poder de Deus só porque não vêm por meio de uma liderança ou estrutura reconhecida, valorizando o fruto do Espírito sobre a filiação institucional.
adventista
O relato é lido como ensino sobre humildade comunitária: a tentação de proteger o próprio grupo como guardião exclusivo da verdade é a mesma que Jesus já havia repreendido na discussão sobre "quem é o maior", e o texto pede vigilância contra esse instinto em qualquer comunidade de fé.
No original3 termos
δαιμόνιαdaimoniaG1140
demônios; espíritos considerados malignos, cuja expulsão era vista como sinal de autoridade espiritual.
ἐκωλύομενekōlyomenG2967
verbo "impedir/proibir" no tempo imperfeito, sugerindo tentativa insistente ou repetida de barrar o homem.
ἠκολούθειēkoloutheiG190
forma do verbo "seguir", o mesmo usado para descrever o discipulado ao longo dos evangelhos; João o usa como critério de pertencimento.
O que fazer com isso
A tentação de João é comum: transformar "eu pertenço ao grupo certo" em critério para julgar quem serve a Deus de verdade. Vale perguntar, diante de um trabalho, ministério ou pessoa que não segue o mesmo caminho institucional que o seu: essa pessoa está, na prática, contra o que Jesus ensinou, ou apenas fora do seu círculo? A pergunta de Jesus desloca o julgamento da filiação para a lealdade concreta — um convite a menos ciúme e mais discernimento.
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas4 obras
- William L. Lane. The Gospel of Mark (New International Commentary on the New Testament), 1974.
- R. T. France. The Gospel of Mark (New International Greek Testament Commentary), 2002.
- Matthew Henry. Comentário Bíblico de Matthew Henry, 1710.
- Craig S. Keener. The IVP Bible Background Commentary: New Testament, 1993.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Quem era o homem que expulsava demônios em nome de Jesus?
O texto não dá nome nem detalhes sobre ele. Sabe-se apenas que agia invocando o nome de Jesus e obtinha resultado, mas não fazia parte do grupo que acompanhava Jesus fisicamente pelas estradas. Provavelmente era alguém que tinha ouvido o ensino de Jesus ou testemunhado seus milagres e passou a agir com fé nesse nome, sem se juntar aos discípulos.
Por que João quis impedir esse homem?
Pela própria fala de João, o motivo declarado foi só um: "ele não nos segue" (). Não há acusação de erro doutrinário ou má intenção — o critério era exclusivamente pertencer ou não ao grupo itinerante dos discípulos.
Essa passagem contradiz Mateus 7:22-23, onde Jesus rejeita gente que fez milagres em seu nome?
Não são a mesma situação. Em , o cenário é o juízo final sobre pessoas que nunca tiveram compromisso real com Jesus, apesar da aparência religiosa. Em , o critério imediato e concreto é se a pessoa se opõe ou não a Jesus agora — os dois textos respondem perguntas diferentes, em momentos diferentes.
Essa passagem significa que qualquer grupo que use o nome de Jesus deve ser aceito sem exame?
Não é esse o alcance do texto. trata de um caso concreto: alguém que age a favor de Jesus sem se opor a ele. Outras partes do Novo Testamento, como , continuam pedindo discernimento sobre doutrina e fruto antes de reconhecer plena comunhão.
Temas
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