Acã
Quem foi Acã e por que foi punido em Jericó?
Ficha do personagem
c. séc. XIII a.C. (cronologia debatida), Jericó e Ai, Canaã
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Resposta curta
Acã, filho de Carmi, da tribo de Judá, é o israelita que desobedeceu à ordem dada na tomada de Jericó. A cidade fora declarada anátema (herém): tudo o que havia nela pertencia ao Senhor, e nada podia ser levado para uso pessoal. Acã cobiçou um manto, prata e ouro, pegou tudo e enterrou no chão de sua tenda.
O preço apareceu na batalha seguinte: Israel foi derrotado em Ai, e trinta e seis homens morreram. Josué ouviu de Deus que o pecado estava no meio do povo, e um sorteio por tribo, clã, família e indivíduo apontou Acã. Ele confessou, foi levado ao vale de Acor e ali apedrejado, junto com o que lhe pertencia. A punição da família é um dos pontos mais discutidos do relato.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO relato de Acã não aponta diretamente para Cristo, e o texto não oferece uma tipologia clara. O Novo Testamento tem um episódio paralelo no desvio de bens consagrados dentro da comunidade primitiva: Ananias e Safira retêm parte do valor de um campo e mentem sobre isso (). A comparação é feita por muitos comentaristas por causa da sequência de apropriação, ocultação e consequência no começo de uma nova fase da história do povo de Deus. É uma semelhança de situação, não uma profecia cumprida.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Acã era um israelita da tribo de Judá. Quando Israel conquistou Jericó, Deus mandou que todo o saque da cidade fosse separado para ele. Acã pegou um manto, prata e ouro e escondeu tudo na própria tenda. Pouco depois, Israel perdeu uma batalha em Ai. Por meio de um sorteio, Acã foi descoberto, confessou e foi apedrejado no vale de Acor. A Bíblia usa o caso para mostrar que a desobediência de uma pessoa pode afetar todo o povo, mas a punição da família ainda é muito debatida.
O mundo dele
A história de Acã se passa nos primeiros passos da entrada de Israel em Canaã, sob a liderança de Josué, depois da travessia do Jordão. A cronologia da conquista é debatida entre os estudiosos, e a identificação arqueológica de Jericó e de Ai também; o texto bíblico, porém, situa o episódio logo depois da queda de Jericó, no início da campanha. O cenário é o de uma guerra santa: Israel marcha sob ordens expressas de Deus, e o primeiro triunfo, as muralhas caindo ao redor de Jericó, é apresentado como obra divina e não como mérito militar ().
O termo central é herém, geralmente traduzido por "anátema" ou "devoção à destruição". Em , Josué ordena que a cidade e tudo o que há nela sejam consagrados ao Senhor para destruição, com exceção de Raabe e sua família; a prata, o ouro e os objetos de bronze e ferro deviam entrar no tesouro do Senhor. Josué também alerta que quem tomasse algo do anátema tornaria "maldito o arraial de Israel" (6:18). Em outras palavras, o herém marcava o que era retirado do uso comum e entregue por inteiro a Deus; apropriar-se de qualquer parte disso era uma forma de roubo do que já não era dos homens. Outras passagens da Lei, como , tratam de modo parecido os objetos ligados à idolatria.
Acã é identificado com cuidado: filho de Carmi, neto de Zabdi, bisneto de Zerá, da tribo de Judá (). O detalhe da genealogia importa para o sorteio. Em , o nome aparece na forma Acar, "o perturbador de Israel, que prevaricou no anátema", o que sugere um jogo de palavras com o hebraico para "perturbar". também lembra o caso, ao dizer que Acã "não pereceu sozinho na sua iniquidade". É dentro desse quadro de guerra santa e de aliança coletiva que o relato precisa ser lido.
A história
Depois de Jericó, Josué envia alguns milhares de homens para tomar Ai, uma cidade pequena, e os israelitas fogem; cerca de trinta e seis morrem, e "o coração do povo se derreteu" (). Josué rasga as vestes, prostra-se diante da arca e pergunta a Deus por que isso aconteceu. A resposta é direta: "Israel pecou; transgrediram a minha aliança... tomaram do anátema, e também furtaram, e dissimularam, e o puseram entre os seus pertences" (7:11). Note-se que o verbo está no plural e o sujeito é "Israel": o texto trata a comunidade como uma unidade, ainda que o ato tenha sido de um só homem.
Deus ordena um procedimento de identificação: o povo se apresenta por tribo, depois por clã, família e indivíduo, até que o sorteio recaia sobre Acã (7:14-18). O texto diz apenas que cada grupo foi "tomado" e não descreve o método, mas costuma-se entender o procedimento como lançamento de sortes, como em . Josué não o condena de imediato: chama-o de "filho meu" e pede que dê glória ao Senhor e confesse (7:19), tom que contrasta com a dureza do desfecho. Acã admite: viu entre os despojos "um formoso manto babilônico", duzentos siclos de prata e uma barra de ouro de cinquenta siclos, "cobicei-os e tomei-os", e escondeu tudo na terra, no meio da tenda (7:20-21).
A execução ocorre no vale de Acor. Josué diz: "Por que nos conturbaste? O Senhor hoje te conturbe" (7:25), e o texto explica o nome do lugar com esse jogo de palavras. Depois do apedrejamento, forma-se um grande monte de pedras. O vale reaparece em , onde Deus promete fazer do "vale de Acor" uma "porta de esperança", e em , como lugar de repouso para o gado, imagens de reversão da vergonha.
A questão mais debatida é a sorte da família. diz que Josué e todo o Israel levaram ao vale Acã, os objetos roubados, os filhos, as filhas, os animais e tudo o que era dele, e o versículo 25 diz que "os apedrejaram" e "os queimaram". O texto hebraico não esclarece se os filhos foram executados ou se estavam apenas presentes, como testemunhas, quando os bens foram queimados. Isso importa porque proíbe punir filhos pelos pecados dos pais. Intérpretes que veem execução da família apontam para a solidariedade da casa no pensamento antigo; outros lembram que o texto não afirma isso de modo explícito.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Acã foi punido por roubar de pessoas de Jericó.
O pecado, segundo o texto, foi tomar o que fora consagrado ao Senhor sob herém (; 7:11). A questão não é o roubo comum, mas a violação de uma ordem direta de Deus sobre aquele despojo.
Dizem que:A Bíblia diz claramente que os filhos de Acã foram executados por causa do pecado do pai.
é ambíguo quanto à sorte dos filhos. O texto lista que foram levados ao vale com os bens, mas não deixa claro que foram apedrejados, e afirma que filhos não devem morrer pelos pecados dos pais. A interpretação continua debatida.
Dizem que:Israel foi derrotado em Ai porque o exército era pequeno e mal preparado.
A explicação dada no próprio texto é outra: Deus declara que Israel pecou ao tomar do anátema (). A derrota é apresentada como consequência teológica, não como erro tático.
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica rabínica
O Talmude (Sanhedrin 43b-44a) discute o caso de Acã ao tratar da responsabilidade do povo por seus membros. Uma das ideias ali presentes é a de que, mesmo tendo pecado, Israel continua sendo Israel, o que sublinha a ligação entre indivíduo e comunidade sem anular a chance de restauração.
Patrística e católica
Orígenes, em suas Homilias sobre Josué, lê o caso de modo alegórico: Acã representa a cobiça escondida que impede a vitória do cristão, e Jericó e Ai figuram as batalhas da vida espiritual. A leitura moral tradicional enfatiza o perigo do pecado oculto.
Reformada
Enfatiza a seriedade da aliança e a solidariedade da comunidade da aliança: o pecado de um membro afeta o corpo inteiro. Comentadores dessa tradição costumam sublinhar a justiça de Deus e a graça de ter dado a Acã a chance de confessar, sem deixar de reconhecer a dureza da cena.
Crítica histórica
Muitos estudiosos tratam o relato como uma narrativa teológica da guerra santa, compilada tempos depois, e debatem as dificuldades arqueológicas de Jericó e Ai. Veem no episódio uma explicação de como a derrota podia ser vista como juízo divino.
O que fazer com isso
A história de Acã mostra como uma escolha escondida pode ter efeitos que ultrapassam quem a fez. O texto não pinta Acã como um vilão de origem, e sim como alguém que viu, cobiçou, tomou e ocultou. A confissão, mesmo tardia, é registrada. Ao mesmo tempo, o relato é duro e pede cautela: a punição coletiva não é um modelo que o leitor possa aplicar sem mais nem menos, e o próprio texto bíblico a coloca dentro de um contexto único de guerra santa.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament (Joshua, Judges, Ruth).
- Trent C. Butler. Joshua (Word Biblical Commentary), 1983.
- Orígenes. Homilias sobre Josué.
- Tradição rabínica. Talmude Babilônico, tratado Sanhedrin.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O que é o herém, ou anátema, de Jericó?
É a consagração de uma cidade e de seus bens a Deus, em geral por destruição. Em Jericó, o ouro, a prata, o bronze e o ferro deviam ir para o tesouro do Senhor (). Tomar algo disso para uso pessoal era violar a ordem divina.
Por que o lugar se chama Vale de Acor?
O texto liga o nome ao verbo "perturbar": Josué diz a Acã "Por que nos conturbaste?" (). Em , o nome aparece como Acar, "o perturbador de Israel". O vale depois é lembrado como "porta de esperança" ().
A família de Acã foi morta junto com ele?
O texto não é totalmente claro. diz que os filhos e filhas foram levados ao vale com os bens e que "os apedrejaram" e "os queimaram", mas o sujeito e o alcance da frase são discutidos. proíbe punir filhos pelos pecados dos pais.
O que era o sorteio usado para encontrá-lo?
Era um procedimento de consulta a Deus em que o povo se aproximava por tribo, clã, família e pessoa (). O texto usa o verbo "tomar" e não descreve o método; costuma-se entender como lançamento de sortes, prática vista também em .