Uzá
Por que Uzá morreu ao tocar na arca da aliança?
Ficha do personagem
Cerca de 1000 a.C.; Quiriate-Jearim e a eira de Nacom
Aparece em
Relações
- contemporâneo de Davi
- associado a Obede-Edom
- irmão de Aiô
- filho de Abinadabe
Resposta curta
Uzá, filho de Abinadabe, era um dos dois homens que conduziam a carroça nova com a arca da aliança quando Davi tentou levá-la de Quiriate-Jearim a Jerusalém, por volta de 1000 a.C. Na eira de Nacom, os bois tropeçaram, Uzá estendeu a mão para segurar a arca e morreu ali mesmo, atingido por Deus. O relato afirma que isso aconteceu por causa do seu 'erro', palavra hebraica de sentido incerto. Davi se irou, teve medo e deixou a arca na casa de Obede-Edom. Três meses depois, ao retomar o transporte, os levitas a carregaram sobre os ombros, como a lei mandava. O texto liga o desfecho ao modo errado de transportar o objeto sagrado, e não a uma maldade pessoal de Uzá, de quem nada mais se diz.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
ContrasteA morte de Uzá mostra o quanto o acesso à presença de Deus era restrito sob a antiga aliança: só quem a lei autorizava podia aproximar-se da arca, e mesmo assim por meio de cobertura e varais. O Novo Testamento descreve outra situação, em que o acesso ao santuário é aberto 'pelo sangue de Jesus' (). O contraste não apaga a seriedade do relato antigo; apenas indica o que a tradição cristã vê como mudança de condição com Cristo.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Uzá era um dos dois homens que guiavam a carroça que levava a arca da aliança para Jerusalém, no tempo do rei Davi. Quando os bois tropeçaram, ele segurou a arca e morreu na hora. A Bíblia explica que a lei mandava os levitas carregarem a arca nos ombros, e não numa carroça, e que ninguém devia tocá-la. Davi ficou com raiva e com medo, e deixou a arca na casa de Obede-Edom. Depois a levou do jeito certo.
O mundo dele
Depois da derrota em Afeque, a arca da aliança foi capturada pelos filisteus, que a devolveram em uma carroça nova puxada por vacas (–6). Ela ficou em Quiriate-Jearim, na casa de Abinadabe, no outeiro, e seu filho Eleazar foi consagrado para guardá-la (). Isso durou cerca de vinte anos, segundo . Quando Davi se tornou rei sobre todo o Israel e tomou Jerusalém, quis fazer dela o centro político e religioso da nação, e a vinda da arca fazia parte desse projeto.
O relato de diz que Davi reuniu trinta mil homens escolhidos e que a arca foi posta sobre 'uma carroça nova'. Uzá e Aiô, apresentados como filhos de Abinadabe (o termo hebraico também pode indicar descendentes), conduziam o veículo. Em , o episódio é narrado com a participação de toda a assembleia e com o apoio dos chefes do povo. Os dois livros concordam no essencial, mas diferem em detalhes: o local da morte é a eira de Nacom em Samuel e a eira de Quidom em Crônicas, e não se sabe se são dois nomes do mesmo lugar ou de seus proprietários.
A arca era o objeto mais sagrado de Israel, associado à presença de Deus entre o povo (). A lei previa regras próprias para movê-la: ela tinha varais fixos que não deviam ser retirados (), e somente os coatitas, um clã levita, podiam carregá-la depois que os sacerdotes a cobrissem, sem tocar nas coisas santas, sob pena de morte (). acrescenta que eles levavam os objetos sagrados sobre os ombros, e não em carros. A carroça nova imitava o método usado pelos filisteus, e não o que a lei de Israel prescrevia. Esse é o pano de fundo legal que o próprio Davi invocará depois do desastre. Também convém lembrar que Quiriate-Jearim, onde a arca estava, ficava a cerca de quinze quilômetros de Jerusalém, de modo que a viagem tinha sentido simbólico e festivo, com música de liras, harpas, tamborins, castanholas e címbalos ().
A história
O texto de é breve e seco: os bois tropeçaram, Uzá estendeu a mão para a arca e a segurou, 'e a ira do Senhor se acendeu contra Uzá; e Deus o feriu ali por seu erro; e morreu ali junto à arca de Deus'. A palavra traduzida por 'erro' aparece só aí em toda a Bíblia hebraica, e seu sentido exato é incerto. Antigas versões gregas a entendem como falta de cuidado ou irreverência, e muitas traduções modernas preferem 'irreverência' ou 'temeridade'. O paralelo em é mais direto: ele morreu 'porque estendera a mão à arca'.
O próprio Davi oferece a interpretação mais clara no episódio seguinte. Ao preparar o segundo transporte, ele determina que ninguém carregue a arca senão os levitas, e diz aos chefes: 'Por não a levardes vós da primeira vez, o Senhor nosso Deus irrompeu contra nós, porque não o buscamos segundo a ordenança' (). Ou seja, o problema não foi apenas o toque, mas o conjunto: transporte em carroça em vez de ombros levitas, e um gesto de contato com o objeto que a lei reservava a poucos. Nada no texto sugere que Uzá fosse mau; ao contrário, seu impulso era evitar que a arca caísse. Isso é o que torna o relato difícil para muitos leitores, e a Bíblia não tenta suavizá-lo.
A reação de Davi também é registrada com honestidade. Ele se irritou (o verbo hebraico indica ardor, raiva), chamou o lugar de Perez-Uzá, 'rompimento contra Uzá', nome que o texto diz permanecer 'até hoje', e teve medo: 'Como virá a mim a arca do Senhor?' (). Em vez de seguir adiante, deixou a arca na casa de Obede-Edom, o geteu, onde ela permaneceu três meses e a casa foi abençoada (). Só então o transporte recomeçou, desta vez com sacrifícios a cada seis passos () e com os levitas carregando a arca.
Há uma tradição de leitura que enfatiza a santidade, e outra que nota o peso político: Davi ligava a arca a seu reinado, e o episódio lembra que Deus não pode ser instrumentalizado. Um detalhe digno de nota é que a segunda tentativa, em , inclui uma convocação formal dos sacerdotes Zadoque e Abiatar e dos chefes levitas, que se santificam antes de subir com a arca (). Isso mostra que o episódio de Uzá produziu uma mudança concreta de procedimento, e não apenas uma lembrança dolorosa. Quanto a Uzá, o texto não registra sepultamento, nem palavra de Davi sobre ele além do nome dado ao lugar. O texto, porém, não escolhe entre essas leituras e termina com o luto, o temor e a correção do método.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Uzá era um homem mau, e por isso Deus o matou.
Os textos não dizem nada contra o caráter de Uzá. O motivo apresentado é o seu 'erro' ao estender a mão para a arca (), e Davi relaciona o desastre ao método inadequado de transporte ().
Dizem que:Uzá era sacerdote ou levita e já sabia da proibição.
O texto apenas o chama de filho de Abinadabe, de Quiriate-Jearim. Não há indicação de que fosse levita; é por isso que a questão da lei sobre o transporte também recai sobre Davi e os chefes.
Dizem que:A arca matou Uzá por uma força mágica que ela possuía.
Os relatos atribuem a morte à ira do Senhor (; ), e não a um poder automático do objeto. A arca é apresentada como sinal da presença divina, sujeita à vontade de Deus.
Como diferentes tradições cristãs leem5
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica
A tradição rabínica discute o caso. Um texto do Talmude (Sotá 35a) atribui o desastre ao fato de Davi ter chamado as palavras da Torá de 'cânticos' (), o que o levou a tratar com leveza algo que tinha regras. Outros leitores enfatizam a santidade da arca e o dever de seguir a lei sobre seu transporte.
Católica
Costuma ler o episódio como lição sobre a reverência devida ao que é sagrado e sobre a obediência às normas do culto. Muitos autores veem em uma sugestão de que Maria é a arca da nova aliança, pois a pergunta de Isabel em ecoa a de Davi em . Essa leitura pertence à tradição e não é afirmada no texto de Samuel.
Ortodoxa
Enfatiza o temor diante da santidade de Deus e a necessidade de que o culto siga a ordem recebida. A resposta de Davi, que reconhece o medo e refaz o caminho com reverência e festa, é vista como modelo de arrependimento.
Protestante reformada
Tende a ver no caso uma advertência contra inovações no culto: a carroça nova seguiu um costume dos filisteus, e não a palavra de Deus. João Calvino e outros comentaristas destacam que a boa intenção não substitui a obediência ao que foi ordenado.
Crítica histórica
Muitos estudiosos veem o relato como uma explicação do nome Perez-Uzá e da cautela em torno da arca, e notam diferenças entre Samuel e Crônicas. Estas leituras preservam o fato de que o texto bíblico associa o desfecho à santidade do objeto e à forma do transporte.
O que fazer com isso
O relato de Uzá lembra que boas intenções não substituem a atenção ao modo como se lida com o que é sagrado. Ao mesmo tempo, a resposta de Davi, que reconheceu o temor, parou e corrigiu o método em vez de insistir, mostra uma forma honesta de reagir a um fracasso. Há perguntas que o texto deixa em aberto, e admiti-lo faz parte de lê-lo com seriedade.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- Robert Alter. The David Story: A Translation with Commentary of 1 and 2 Samuel, 1999.
- P. Kyle McCarter Jr.. II Samuel: A New Translation with Introduction and Commentary (Anchor Bible), 1984.
- Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament (1 e 2 Samuel), 1878.
- Flávio Josefo. Antiguidades dos Judeus (livro 7).
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Onde Uzá morreu?
Na eira de Nacom, segundo , ou na eira de Quidom, segundo . O lugar passou a se chamar Perez-Uzá, 'rompimento contra Uzá'. Não se sabe ao certo se os dois nomes designam o mesmo local.
Por que Davi ficou irado?
O texto diz que Davi se irou e depois teve medo (). Não explica as razões, mas a reação é de quem se vê diante de um fracasso público no que devia ser uma celebração.
Qual foi o erro de Uzá?
A palavra hebraica usada em é rara e de sentido incerto. Crônicas diz que ele morreu por estender a mão à arca, e Davi atribui o desastre ao fato de a arca não ter sido levada pelos levitas, como a lei mandava ().
O que aconteceu com a arca depois?
Ficou três meses na casa de Obede-Edom, o geteu, que foi abençoado, e depois Davi a trouxe para Jerusalém com sacrifícios e festa, desta vez carregada pelos levitas (; ).