Pular para o conteúdo
Significado Bíblico
Ilustração da categoria Questões de tradução

O verbo antes de "Jesus chorou" descreve raiva

Por que Jesus chorou se sabia que ia ressuscitar Lázaro?

Jesus chorou.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

É o versículo mais curto da Bíblia, e o que o cerca é bem mais estranho do que ele.

Duas vezes, nos versículos 33 e 38, João usa um verbo grego que não significa comoção. Ele descreve bufar de raiva, e é usado na literatura grega para cavalos. As traduções em português o suavizam quase sempre — "comoveu-se em espírito", "agitou-se".

Jesus está descrito como irado antes e depois de chorar, e as traduções apagam isso.

A outra estranheza é a pergunta óbvia: ele sabe o que vai fazer. Anunciou desde o versículo 11 que ia acordar Lázaro. As lágrimas não são sobre o resultado — o resultado ele já tinha.

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

A cena é o retrato mais direto que os evangelhos dão da reação de Jesus diante da morte, e ela combina lágrimas com indignação. fala dele oferecendo orações com grande clamor e lágrimas; chama a morte de último inimigo a ser destruído. O túmulo de Lázaro é onde as duas coisas aparecem juntas — quem vai destruir a morte chora diante dela.

Respaldo no Novo Testamento: ; ;

Em palavras simples

É o versículo mais curto da Bíblia, e o que está ao redor é mais estranho do que parece. Antes e depois de chorar, o texto original usa um verbo que descreve indignação — a mesma palavra usada para cavalos bufando. As traduções costumam suavizar isso para "comoveu-se", mas o sentido é mais próximo de raiva.

E Jesus já sabia o que ia acontecer: tinha acabado de dizer que ia acordar Lázaro. As lágrimas não são sobre desconhecer o desfecho — mesmo sabendo que a tristeza acabaria em minutos, ele chorou. Isso mostra que saber que vem um final feliz não elimina a dor do momento, e que sentir raiva diante da morte de alguém amado não é falta de fé.

Contexto histórico

Lázaro morre em Betânia e Jesus chega quatro dias depois, prazo mencionado de propósito no texto.

O detalhe tem peso cultural. Havia uma crença corrente de que a alma rondava o corpo por três dias, e o quarto dia marcava o ponto sem retorno. Chegar no quarto dia é chegar depois de qualquer expectativa.

O luto era coletivo e sonoro. Havia carpideiras profissionais, e a casa estava cheia de gente de Jerusalém que viera consolar Marta e Maria — o texto registra isso.

As duas irmãs dizem a mesma frase, separadamente: se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido. É reclamação, e nenhuma das duas é repreendida por ela.

A cena do versículo 33 acontece quando Jesus vê Maria chorando e os judeus que vieram com ela chorando também. É diante desse quadro que o verbo forte aparece.

Aprofundamento

Convém separar os três verbos que a passagem usa, porque em português eles somem dentro da mesma ideia de tristeza.

O primeiro, nos versículos 33 e 38, descreve um som de indignação. Fora do Novo Testamento a palavra aparece descrevendo cavalos, e dentro dele aparece em cenas de repreensão severa — em , quando Jesus adverte com dureza o leproso curado, e em , quando censuram a mulher do perfume.

É um verbo de raiva, e os comentaristas gregos antigos o entendiam assim. A suavização é escolha de tradução, e não leitura do termo.

O segundo é o do versículo 33, que descreve turbar-se, agitar-se — o mesmo que João usa para o próprio Jesus diante da morte, em 12:27, e para os discípulos em 14:1.

O terceiro é o do versículo 35, o único que significa mesmo chorar. E ele é diferente do usado para Maria e para os judeus: eles pranteiam, com o verbo do lamento alto e ritual; ele derrama lágrimas, sem alarde. O contraste é visível no grego e desaparece em português.

A pergunta de fundo — por que chorar sabendo o desfecho — tem três respostas circulando.

A leitura da compaixão entende que ele chora com as irmãs, e não pelo irmão. Explica bem o gatilho, que é ver Maria chorando, e é a mais antiga.

A leitura da indignação, que ganhou força quando o verbo forte passou a ser levado a sério, entende que a raiva é dirigida à morte e ao seu domínio, e que o choro decorre disso. Explica bem os versículos 33 e 38, e tem apoio em , que chama a morte de último inimigo.

A leitura que vê a irritação dirigida à descrença dos presentes é minoritária e enfrenta um problema: os judeus ali chorando não estão fazendo nada de censurável, e o próprio texto registra que muitos creram depois.

O fato de a segunda leitura ter demorado a aparecer nas traduções em português é, ele mesmo, um dado sobre como se traduz: um Jesus comovido é mais fácil de imprimir do que um Jesus bufando de raiva diante de um túmulo.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:O texto diz apenas que Jesus se comoveu.

    O verbo dos versículos 33 e 38 descreve um som de indignação, usado na literatura grega para cavalos e, no Novo Testamento, em cenas de repreensão severa. As traduções em português o suavizam.

  • Dizem que:Ele chorou porque não sabia o que ia acontecer.

    Ele anuncia desde o versículo 11 que vai acordar Lázaro, e no 40 lembra Marta do que havia dito. As lágrimas não dependem do desconhecimento do desfecho.

  • Dizem que:Jesus e as pessoas ao redor choram do mesmo jeito no texto.

    O grego usa verbos diferentes: para Maria e para os judeus, o do lamento alto e ritual; para ele, o de derramar lágrimas. O contraste é visível no original e desaparece em português.

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Compaixão pelas irmãs

    Entende que ele chora com Marta e Maria, e não pelo irmão. Explica o gatilho da cena, que é ver Maria chorando, e é a leitura mais antiga.

  • Indignação contra a morte

    Entende a raiva do verbo forte como dirigida à morte e ao seu domínio, com o choro decorrendo disso. Explica bem os versículos 33 e 38, e tem apoio em .

No original3 termos
  • ἐνεβριμήσατοenebrimesato

    O verbo dos versículos 33 e 38. Descreve bufar de indignação — usado para cavalos fora do Novo Testamento e para repreensão severa dentro dele.

  • ἐδάκρυσενedakrysen

    "Derramou lágrimas", no versículo 35. Aparece só aqui no Novo Testamento, e é diferente do verbo usado para o pranto dos demais.

  • κλαίονταςklaiontas

    "Chorando", dito de Maria e dos judeus. É o verbo do lamento alto e ritual, próprio do luto coletivo com carpideiras.

O que fazer com isso

A cena desautoriza um tipo específico de consolo, e o faz de dentro.

Jesus sabia que Lázaro voltaria em minutos. Se saber o desfecho bastasse para dispensar o luto, ele seria o primeiro a não chorar. Ele chora antes.

Isso tem consequência prática direta para quem tenta consolar alguém com garantias sobre o futuro. A garantia, na cena, era absoluta — e não substituiu as lágrimas nem as tornou desnecessárias.

O verbo forte acrescenta outra coisa. Se a reação diante da morte inclui indignação, então revolta diante de uma perda não é falha espiritual. É o que o texto descreve acontecendo com ele.

E as duas irmãs reclamam. Dizem, cada uma por sua vez, que se ele tivesse vindo antes o irmão não teria morrido. Nenhuma das duas é corrigida por isso.

Passagens relacionadas6

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas4 obras
  • Brooke Foss Westcott. The Gospel According to St. John, 1881.
  • Marvin Vincent. Word Studies in the New Testament, 1887.
  • Joseph Henry Thayer. A Greek-English Lexicon of the New Testament, 1889.
  • Henry Alford. The Greek Testament, 1863.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Por que as traduções suavizam o verbo?

É escolha de tradução, e não leitura do termo: os comentaristas gregos antigos o entendiam como indignação. Um Jesus comovido é mais fácil de imprimir do que um Jesus bufando de raiva diante de um túmulo.

Por que Jesus esperou quatro dias?

O texto marca o prazo de propósito. Havia crença corrente de que a alma rondava o corpo por três dias, e o quarto dia marcava o ponto sem retorno — chegar então é chegar depois de qualquer expectativa.

As irmãs foram repreendidas por reclamar?

Não. As duas dizem a mesma frase, separadamente, e nenhuma delas recebe censura por isso. Marta, inclusive, recebe em seguida a declaração sobre a ressurreição e a vida.

Temas

  • No grego
  • #joao
  • #lazaro
  • #luto
  • #novo-testamento

Publicado em 27/08/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

Uma explicação nova por semana

Sem devocional, sem corrente e sem promoção. Só o verbete da semana, com o contexto que normalmente fica de fora. Todo e-mail leva um link para sair, e sair é imediato.

Continue por aqui

Jesus foi rude com a mãe em Caná?

Em português a frase soa como repreensão. Em grego, ela é uma expressão idiomática — *ti emoi kai soi* —, decalque de um hebraísmo que significa algo como "o que isso tem a ver conosco?" ou "em que nossos assuntos se cruzam?".

Ler explicação →

Agapas-me ou phileis-me? O jogo de palavras que o português apaga

O grego tem, no Novo Testamento, mais de uma palavra corrente para "amar", e este trecho usa duas delas alternadamente: ἀγαπάω, agapaō, e φιλέω, phileō. O português quase sempre traduz as duas pela mesma palavra — "amar" —, e o jogo verbal que estrutura a cena inteira desaparece por completo na leitura em tradução.

Ler explicação →