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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Questões de tradução

"Carne diferente": o que Judas realmente acusa Sodoma de fazer

O que significa "carne estranha" ou "outra carne" em Judas 1:7?

Assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que como aquelas, tendo cometido pecados sexuais, e seguido uma carne ilícita, foram postas como exemplo, recebendo a punição do fogo eterno.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

diz que Sodoma e Gomorra, com as cidades vizinhas, "tendo cometido pecados sexuais, e seguido uma carne ilícita, foram postas como exemplo, recebendo a punição do fogo eterno". Por trás de "carne ilícita" está o grego sarkos heteras, literalmente "carne de outra espécie" — e o debate entre os estudiosos gira em torno de uma pergunta: diferente do quê?

A maioria das traduções entende a frase como referência geral a atos sexuais fora do padrão esperado entre homem e mulher. Mas parte da erudição observa que o versículo anterior fala de anjos que abandonaram seu próprio lugar, e propõe que "carne diferente" descreve o desejo dos homens de Sodoma por relação com os visitantes angelicais de — seres de natureza distinta da humana. As duas leituras convivem, com igual seriedade, na tradição cristã.

Como isso aponta para Jesus

Tipologia

Judas apresenta a destruição de Sodoma como "exemplo" (deigma) do juízo certo que espera os rebeldes — e o próprio Jesus usa esse mesmo episódio, explicitamente, como figura do dia em que o Filho do Homem será revelado: "como foi nos dias de Ló... assim será no dia em que o Filho do Homem se manifestar" (). A destruição súbita e total de Sodoma, sem aviso perceptível aos que nela viviam despreocupados, torna-se assim padrão para o julgamento final que a tradição cristã associa ao retorno de Cristo — o mesmo "dia do julgamento" que Judas menciona logo antes, no v.6, e que sua carta evoca de novo mais adiante ao citar a profecia de Enoque sobre a vinda do Senhor (vv.14-15).

Respaldo no Novo Testamento:

Contexto histórico

Judas se apresenta como "servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago" (v.1), o que a maioria dos comentaristas identifica com o Judas mencionado como irmão de Jesus e de Tiago em . A carta é curta e combativa: escrita para alertar uma comunidade contra "pessoas ímpias" que haviam se infiltrado nela (v.4), distorcendo a graça de Deus. Para provar que o julgamento dessas pessoas é certo, Judas empilha três exemplos do Antigo Testamento e da tradição judaica sobre juízo divino: a geração que saiu do Egito e não creu (v.5), os anjos que "não guardaram sua origem" (v.6) e, em seguida, Sodoma e Gomorra (v.7).

Gramaticalmente, o versículo 7 descreve as cidades com dois particípios em grego: "tendo cometido pecados sexuais" (forma intensificada de porneuō) e "tendo ido atrás de carne diferente" (apelthousai opisō sarkos heteras). "Cidades circunvizinhas" refere-se a Admá e Zeboim, mencionadas junto com Sodoma e Gomorra em como parte do mesmo conjunto de cidades da planície destruídas. O relato-base é : dois mensageiros (identificados como anjos) chegam a Sodoma, são recebidos por Ló, e à noite os homens da cidade cercam a casa exigindo "conhecer" os visitantes — um verbo hebraico que aqui carrega sentido sexual e que o contexto liga a uma tentativa de violência coletiva contra estrangeiros.

O ponto retórico de Judas não é oferecer uma análise moral detalhada do pecado de Sodoma, mas usar seu destino como "exemplo" (grego deigma, um termo técnico para "amostra" ou "espécime" que só aparece aqui no Novo Testamento) do que acontece a quem se rebela contra a ordem estabelecida por Deus. A palavra traduzida "ilícita" nesta versão (outras trazem "estranha" ou "diferente") reflete justamente a dificuldade de verter heteras com precisão: o termo grego não é o mais comum para "outro" (allos, algo da mesma espécie), mas heteros, que normalmente marca uma diferença de tipo ou categoria — daí a discussão sobre a que exatamente a carne é "diferente".

Aprofundamento

A charneira do debate é uma escolha lexical grega: Judas não usa allos ("outro" do mesmo tipo), mas heteros ("outro" de tipo diferente). Comentaristas como Richard Bauckham (Word Biblical Commentary: Jude, 2 Peter, 1983) chamam atenção para essa escolha e para a posição do versículo logo depois da menção aos anjos caídos (v.6). Nessa leitura, a "carne diferente" que os homens de Sodoma buscaram é a carne dos próprios visitantes angelicais de — seres de natureza distinta da humana –, e o pecado de Sodoma espelharia, em outro nível, o pecado dos anjos: ambos romperam os limites da própria natureza e buscaram relação com uma ordem de ser que não lhes cabia. Essa leitura tem a vantagem de explicar por que Judas junta os dois exemplos lado a lado, como se fossem variações do mesmo erro.

Outros comentaristas, como Gene L. Green (Baker Exegetical Commentary, Jude and 2 Peter, 2008) e Thomas R. Schreiner (New American Commentary, 1, 2 Peter, Jude, 2003), reconhecem essa leitura como filologicamente possível, mas notam que ela não é a única maneira de explicar heteras: o termo também pode simplesmente marcar um desvio em relação ao padrão esperado de relação sexual, sem que o alvo precise ser especificamente angelical. Para esses autores, o peso da tradição judaica sobre Sodoma na época de Judas — que já associava a cidade a pecado sexual generalizado, e não apenas ao episódio específico dos anjos — pesa a favor de uma leitura mais ampla, ainda que sem excluir de todo a primeira.

Vale notar que o próprio Antigo Testamento não isola o pecado sexual como causa única da destruição de Sodoma: resume a culpa da cidade como "soberba, fartura de pão e próspera ociosidade", somadas ao fato de não amparar o pobre e ao cometimento de "abominação" diante de Deus — um quadro que inclui violência contra estrangeiros indefesos, já que a cena de descreve uma tentativa de estupro coletivo, não um encontro consentido. Judas, escrevendo décadas depois, não pretende resolver essa complexidade: seu interesse é retórico, não um tratado de ética sexual — ele quer um exemplo reconhecível de juízo certo e definitivo para comparar aos falsos mestres que combate em sua carta. É esse objetivo argumentativo, mais do que uma teoria fechada sobre a natureza exata do pecado de Sodoma, que organiza o versículo e explica por que ele é tão conciso quanto ambíguo.

O que costumam dizer errado1 afirmação
  • Dizem que:Sodoma foi destruída exclusivamente por causa de atos homossexuais.

    O próprio Antigo Testamento aponta um quadro mais amplo: resume a culpa da cidade como "soberba, fartura de pão e próspera ociosidade", somadas à falta de amparo ao pobre e necessitado. Além disso, a cena central de descreve uma tentativa de violência sexual coletiva contra visitantes — um ataque, não um relacionamento consentido —, o que a maioria dos comentaristas trata como elemento distinto e agravante, não como o único fator em jogo.

Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Católica

    Segue majoritariamente a leitura patrística tradicional: "carne diferente" descreve o desejo sexual contra a ordem natural da criação, lido em conjunto com o quadro mais amplo do pecado de Sodoma — soberba, violência e desprezo pela hospitalidade devida ao estrangeiro.

  • Reformada

    Comentaristas reformados contemporâneos costumam reconhecer o peso filológico do paralelo com o v.6 (anjos que romperam sua própria natureza), sem abandonar a leitura tradicional; tratam o versículo como ilustração da certeza do juízo divino contra toda transgressão da ordem estabelecida por Deus, mais do que como definição exaustiva do pecado de Sodoma.

  • Pentecostal

    Tende a uma leitura direta e pastoral do texto como advertência moral contra o pecado sexual em geral, enfatizando o uso de Sodoma como exemplo de julgamento certo para quem se rebela contra Deus, sem se deter no debate filológico sobre heteras.

  • Ortodoxa

    Segue os Padres da Igreja (como João Crisóstomo) ao unir os dois elementos do pecado de Sodoma — a quebra da hospitalidade sagrada devida ao estrangeiro e o desejo tido como contrário à natureza —, sem separar um do outro como causa isolada da destruição.

No original5 termos
  • σάρξsarxG4561

    carne; aqui, o corpo físico, em contraste com uma natureza de outra ordem

  • ἕτεροςheterosG2087

    outro, mas de tipo ou categoria diferente (distinto de allos, "outro" da mesma espécie) — a base do debate sobre o alcance da expressão

  • πορνεύωporneuōG4203

    cometer pecado sexual, praticar imoralidade sexual

  • αἰώνιοςaiōniosG166

    eterno, definitivo; que dura para sempre ou tem efeito permanente

  • δεῖγμαdeigma

    exemplo, amostra, espécime demonstrativo — termo raro, usado aqui para mostrar Sodoma como caso ilustrativo de julgamento

O que fazer com isso

Antes de usar como resposta pronta em uma discussão, vale reconhecer que o próprio texto grego guarda uma ambiguidade que estudiosos sérios ainda debatem. Isso não esvazia o versículo — ele continua servindo ao propósito de Judas, alertar contra a ilusão de que a rebelião contra Deus fica sem consequência —, mas pede humildade de quem cita a passagem. Manejar bem a Escritura inclui reconhecer onde ela é clara e onde exige mais cautela antes de generalizar.

Passagens relacionadas6

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas3 obras
  • Richard Bauckham. Word Biblical Commentary: Jude, 2 Peter, 1983.
  • Gene L. Green. Baker Exegetical Commentary on the New Testament: Jude and 2 Peter, 2008.
  • Thomas R. Schreiner. New American Commentary: 1, 2 Peter, Jude, 2003.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Judas 1:7 está falando sobre homossexualidade?

É a leitura mais comum e a que a maioria das traduções sugere, mas o grego sarkos heteras ("carne diferente") é ambíguo, e parte da erudição bíblica entende que a expressão aponta especificamente para o desejo dos homens de Sodoma por relação com os visitantes angelicais de , não para uma afirmação geral sobre orientação sexual humana. As duas leituras são discutidas com seriedade por comentaristas sérios, e o versículo não resolve sozinho esse debate.

Quais eram as "cidades circunvizinhas" mencionadas junto com Sodoma e Gomorra?

O Antigo Testamento identifica um grupo de cinco cidades da planície do Jordão; além de Sodoma e Gomorra, cita Admá e Zeboim como destruídas junto com elas. Uma quinta cidade, Zoar, foi poupada a pedido de Ló ().

Por que o texto fala em "fogo eterno" se as ruínas de Sodoma não estão mais queimando?

"Eterno" aqui descreve o caráter definitivo e irreversível da punição, não uma chama que continua acesa fisicamente até hoje. Judas usa a destruição histórica de Sodoma como advertência permanente, um exemplo (deigma) cujo efeito de alerta continua válido mesmo depois que o fogo literal se apagou.

Quem eram os anjos mencionados no versículo anterior, e o que isso tem a ver com Sodoma?

fala de anjos que "não guardaram sua origem" e abandonaram seu lugar próprio, um episódio ligado por parte da tradição judaica a . Alguns comentaristas leem os versículos 6 e 7 como um par: em ambos, seres tentam ultrapassar os limites da própria natureza, o que ajudaria a explicar por que Judas os coloca lado a lado.

Temas

  • Anjos
  • Sodoma
  • #judas
  • #novo-testamento
  • #genesis-19
  • #juizo-divino
  • #grego-biblico

Publicado em 23/08/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 3 obras citadas, com autor e ano
  • 1 afirmação popular checada e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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