Trófimo
Quem foi Trófimo, o efésio, causa do tumulto em Jerusalém?
Ficha do personagem
Séc. I d.C., Éfeso e Jerusalém
Resposta curta
Trófimo era um gentio de Éfeso que acompanhou Paulo na viagem de volta a Jerusalém, como indica . Em , alguns judeus da Ásia o viram na cidade com Paulo e, mais tarde, supondo que o apóstolo o tivesse levado ao templo, acusaram Paulo de profanar o lugar santo. O tumulto levou à prisão de Paulo pelos romanos, o que o manteve cativo por anos. Atos não diz que Trófimo tenha entrado no templo nem que tenha sido detido. Em , ele é citado como alguém que Paulo deixou doente em Mileto. Fora desses três textos, a Bíblia nada mais diz sobre ele.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
ContrasteO episódio gira em torno de uma barreira que impedia o gentio de se aproximar do santuário, e Trófimo, gentio, é o nome em torno do qual se forma a acusação. Efésios, carta escrita por Paulo a uma igreja da cidade de Trófimo, descreve Cristo como aquele que “derrubou o muro de separação” entre judeus e gentios e deu a ambos acesso ao Pai (). Muitos comentaristas veem aqui uma alusão à barreira do templo, embora o texto não a mencione. O contraste está entre o templo, que excluía o gentio por uma barreira, e Cristo, que o admite em si mesmo.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Trófimo era um cristão de Éfeso, de origem não judaica, que viajou com Paulo até Jerusalém. Lá, algumas pessoas o viram andando com Paulo pela cidade e imaginaram que Paulo o tinha levado a uma parte do templo proibida a quem não era judeu. Isso causou um tumulto, e Paulo acabou preso pelos romanos. A Bíblia não diz que Trófimo tenha entrado no templo. Depois, uma carta de Paulo conta que ele deixou Trófimo doente na cidade de Mileto.
O mundo dele
Trófimo era de Éfeso, a cidade principal da província romana da Ásia. o chama de “efésio”, e o inclui, com Tíquico, entre “os da Ásia” que acompanhavam Paulo. O contexto dessa viagem é o fim da terceira viagem missionária, quando Paulo se dirige a Jerusalém com delegados de várias igrejas (). Em Jerusalém, Tiago e os presbíteros sugerem que Paulo participe do rito de purificação de quatro homens que tinham feito um voto, para mostrar que ele continuava a respeitar a lei (). É nessa ocasião, quando os sete dias do rito estavam quase terminados, que acontece o tumulto.
O ponto central é a distinção entre judeus e gentios no templo de Jerusalém. O pátio interno, onde ficava o santuário, era reservado a judeus. Uma barreira de pedra separava o pátio dos gentios do restante, com inscrições em grego e latim que ameaçavam de morte o estrangeiro que a ultrapassasse. Duas dessas inscrições foram encontradas, uma em 1871 e outra em 1935, e o historiador Josefo descreve a barreira e as advertências (Guerra Judaica 5.193-194). Por isso a acusação contra Paulo era grave: introduzir um gentio nesse espaço seria um sacrilégio, e a multidão estava pronta a matar por isso ().
Os acusadores eram “judeus da Ásia” (21:27), que já conheciam Paulo e Trófimo de Éfeso e poderiam reconhecê-los. O relato de Atos insiste que a acusação nasceu de uma suposição: eles tinham visto Trófimo na cidade com Paulo “e supunham que Paulo o tinha introduzido no templo” (21:29). mostra que, no julgamento diante de Félix, a acusação continuava sendo de tentativa de profanar o templo. Desse modo, um nome citado de passagem em reaparece no centro de um conflito que muda o rumo de Paulo, sem que o próprio Trófimo diga uma palavra em todo o relato.
A história
O relato de é rápido e violento. Judeus da Ásia veem Paulo no templo, alvoroçam a multidão e gritam: “Israelitas, socorro! Este é o homem que por toda parte ensina a todos contra o povo, contra a lei e contra este lugar; e ainda introduziu gregos no templo e profanou este santo lugar” (21:28). Segue-se a explicação do narrador: tinham visto Trófimo com ele, “e supunham” que o levara ao templo. Arrastam Paulo para fora, fecham as portas e tentam matá-lo, até que o tribuno Cláudio Lísias intervém com soldados, prende Paulo e o leva à fortaleza Antônia. Daí em diante a prisão de Paulo se prolonga pelo julgamento em Cesareia e a viagem a Roma.
O texto nunca diz que Trófimo tenha entrado no templo, nem que tenha sido preso, nem onde estava quando houve o tumulto. Ele funciona como uma causa indireta, e sua função na narrativa é mostrar a origem de uma acusação falsa. Lucas deixa claro que a acusação não correspondia aos fatos. Mais tarde, em seus discursos, Paulo afirma que estava no templo para cumprir um rito, sem multidão nem tumulto ().
A outra menção é : “Erasto ficou em Corinto; e deixei Trófimo doente em Mileto.” Isso apresenta um problema de cronologia, já bem conhecido dos comentaristas. Em , Trófimo está com Paulo em Jerusalém, depois de uma passagem por Mileto em , e Paulo foi então preso. Portanto, só pode referir-se a outra viagem. Quem aceita a autoria paulina das cartas pastorais costuma supor que Paulo foi libertado da primeira prisão romana e teve ainda um período de atividade, no qual passou por Mileto. Quem as considera escritas por um discípulo de Paulo as vê como uso de tradições sobre os colaboradores do apóstolo. A Bíblia não resolve a questão, e o texto é discreto: não diz qual doença Trófimo tinha nem se Paulo esperava que ele se recuperasse.
Vale notar o contraste: o mesmo Paulo que, segundo Atos, curou doentes em outros lugares (; 28:8-9) deixa Trófimo doente. O Novo Testamento não oferece explicação, e qualquer resposta seria especulação. O dado histórico mais seguro, portanto, é duplo: Trófimo foi um companheiro de Paulo vindo de Éfeso, e seu nome ficou ligado ao episódio que levou o apóstolo da liberdade para a prisão, ao passo que sua história posterior fica em silêncio, salvo pela breve nota de Mileto. Também ajuda notar que Lucas não lhe atribui culpa alguma, e que o próprio Paulo, ao se defender, não menciona Trófimo.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Paulo levou Trófimo ao templo e por isso foi preso.
diz que os acusadores apenas “supunham” que Paulo o tinha introduzido. O narrador não confirma o fato, e a prisão de Paulo ocorre por causa do tumulto, não pela comprovação de que algum gentio tenha entrado.
Dizem que:Trófimo foi preso junto com Paulo em Jerusalém.
O texto de Atos não menciona nenhuma prisão de Trófimo. Só Paulo é arrastado e detido pelo tribuno. Não se sabe onde Trófimo estava durante o tumulto.
Dizem que:O Trófimo de Atos foi o primeiro bispo de Arles, na França.
A tradição gaulesa antiga identificou o bispo de Arles com o companheiro de Paulo, mas historiadores como Louis Duchesne contestaram que a fundação apostólica da igreja de Arles seja histórica; a tradição é tardia e não comprova que o bispo e o companheiro de Paulo sejam a mesma pessoa.
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Ortodoxa
A tradição ortodoxa celebra Trófimo como um dos Setenta apóstolos e lhe atribui martírio em Roma, junto com Paulo, em relatos tardios. Essas informações não constam do Novo Testamento, que se limita aos três textos mencionados.
Católica
Algumas tradições locais, sobretudo na Gália, o veneraram como evangelizador e primeiro bispo de Arles. A historiografia católica moderna considera essa identificação duvidosa e distingue o Trófimo de Atos de figuras posteriores com o mesmo nome.
Protestante
Comentaristas protestantes tendem a destacar o episódio como exemplo de como Paulo foi preso por uma acusação sem fundamento, em linha com o que Lucas escreve em –28, e leem como prova de que a doença de um colaborador não significa falta de fé nem abandono por parte de Deus.
Crítica histórica
Muitos especialistas consideram o episódio de historicamente plausível, dada a existência das inscrições de advertência. Em divergem: uns veem uma lembrança autêntica de outra viagem de Paulo, outros um dado integrado por um autor posterior às cartas pastorais.
O que fazer com isso
Trófimo foi acusado sem ter feito nada, ou ao menos sem que o texto diga que tenha feito algo. O episódio lembra como uma suposição pode virar acusação e como alguém inocente pode ser motivo involuntário de uma crise. A narrativa não explora isso como lição: apenas registra os fatos. Fica o alerta para distinguir o que se viu do que se supôs, antes de acusar.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- Joseph A. Fitzmyer. The Acts of the Apostles (Anchor Bible), 1998.
- Luke Timothy Johnson. The Acts of the Apostles (Sacra Pagina), 1992.
- Flávio Josefo. A Guerra dos Judeus.
- Louis Duchesne. Fastes épiscopaux de l’ancienne Gaule, 1907.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que Trófimo causou um tumulto em Jerusalém?
Judeus da Ásia o viram na cidade com Paulo e supuseram que Paulo o tinha levado ao templo, onde gentios não podiam entrar além de certo pátio. A acusação, apresentada por Atos como falsa, desencadeou o tumulto e a prisão de Paulo.
Trófimo era judeu ou gentio?
Gentio. A acusação em só faria sentido se ele não fosse judeu, e o texto o chama de “efésio”. o associa a Tíquico como “da Ásia”.
O que aconteceu com Trófimo em Mileto?
Segundo , Paulo o deixou doente ali. O texto não diz que doença era nem o que aconteceu depois. Não se pode identificar essa ocasião com a de , porque Trófimo ainda estava com Paulo em .
Trófimo é o mesmo que Tíquico?
Não. cita os dois como pessoas diferentes, ambos da Ásia. Os dois viajavam com Paulo, mas Tíquico aparece como portador de cartas, e Trófimo como o gentio que provocou a suspeita em Jerusalém.