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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Leis que não valem mais

Cristãos devem pegar em serpentes e beber veneno?

O que significa Marcos 16:18?

pegarão serpentes com as mãos; e se beberem algo mortífero, não lhes fará dano algum; porão as mãos sobre os enfermos, e sararão.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

Duas coisas precisam ser ditas, e a segunda é mais importante que a primeira.

A primeira: este versículo está no final longo de Marcos, ausente dos dois manuscritos gregos mais antigos e completos que existem. A maioria das Bíblias modernas o traz com nota indicando o problema.

A segunda, e decisiva: mesmo quem considera o trecho autêntico não encontra ali autorização para provocar o perigo. O texto descreve o que acontecerá aos que creem, e não uma prática a ser buscada. mostra o exemplo — Paulo é picado por acidente ao recolher lenha, não num culto.

Como isso aponta para Jesus

Contraste

O tentador propõe a Jesus que se lance do templo citando o Salmo 91, que promete proteção. A resposta é "não tentarás o Senhor teu Deus" — a promessa existe e não é um instrumento a ser acionado. Paulo, em , ilustra o outro lado: a proteção aparece onde ele não a procurou, e o resultado é que os moradores da ilha ouvem o evangelho.

Respaldo no Novo Testamento: ; ;

Em palavras simples

Esse trecho está no final de um evangelho que falta nos manuscritos antigos mais completos que existem — a maioria das Bíblias modernas traz uma nota avisando sobre isso. Mas mesmo quem aceita o trecho como parte original do texto não encontra ali autorização para provocar perigo de propósito. O único caso parecido na Bíblia é de um apóstolo picado por uma cobra por acidente, enquanto recolhia lenha — não em nenhum tipo de demonstração.

A distinção que importa é entre proteção prometida e perigo provocado. Quando foi tentado a se jogar de um lugar alto para testar se Deus o protegeria, Jesus recusou, dizendo que não se deve testar Deus dessa forma. A promessa de proteção acompanha quem é colocado numa situação perigosa sem ter escolhido — ela não é uma ferramenta para criar essa situação de propósito.

Contexto histórico

é conhecido como "final longo". Os manuscritos Sinaítico e Vaticano, do século IV, terminam o evangelho no versículo 8, com as mulheres saindo do túmulo "e a ninguém nada disseram, porque temiam".

Eusébio e Jerônimo registram que a maioria das cópias gregas conhecidas por eles não continha o trecho. Outros manuscritos trazem um final curto, diferente. Alguns trazem os dois.

Isso não significa que o conteúdo seja falso — vários elementos do final longo aparecem em outros evangelhos e em Atos. Significa que o trecho tem um problema de transmissão documentado, e que construir uma prática exclusivamente sobre ele é apoiar muita coisa em base frágil.

A lista de sinais é: expulsar demônios, falar novas línguas, pegar serpentes, beber algo mortífero sem dano, e curar enfermos. Quatro dos cinco aparecem em Atos.

Aprofundamento

O único caso bíblico correspondente é . Paulo, náufrago em Malta, recolhe gravetos e uma víbora se prende à mão dele. Os moradores esperam que ele inche e caia morto; ele sacode o animal no fogo e nada acontece.

O detalhe que importa é a circunstância: ele estava juntando lenha. Não havia culto, não havia demonstração, e a serpente não foi procurada.

Nenhuma passagem do Novo Testamento registra alguém manuseando cobras deliberadamente ou bebendo veneno para provar fé. E há um texto que aponta na direção oposta: quando o tentador propõe que Jesus se lance do pináculo do templo, citando o Salmo 91, a resposta é "não tentarás o Senhor teu Deus".

Esse é o princípio que decide a questão. Provocar perigo para forçar uma promessa é exatamente o que Jesus recusou fazer.

Sobre a prática, ela existe. Um movimento surgido no início do século XX nos Apalaches, nos Estados Unidos, adota o manuseio de serpentes em cultos, com base neste versículo. Há registro de mortes, incluindo de líderes do movimento, e vários estados americanos proibiram a prática.

É um caso raro em que a consequência de uma leitura pode ser medida. E cristãos de praticamente todas as tradições — inclusive as mais abertas a sinais e curas — rejeitam essa aplicação.

Sobre o final longo em si, a posição mais comum entre comentaristas é aceitar o conteúdo que tem paralelo em outros lugares e não construir doutrina sobre o que só existe ali.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:O versículo manda cristãos manusearem cobras.

    O texto descreve o que acompanhará os que creem, não uma prática a ser buscada. Nenhum caso do Novo Testamento registra manuseio deliberado, e descreve um acidente.

  • Dizem que:O final longo de Marcos é uma invenção sem valor.

    Ele está em muitos manuscritos e foi citado por autores do século II, e a maior parte do conteúdo tem paralelo em outros evangelhos e em Atos. O problema é de transmissão, e a conclusão razoável é não fundar doutrina exclusivamente nele.

  • Dizem que:Quem morre praticando isso não tinha fé.

    A objeção decisiva não é sobre a fé de ninguém: é que Jesus recusou testar uma promessa de proteção quando isso lhe foi proposto, citando Deuteronômio. A prática contradiz o exemplo dele.

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Descrição, não prescrição

    A lista descreve sinais que acompanhariam os que creem, e não instruções de prática. É a leitura da esmagadora maioria das tradições cristãs.

  • Trecho de autoridade textual limitada

    A ausência nos manuscritos mais antigos recomenda cautela em construir qualquer prática sobre o texto. Posição comum entre comentaristas e refletida nas notas das Bíblias modernas.

No original3 termos
  • ἀροῦσινarousin

    "Pegarão, levantarão". Verbo neutro, sem indicação de ritual ou busca deliberada.

  • θανάσιμονthanasimon

    "Algo mortífero". Termo genérico, sem especificar veneno ou substância.

  • ἔχιδναechidna

    A palavra de para a víbora que se prende à mão de Paulo — o único episódio bíblico correspondente.

O que fazer com isso

A distinção prática é entre proteção prometida e perigo provocado.

A Bíblia registra muitos casos de proteção em situações que não foram escolhidas: a fornalha, a cova dos leões, o naufrágio de Paulo. Em nenhum deles alguém entrou por vontade própria para testar.

Daniel foi lançado na cova. Sadraque, Mesaque e Abednego foram atirados na fornalha. Paulo estava recolhendo lenha.

A promessa acompanha quem é colocado na situação. Ela não é uma ferramenta para produzir a situação — e a resposta de Jesus ao tentador é a formulação mais clara disso no Novo Testamento.

Passagens relacionadas6

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas3 obras
  • Henry Alford. The Greek Testament, 1863.
  • Albert Barnes. Notes on the Bible, 1834.
  • Marvin Vincent. Word Studies in the New Testament, 1887.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Devo confiar nas Bíblias que trazem nota sobre Marcos 16?

A nota é sinal de honestidade editorial: ela informa o que os manuscritos mostram. Traduções que a omitem não estão mais próximas do original — estão apenas silenciando um dado conhecido.

O que fazer com o resto do final longo?

A maior parte tem paralelo — a Grande Comissão está em Mateus, as línguas em Atos, as curas em vários lugares. O critério comum é aceitar o que é confirmado e não fundar prática no que aparece só ali.

E Lucas 10:19, "dou-vos poder para pisar serpentes"?

O contexto é o retorno dos setenta e a linguagem é de vitória sobre o inimigo, com "escorpiões e todo o poder do inimigo" na mesma frase. Jesus corrige a euforia deles logo em seguida, dizendo para se alegrarem por outra razão.

Temas

Publicado em 19/08/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 3 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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